
Maria Falcão
Logo que terminei a faculdade de medicina, para o desespero dos meus pais, entrei em crise existencial tardia e quis deixar a profissão. Na época tinha descoberto a comunicação e um mundo belo, cheio de curiosidades e sem queixas se abria pra mim. Fui atrás dessa novidade - e por isso hoje tenho o privilégio de ter essa coluna em Terra Magazine - mas, por mais que tentasse me ver livre, o fantasma da medicina me perseguia. Eu não conseguia largar.
Passados 6 anos, desisti de investir nesse dilema e aceitei que a medicina é o meu vício. Não que eu seja daquelas médicas obcecadas pelo trabalho, que respiram medicina e não têm outro assunto na vida. Pelo contrário! Quem me conhece sabe que fujo desse padrão e não faço a menor questão de ser vista dessa forma, nem no meio médico e muito menos fora dele. Mas quando falo de vício, me refiro ao prazer que essa profissão me proporciona: uma sensação indescritível de utilidade, de poder, sei lá... É totalmente clichê e cafona até o que vou dizer, mas o prazer de ser capaz de curar alguém, de aliviar a dor do outro é uma dádiva.
E como a cura e o alívio que sou capaz de proporcionar são o meu combustível para seguir na profissão, quando eles me faltam, me sinto extremamente frustrada e desestimulada. Deve acontecer o mesmo com a maioria dos médicos... Acontece que o insucesso também é freqüente na prática médica. Algumas doenças insistem em desafiar os avanços e as novas tecnologias na área de saúde e precisamos saber lidar com elas, seja através da paciência nos tratamentos demandantes e prolongados, e às vezes até, nos conformando. Acontece que diante de algumas doenças, nada disso funciona pra mim. O glaucoma é uma delas: não me conformo de ver um paciente perder a visão, quando estamos falando de uma doença difícil, sim, mas para a qual existem exames preventivos e existe tratamento. Infelizmente, porém, falta esclarecimento, e muito.
Sobre essa doença que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), pode ser a responsável por 80% dos casos de cegueira nos países em desenvolvimento e que, ainda segundo a OMS, acomete quase 4 milhões de brasileiros, conversei com a médica oftalmologista Renata Ferreira. *
Terra Magazine - O que é o glaucoma?
Dra. Renata Ferreira - Doença do nervo óptico devido geralmente a um aumento da pressão intra-ocular, onde há perda de fibras nervosas. O nervo óptico, por sua vez, é um feixe de fibras que leva a percepção visual, captada pelo olho na retina, até uma região no cérebro responsável pela formação da imagem.
Qual a causa dessa doença?
Geralmente está associada, como já dito, a um aumento da pressão ocular, e alguns fatores como idade avançada, raça negra e história familiar (parentesco principalmente entre irmãos) predispõem o indivíduo a desenvolverem esse problema. Mas, diferentemente do que as pessoas pensam, o glaucoma não está necessariamente associado a aumento de pressão - existem várias hipóteses para a destruição do nervo, mas nada definitivo. O caso é que o tipo que tem a pressão como causa é o único tipo de glaucoma tratável.
Quais os tipos de glaucoma?
Existe o tipo primário e o tipo secundário a outras doenças (tumores de retina, trauma, síndromes congênitas, uso de corticóide, etc...). O tipo primário se divide ainda em glaucoma de ângulo aberto e glaucoma de ângulo fechado.
Existe uma via por onde é drenado o líquido que nutre e oxigena o olho (humor aquoso). No glaucoma de ângulo aberto, essa via não tem alterações. Provavelmente, o glaucoma pode estar relacionado a aumento da produção de líquido, ou ele é um dos tipos não relacionados a aumento de pressão, como mencionado anteriormente. No de ângulo fechado, a via de drenagem está obstruída e como a produção do líquido é incessante, há aumento de pressão intra-ocular.
Existe tratamento para essa doença?
Para cada tipo de glaucoma há um tratamento diferenciado. Para os dois tipos, porém, existem colírios que aumentam a drenagem e colírios que diminuem a produção do humor aquoso. Quando não for suficiente esse tratamento tópico, recorre-se à cirurgia para criar uma via satisfatória de drenagem.
Quais os sintomas mais comuns?
Geralmente o quadro é crônico e assintomático (daí o problema). Às vezes o paciente só percebe a perda de visão quando mais de 90% das fibras já estão comprometidas. Em alguns casos a doença se manifesta de forma aguda (ou seja, subitamente). Nesse caso, pode vir acompanhada de dor intensa, náuseas, vômitos, hiperemia (vermelhidão) e lacrimejamento, e baixa de visão.
Como é feito o diagnóstico?
Por meio de um exame clínico oftalmológico completo, com avaliação do nervo óptico, e exames complementares como campo visual, tonometria, paquimetria e OCT (tomografia do nervo óptico).
É possível se prevenir contra o glaucoma?
Não existem fatores modificáveis para aqueles que já têm uma predisposição ao glaucoma. Ou seja, para quem tem propensão a ter a doença, não há maneiras de evitar o seu aparecimento. O que pode ser feito, e esse é o apelo que fazemos nas campanhas de conscientização da população, são exames preventivos realizados por oftalmologista, para diagnóstico precoce, evitando assim a progressão da doença e a lesão do nervo óptico, que pode levar à cegueira.
* Dra. Renata Ferreira é médica oftalmologista do Instituto Brasileiro de Oftalmologia e Prevenção à Cegueira - IBOPC
Fale com Maria Falcão: falcaomaria@terra.com.br
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