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Sábado, 8 de março de 2008, 07h37

Pierre, do Palmeiras: "Volante não pode ser meigo"

Luciano Borges

Volante bom é volante viril. Na escola de ladrões de bola onde Pierre foi formado, não é permitido ter clemência. Ainda mais se o dono da posição for pequeno como Josué e Mineiro. É o caso do baiano que completou 26 anos no dia 19 de janeiro. Com 1,72 m de altura e 67 kgs de peso, Pierre compensa o biótipo com a obsessão de tirar a pelota do adversário.

No ano passado, ele terminou o Campeonato Brasileiro com a média de 6,8 desarmes por partida. Em 34 das 38 rodadas disputadas, Pierre foi o melhor neste fundamento. No início da atual temporada, o número caiu para 6,1 por jogo.

Pierre começou a carreira de jogador de futebol aos 19 anos. Ele sabe e diz que chegou no mercado atrasado. Em 2000, depois de passar por vários testes em equipes do interior da Bahia, foi patrocinado por amigos da cidade de Itororó, onde nasceu, e viajou até Salvador. Lá, foi aprovado na peneira do Vitória.

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Depois de seis meses treinando, Pierre foi dispensado. Mas já tinha chamado a atenção de empresários que o levaram para o Ituano, em São Paulo, para atuar na meia-direita. Virou volante e, em 2003, foi contratado pelo Paraná. Jogou com o técnico Caio Jr. em 2006. O treinador o recomendou ao Palmeiras, onde é titular desde o ano passado.

As atuações do volante viril chamaram a atenção de clubes da Europa. Ele quase se transferiu para a Ucrânia em janeiro. Ficou e quer ser campeão ainda no primeiro semestre, quando os palmeirenses disputam o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil.

Pierre conversou com o Terra Magazine, logo depois de saber que vai ser pai de gêmeos. Já sabia que estava "grávido", só não esperava dois de uma só vez. "Fique sabendo que ia ser pai na sexta-feira passada. Estou super-feliz", disse.

E sabe o que deixa Pierre tão feliz quando marcar um gol? Roubar uma bola.

Terra Magazine - Lembra de algum desarme que, para você, foi igual a um gol?
Pierre - Lembro, lembro. Aconteceram algumas jogadas, mas a mais recente foi num jogo entre Palmeiras e Fluminense, no ano passado. Eu lembro que escapei, roubei a bola assim, dando um carrinho, e toquei para o Edmundo. O Edmundo tocou para o Rodrigão e o Rodrigão fez o gol. Foi 1 a 0, chorado, o gol da vitória que, na ocasião, nos levou para a zona da Libertadores.

Você nasceu para ser volante?
Acho que sim. Na verdade, no começo de carreira, todo mundo pensou que eu ia ser atacante, por causa da minha estatura e porque o Romário estava bem. Meu pai sempre falava "vai ser atacante". Mas com o decorrer do tempo, foram me recuando para meia e volante, a posição onde atuo hoje. Estou feliz, contente, porque meu futebol está aparecendo na posição de volante.

Um bom volante perde bola dividida?
Não. Apesar de ser um cara peq ueno (1,72m de altura e 67 quilos de peso) não sou de perder dividida. Tenho uma vontade muito grande de jogar. Procuro dar o máximo em campo. Vejo a bola e não fico sossegado, enquanto não consigo sair com ela de uma jogada. Volante meigo não serve. O atacante deita e rola. Você tem que ir para definir os lances.

Volante não pode ser meigo?
De maneira alguma. Volante tem que ser viril, tem que ser firme. Porque, sem dúvida, o que sobra para o volante sempre será o melhor jogador do time adversário. Sempre fica a cargo do volante, marcar o destaque do outro time. Então a gente tem sempre que chegar firme para os meias e os atacantes sentirem que estamos ali, firmes, que não vai ter moleza. É uma coisa que eu carrego dentro de mim: tem que ser viril nas jogadas. Sempre.

"É uma coisa que eu carrego dentro de mim: tem que ser viril nas jogadas. Sempre."

Este jeito de jogar não provoca briga ou a violência do adversário?
Não. Nunca tive problemas. Também sou um cara sossegado. Viso sempre a bola.

Em compensação, o Valdívia já entrou em confusão perto de você. Se precisar, você defende o colega?
Vou deixar para os grandões (risos). Na hora, a gente toma as dores do companheiro. Quando acontece confusão eu fico meio de fora. Mas se o rolo é grande não dá para escapar. Aí não tem jeito.

O seu ídolo de adolescente era volante?
Não. Era o Romário, pelo o que fez na Copa do Mundo de 94. Mas da minha posição, eu sigo muito o que fizeram o César Sampaio (uma cara que fez bonito dentro e fora de campo) e o Dunga, decido à raça e a liderança que exerceu na Copa de 94.

Falando em Dunga, você sonha com seleção brasileira?
Ah, é claro que sonho. Acho que é uma questão de oportunidade. É importante manter a regularidade. Jogar como venho jogando, com humildade e muita vontade. Se o Dunga me chamar, eu vou agarrar a chance e não largar mais. É tudo o que um jogador de futebol quer. Seleção tem muito jogador de qualidade. Não pode relaxar quando se é convocado.

"Se o Dunga me chamar, eu vou agarrar a chance e não largar mais"

O que você fez que justificaria uma convocação?
Olha, no ano passado fui considerado o segundo melhor volante do Campeonato Brasileiro. Pelas estatísticas que o pessoal do Palmeiras (o assessor de imprensa Fábio Finelli) me passou, fui o maior ladrão de bola do torneio. Quero melhorar esta marca este ano, aumentar o número de bolas roubadas. Neste Campeonato Paulista, estou desarmando mais do que o Hernanes e o Richarlyson, do São Paulo (presentes na última convocação de Dunga), que foram eleitos os volantes do ano passado. Os dois estão saindo mais pro jogo agora. Mas eu também sou um volante que sabe sair jogando. Se tiver mais chances, posso dar uma "chegadinha" na frente.

Você é o volante de marcação do Palmeiras. O técnico Vanderlei Luxemburgo já liberou as subidas ao ataque?
Ele me dá essa liberdade. Mas como nosso time é sempre ofensivo, ele pede para ter cautela. Aí não sobram muitas oportunidades. Nossa equipe já tem Léo Lima, Valdívia, Diego Souza e os laterais que gostam de subir para o ataque. Só me resta subir uma horinha dessas, sempre na boa.

É verdade que você quase saiu no início do ano?
Tive uma proposta recente, de um time do exterior. Foi umas duas semanas antes da janela da Europa fechar, no fim de janeiro. Mas nem sei direito como foi porque, com a chegada do Vanderlei Luxemburgo, o Palmeiras não aceitou o negócio. Eu gostaria de ganhar um título no Palmeiras antes.

Por que?
Porque um título marca o nome do jogador no clube. Não gostaria de deixar o Palmeiras antes de ser campeão. Claro que sempre pode aparecer uma proposta que seja boa para o clube e para mim. Aí não vai ter jeito. Mas coloquei como meta em 2008 ganhar títulos pelo Palmeiras.

"Não gostaria de deixar o Palmeiras antes de ser campeão"

Você já virou ídolo no Palmeiras?
Na rua, está começando. Os torcedores do Palmeiras já me param. Mas, na maior parte do tempo, passo desapercebido. Ontem (segunda-feira), aconteceu um negócio engraçado. Eu estava numa loja de material esportivo. Fui comprar um presente para meu pai. Tinha esse cara que olhava na minha direção. Ficou olhando um tempão até que tomou coragem de veio falar comigo. Pensei: "Agora vou receber elogios pela vitória sobre o Corinthians". Mas o cara veio e falou: "Pô, você acabou com meu time ontem". E ainda mandou recado para o Valdívia.

Qual recado?
Para ele pegar mais leve com o Corinthians (risos).

Você citou seu pai. A família vive na Bahia?
Quase toda minha família está lá. Tenho alguns irmãos que vivem em São Paulo. Eu sou um cara sossegado. Nas folgas, vou ao shopping com minha mulher ou então fico de boa. Sou casado há cinco anos e soube esta semana que vou ser pai de gêmeos. É uma nova etapa na minha vida.

Você ajuda a família?
Por enquanto, estou me ajudando. Tenho só um ano de Palmeiras. A coisa está clareando agora. Graças a Deus não tenho deixado faltar nada. Mas espero dar estabilidade para minha família. Tenho 12 irmãos e vou precisar correr muito para ajudar todo mundo.

"Tenho 12 irmãos e vou precisar correr muito para ajudar todo mundo"

Quem é o cara mais famoso de Itororó?
Rapaz, acho que sou eu. Tem outros jogadores da região, mas jogando num clube como o Palmeiras só eu. A cidade tem 18 mil habitantes. Quando vou pra lá no final do ano, é aquela festa. Os caras organizam jogo de futebol todo dia. Se deixar, volto mais cansado para a pré-temporada (risos).

Você diz que é um cara sossegado. Você é tímido?
Sou mais quietinho. Às vezes, alguns amigos me dizem: "Pô Pierre, você precisa aproveitar este momento, você está com moral". Mas fico quietinho. Com a anteninha ligada, vendo tudo que acontece. Sem muito alarde.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

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