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Sábado, 1 de março de 2008, 18h49

"Um golpe no coração" das Farc

Javier Riveros, direto da Colômbia

Luciano Marín Arango, apelidado "Iván Márquez", poderia assumir o posto de Raúl Reyes, segundo Camilo Gómez, comissário de paz do governo de Andrés Pastrana. Márquez, também membro da chefia das Farc, foi quem, no final de 2007, se reuniu em Caracas com o presidente Venezuelano Hugo Chávez para discutir uma possível troca de sequestrados por rebeldes na prisão.

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A sucessão é um tema que seguramente será debatido. "No secretariado - comando central das Farc - há membros suplentes, mas quanto a quem assumirá o trabalho político e internacional, é difícil prever. Márquez foi a via de comunicação do secretariado com o governo Chávez", explica Carlos Lozano, diretor do semanário comunista Voz.

Para Teófilo Vásquez, investigador do Cinep, a morte de Reyes é o primeiro resultado concreto do Plano Patriota e evidencia que a política de Segurança Democrática do Governo está muito bem desenhada militarmente, já que logrou cortar as comunicações entre as zonas montanhosas onde está a cúpula das Farc, e nas planícies onde atuam as tropas.

Assim foi reconhecido inclusive por membros do partido opositor Polo Democrático, como o senador e ex-guerrilheiro do M-19 Gustavo Petro, que considera que a ação do Exército encerrada com a morte de Reyes "é um golpe na cúpula das Farc e o maior êxito militar em 60 anos". No entanto, além disso, não há acordos.

Camilo Gómez assinala que "a morte é um golpe muito forte porque a moral dos guerrilheiros deve ser muito afetada, eles têm que entender que assim vão acabar todos os dirigentes, se não decidirem avançar na busca pela paz". A mesma opinião tem o governo, que crê que a solução do conflito está nas mãos do exército.

No outro extremo se econtra Carlos Lozano, diretor do semanário comunista Voz, que também crê que a morte "é um golpe profundo que secretariado - comando central - irá sentir", mas "é um golpe também contra os processos políticos de negociação", na medida em que o governo conseguiu "um troféu de guerra e assim o vai apresentar, para dar um sinal no sentido de que pela via militar se pode esmagar a guerrilha e que assim como caiu Reyes, cairão os demais".

Implicações

Quanto ao impacto que pode ter a morte de Reyes nas Farc, os analistas tampouco compartilham o otimismo do governo de Álvaro Uribe. Lázaro Riveros, que conheceu Reyes e atuou como negociador durante o processo de paz do presidente Pastrana, opina que a morte do guerrilheiro "obviamente é um duro golpe, caiu um peixe gordo", mas "as Farc nesse sentido tem clareza e seguirão movendo-se conforme seus princípios e estruturas...será substituido imediatamente", disse.

Para uma guerrilha de tantos anos estas eventualidades são previsíveis, assegura Lozano. "Não digo que não a sintam, mas é totalmente previsível e não creio que vá implicar o desmoronamento das Farc ou sua desmoralização total, mas sim que tenham que assimilar este golpe e entender que há que se persistir nas saídas políticas e nas causas humanitárias".

A morte de Reyes é "um golpe no coração" das Farc, disse León Valencia, analista político e ex-guerrilheiro do já pacificado Movimento 19 de Abril (M-19), que podem tanto se fechar e não exibir mais seus chefes ou, pelo contrário, intensificar seus gestos internacionais e libertar mais seq6uestrados para compensar o golpe militar recebido. Fortaleceriam assim seu braço político.

Vásquez não cre que possa haver uma grande retaliação, precisamente por falta de comunicação com os quadros urbanos, mas não descarta que se cometam alguns atentados nas próximas semanas. O problema está na posição das Farc em relação ao intercâmbio humanitário, que a partir da baixa de Reyes pode ser congelado por um período de alguns meses enquanto a guerrilha se reorganiza.

Dirigentes da Igreja Católica, que tem buscado contatos com os rebeldes para conseguir uma troca, manifestaram que as Farc poderiam reagir a morte de um de seus chefes "positiva ou negativamente". Fábian Marulanda, membro da direção da Conferência Episcopal, espera que "oxalá seja uma reação sensata" e que não pratiquem represálias contra os reféns.

"Agora, com muito mais razão o governo pode ser generoso e pode estender novamente a mão para que se produza, tomara, uma zona de encontro na qual os delegados do governo possam se sentar com representantes da guerrilha para pactuar as condições de libertação de todos os seqüestrados", afirma Marulanda.

"A guerrilha seguramente entenderá que não se pode modificar as diretrizes que permitiram as libertações unilaterais e mantém aberta uma possibilidade para o intercâmbio", conclui Lozano.

Quem era "Raul Reyes"

"Reyes", cujo nome verdadeiro é Luis Edgar Devia silva, nasceu em 30 de setembro de 1948 na localidade de La Plata, no departamento de Huila (Sul), e nos anos 70 se uniu à guerrilha.

Sua entrada na luta armada em que estavam imersas as Farc desde 1964 se deu depois de ter passado pelo sindicalismo, enquanto trabalhava em uma fábrica da companhia Nestré no departamento de Caquetá (Sul ocidental da Colômbia).

"Reyes" se uniu a terceira frente das Farc, cuja área de influência era seu departamento Natal, onde foi pouco a pouco adquirindo notoriedade. Passou posteriormente a fazer parte do secretariado (comando central) das Farc, junto ao fundador e chefe máximo da Guerrilha, o ancião Pedro Antonio Marín, apelidado "Manuel Marulanda", o "Tirofijo", e de "Mono Jojoy", "Alfonso Cano", "Iván Márquez", "Timochenko" e "Efrain Guzmán".

Ainda que sempre se tenha pensado que Jorge Bricêno, apelidado "Mono Jojoy", fosse o chefe militar da guerrilha, enquanto que Guillermo León Sáenz, apelidado "Alfonso Cano", fosse o ideólogo, "Raul Reyes" adquiriu desde o final dos anos 90 do século passado uma maior relevância sobre o campo internacional e idelógico das Farc.

Esta postura fez com que ele fosse considerado o segundo no comando das Farc, como responsável pela área internacional da Guerrilha, mas é possível que também o seja por ser o marido de "Olga Marín", filha de "Tirofijo".

"Reyes", que já havia conquistado protagonismo durante o falido processo de negociação (1999-2002) encabeçado pelo então presidente Andrés Pastrana, converteu-se no principal porta-voz da guerrilha após a ruptura desse processo.

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