Terra Magazine

 

Segunda, 10 de março de 2008, 08h02

Sebastião Salgado: "A África sempre foi um enigma"

Fernando Eichenberg

Não é fácil encontrar o fotógrafo Sebastião Salgado em Paris, cidade, no entanto, em que oficialmente reside desde 1969, quando partiu do Brasil rumo ao exílio, acompanhado da mulher, Lélia Wanick Salgado, com quem está casado há 40 anos. Durante cerca de nove meses do ano, "Tião", como é conhecido na intimidade, está metido em alguma expedição em um inóspito canto do planeta. Recentemente, em uma escala na capital francesa, entre um desembarque da Colômbia e uma partida para o Japão, abriu uma brecha na sua agenda de fotógrafo globetrotter para conversarmos durante mais de uma hora, em um final de tarde, na sede da agência Amazonas Images, instalada em um amplo espaço no número 93 do quai de Valmy, face ao aprazível canal de Saint Martin.

Falamos sobre a África, tema de seu último livro (lançado pela ed. Taschen), mas também sobre os destinos do planeta, o Brasil, a política e seu trabalho como fotógrafo. Nosso encontro foi provocado para uma entrevista, publicada na Revista da Cultura (n° 6, janeiro/2008), mas como, por questões de espaço, parte de nossa conversa permaneceu inédita, disponibilizo aqui a íntegra para o leitor da Terra Magazine.

Terra Magazine - Ao longo dos anos, a África se tornou um destino privilegiado de suas numerosas expedições. Imagens registradas em 40 reportagens feitas durante 30 anos foram reunidas agora em um livro de 336 páginas e 221 imagens em preto-e-branco. Você se lembra das sensações, do que sentiu da primeira vez em que pisou na África, em 1971?
Sebastião Salgado - A África sempre foi um enigma para mim, sempre tive vontade de conhecer. Quando estive lá pela primeira vez, estava chegando em um lugar em que sempre sonhei ir. E cheguei em um momento muito interessante, em que as cidades não eram tão grandes e agressivas como o são hoje. Eram cidades muito agradáveis. Eu me lembro que ficamos no hotel Norfolk, em Nairóbi (Quênia). Um hotel no meio no campo, tinha um parquezinho, bicho em volta. Hoje, o hotel está no meio da cidade. É o mesmo hotel, a cidade cresceu em volta dele, ficou algo monstruoso. Era tudo tão tranqüilo. Eu me lembro que chegamos em Nairóbi numa sexta-feira e na segunda-feira voamos para Kampala (Uganda), sobrevoando o lago Vitória. Chegamos a Ruanda, em Kigali, uma cidade pequenina em que se fazia tudo a pé - hoje é imensa.

Ficamos umas três semanas por lá circulando de carro, um Volkswagenzinho, e naquela época não havia um palmo de estrada asfaltada. Para mim foi algo fabuloso descobrir a beleza da África, que ficou para mim como uma espécie de marca do continente. Até hoje é a minha referência, são as cores, a temperatura, quando estou voando para lá sinto exatamente a mesma coisa que senti da primeira vez. É o único continente desse planeta onde todos os vôos que saem da Europa chegam sempre de manhã. Quando o dia começa a nascer você está dentro de um céu vermelho, é o único lugar que tem um céu daquela cor, você já sabe a tonalidade de onde vai chegar. E aí nunca mais parei de chegar na África. Devo conhecer pelo menos uns 30 países do continente. Tive uma bela amostragem de todas as partes. Mas houve um momento em que jurei nunca mais colocar os pés na África.

Quando foi isso?
Foi nos anos 1974-75, de violência extrema em Angola, a guerra, e com as barbáries que vi por lá disse: "Chega, não volto mais!". E acabei voltando e voltando e voltando. Cheguei da África agora em outubro, estou indo novamente em janeiro, volto de novo depois. A África para mim é um lugar maravilhoso, de contradições brutais, de violências terríveis. Mas não é uma violência característica da África, mas sim da espécie humana. É a mesma do Brasil, nas favelas do Rio, de gente assassinada nas cidades brasileiras. Tem também o que aconteceu aqui na Bósnia, no Kosovo. Também a barbárie total que aconteceu aqui na Europa, há 60 anos. É uma característica da nossa espécie.

Hoje está muito na moda falar da África porque é o exemplo mais recente e perto, que acontece sempre. Ao mesmo tempo é um continente maravilhoso, com paisagens sublimes, onde encontramos o ser humano que fomos há 5 mil anos. Em determinados lugares ainda existimos dessa forma na África. Acabei de fazer agora o vale do rio Omo, no sul da Etiópia. É algo fabuloso você poder conviver com tribos que ainda vivem no essencial na vida, onde o importante é você ter, na maneira mais fina e total, o seu instinto de sobrevivência. Você passa a ser um bicho-homem ligado ao seu planeta. Nu, com uma arma na mão, protegendo o seu gado, seu microcosmo, sua família e mais algumas casas em volta. E convivendo na própria Etiópia com uma África mais que milenar, porque a cultura etíope é antiqüíssima. É o país que mais entendemos porque é o único realmente cristão da África. Eles têm um cristianismo quase tão velho como o nosso, as coisas se parecem, o raciocínio se parece, e você entende um pouco melhor. E você convive com essas coisas todas dentro de um mesmo país.

A África é um algo fantástico, com desertos e montanhas incríveis, pontos altíssimos com amostragens das primeiras vegetações do planeta. Em determinados vulcões que tive a oportunidade de conhecer, no limite de Ruanda, Uganda e Congo, de até 4,5 mil metros de altura, você encontra vegetações fabulosas, com vistas fantásticas. Trabalhei em lugares como a Antártida e a Sibéria, mas onde senti mais frio na minha vida foi na África, na altura desses vulcões. Trabalhei todos esses anos na África, fiz todas essas viagens, pude participar da história recente dos últimos 40 anos do continente. Estive presente como repórter fotográfico, podendo viajar na crista da onda da história africana e testemunhar a formação de países, a imigração, o trabalho, os animais, as paisagens, as grandes secas, o castigo e a prenda da natureza, o efeito da globalização, tudo isso tive a oportunidade de ver e são imagens que estão nesse livro, que para mim não trata só da história da África. Acho que está muito correto o que o Mia Couto escreve no prefácio: você passa a ser não mais só o fotógrafo, mas a sofrer o efeito de tudo do que a África te impregnou. Foi algo muito rico para mim.

O escritor moçambicano Mia Couto escreve no livro que você visitou a África em tempos de cristal e em tempos de lágrima, testemunhou alguns dos mais dramáticos momentos, a consumação do trágico mas também o eclodir da esperança, e fala também do afro-pessimismo, sentimento presente no continente. Você vê saída para a África?
Há saída, sim. Moçambique é um exemplo de um país que tem saída. Foi o único caso de uma negociação de paz levada a cabo pela ONU que funcionou. O fluxo de investimento, de entradas líquidas no país é muito forte, a modificação estrutural do país, as adaptações... Botsuana e Namíbia também estão indo bem. Mesmo a África do Sul. A violência de lá é também a nossa e a da Colômbia. É a violência de países que se urbanizaram, que adquiriram em três ou quatro décadas uma estrutura parecida com as que consideramos modernas nos países daqui. O Brasil passou de 80% de população rural há 40 anos para 85% de população urbana, o que Europa levou 600 ou 800 anos para fazer.

Mas essas coisas acho que tendem a se estabilizar. É claro que não podemos deixar abandonado o continente africano. Hoje se vai na África como um boi vai na vaca, para fuder a África. Isso vai ter de acabar. Você não pode deixar uma grande parte da espécie humana abandonada a si mesma. Nos últimos séculos, o que tinha de melhor na África foi para o Brasil, para a América Central e do Norte. Pegamos os escravos, quem era mais forte, quem tinha capacidade de trabalho. Quem vem para a Europa hoje? São os que têm maior capacidade de iniciativa, que não conseguem fazer nada em seu próprio país, pois não há fluxo de investimento, só matéria-prima. Isso vai ter de parar. Foi o caso do Brasil. Há 30 anos éramos meros fornecedores de matéria-prima e hoje temos empresas como a Vale do Rio Doce, a 16° maior do mundo, que comprou a maior empresa do Canadá. Foi apresentada na Bolsa de Paris e abriram o pregão da Bolsa de Nova York a partir de Paris. Uma empresa brasileira assim, um país exportador de aviões, eu não poderia imaginar isso nos anos 1950.

Nos anos 1960, quando vivi no interior, todos os caminhões que destruíram nossa Mata Atlântica vinham dos Estados Unidos. Quando iríamos imaginar que seríamos esses grandes exportadores de hoje? Então essas coisas aconteceram, estão acontecendo e certamente terão de acontecer na África. Os tempos vão mudando, as combinações geopolíticas passam a ser outras, como é o caso hoje da Índia, China, Rússia e Brasil. Estamos vendo a desmoralização de uma referência do planeta em termos monetários, que era o dólar. Quem diria? As coisas são imprevisíveis. Eu acho que temos todo o direito de ser otimistas nesse caso. Não que a violência vá acabar do dia para a noite, acho que não, ainda há muito sofrimento pela frente na África, mas acho que é o momento de as coisas começarem a mudar, e estão mudando. Só o interesse do Brasil pela África hoje é brutal, muito grande. Está-se indo na boa direção.

Da África para o planeta. O seu projeto Gênesis é uma forma de repensar o "de onde viemos, para onde vamos". Você defende o desenvolvimento sustentável como uma forma de salvação. Você acredita na supremacia do atual discurso ecológico sobre o mundo consumista, imediatista e individualista?
Acho que as coisas mudaram muito. O discurso no planeta mudou radicalmente nos últimos dez anos. A ponto de um ex-candidato a presidente nos EUA ter sido prêmio Nobel a partir de um discurso inteiramente ecológico. As pessoas hoje com possibilidade de se tornar presidente dos EUA são as que têm uma preocupação com esse grito de alarme do aquecimento global, que é real. Hoje, chega-se à conclusão de que todo o gelo do Ártico, que deveria terminar nos próximos 60, 70 anos, vai acabar no máximo em 10, 12 anos. O clima do planeta, principalmente do norte, vai mudar muito mais rápido do que se imaginava. É um momento muito interessante, porque o perigo está aí e as coisas vão ter de mudar.

Não há uma empresa nesta parte do planeta que não tenha como referência o discurso ecológico, seus produtos tem de ser ecológicos, limpos. Nesse ponto, estamos muito atrasados no Brasil. O discurso da agricultura que tem hoje o governo, com o qual eu tenho uma certa proximidade, é um discurso do passado, velho. O discurso da megaempresa agrícola, do equilíbrio da balança de pagamentos, de grande exportador de matéria-prima... Quando se calcula a porcentagem que essa matéria-prima exportada - café, soja, laranja - entra na composição do PIB brasileiro, é algo muito pequeno, não é nada. Mas se mantém esse discurso antigo, enquanto o discurso moderno hoje da agricultura é o do desenvolvimento sustentável, da recuperação ambiental.

Nós estamos com uma defasagem muito grande. Estamos fazendo no Brasil uma agricultura velha, do passado, e temos de mudar. Mas de uma maneira geral essa preocupação hoje no planeta é muito grande. Acho que podemos reduzir essa aceleração do efeito do aquecimento plantando árvores. E temos um espaço incrível para fazer isso no Brasil, para reequilibrar o fornecimento de água. Mas, ao lado desse discurso velho do governo brasileiro, existe uma preocupação nova também no país. Há ONGs muito sérias e fortes, há um grande grupo de intelectuais brasileiros, uma grande parte da população urbana que está preocupada com isso, sim.

Você sempre denunciou a "ditadura financeira" como um dos piores males de nosso tempo. Ainda é?
Vejo mais do que nunca o perigo disso. Mas muitas coisas trazem nelas mesmas a solução. Hoje, a denúncia dessa grande ditadura financeira, a transparência de uma série de setores da economia, que antes não existia, começa a aparecer. Essas coisas terão de ser resolvidas, apesar de continuarmos acumulando de uma maneira incrível. Veja a quantidade de dinheiro acumulado por esses fundos de pensão, a concentração dos bancos. Mas eles também têm uma certa vulnerabilidade. O fato de os americanos não terem hoje condições de pagar as prestações de suas casas por causa dos juros altíssimos que os bancos impuseram provocou uma crise muito forte no sistema financeiro.

Assim como falamos da África, que tem um sistema de autocorreção, tenho a impressão de que haverá um sistema de autocorreção na distribuição de renda no mundo, e relativamente rápido. Há pouquíssimos anos toda a renda do planeta era concentrada na América do Norte, em algumas praças financeiras da Ásia, como Japão e Hong Kong, e na Europa. Hoje, está começando a haver uma redistribuição muito rápida disso, apesar de a renda ainda ficar muito concentrada na parte alta de todas as sociedades. Mas há uma reorganização desse fluxo financeiro, com a participação de outras praças, como São Paulo, Xangai, Nova Délhi, Bombaim, Moscou. Nenhuma dessas praças era importante há dez anos.

Veja a América Latina, a história do Mercosul. O Brasil tem hoje uma população de cerca de 185 milhões de habitantes. Somados à população da Argentina, mais a Venezuela e, se entrar também a Colômbia, você cria um bloco de consumidores tão forte quanto o bloco europeu. E com uma vantagem: o bloco europeu já chegou a um nível de saturação de consumo, e no Mercosul ainda há tudo por fazer. A distribuição de renda a nível de classes sociais, que foram discriminadas nos outros continentes, vai ter de acontecer agora. Mesmo porque o único escape para esse modelo do consumo são esses outros locais. Já vemos pontos de estrangulamento, como, no caso do Brasil, da estrutura do transporte aéreo.

O problema da segurança e da violência nas cidades já é um estrangulamento de muito tempo. O problema da educação é um gargalo. Não há pesquisa nenhuma, industrial ou agrícola, pegamos carona nas pesquisas dos outros. E uma economia como a do Brasil que está chegando à sofisticação vai ter de resolver esse punhado de problemas que vai provocando a modificação da estrutura de produção. Isso é uma proposta velha, marxista, onde você muda a infra-estrutura, a superestrutura necessariamente muda também. Isso tudo está acontecendo, não sei se para melhor ou para pior, mas está. Pegue um país hoje como a França, por exemplo. É um país completamente estagnado, sem possibilidades de, nos próximos dez anos, sair desse marasmo em que entrou. Estou chegando da Colômbia agora, um país que tem uma capacidade de desenvolvimento ilimitada. Essas coisas vão se combinando de outra forma. Quando você viaja muito, vê muito disso tudo.

Politicamente você sempre se posicionou como um homem de esquerda. Como você a esquerda hoje no mundo face ao desafio de apresentar alternativas nesses tempos de neoliberalismo e globalização?
A esquerda, para enfrentar essa nova realidade, tem de se desfazer e se fazer outra vez. Não há outro jeito. Pensar de uma maneira considerada de esquerda era o quê? Era pensar em distribuição de renda, em uma forma social mais justa. Na realidade, era pensar de uma forma politicamente correta. Hoje as coisas mudaram. Muitas variáveis que não eram importantes passaram a ser. De uma delas acabamos de falar, a ecologia. Hoje, para se ter um pensamento de esquerda, tem de entrar a variável ecológica, bem como o desenvolvimento sustentável, a redistribuição de renda, a pesquisa. A estrutura de esquerda tem de ser refeita.

Nunca a esquerda foi tão forte como é hoje. Mas quem tem um comportamento de esquerda? O Al Gore tem. O presidente Sarkozy, um homem da direita francesa, foi quem criou o Ministério do Meio Ambiente como um dos grandes ministérios do governo, o que até então não era. O Partido Socialista francês morreu por não entender o que estava acontecendo. Na proposta de uma Constituição Européia, a base do partido votou contra, e tinha de votar contra. Da maneira como estava proposto, você poderia empregar trabalhadores poloneses na França, trabalhando na França, a preço de salário polonês, e isso não se podia aceitar. Os indicadores da Constituição eram quase todos financeiros. A base não aceitou isso, a direção do partido votou a favor, e os poucos que votaram contra foram depois colocados de lado.

Nesse momento o Partido Socialista morreu. A direção do partido estava inteiramente em dissonância com a sua base. E quem funciona é a base. O partido terá de se refazer. Acho que as coisas estão se refazendo, se reorganizando, as variáveis já não são mais as mesmas. A esquerda no Brasil, por exemplo, tem propostas que são antigas, velhíssimas, que já amadureceram, secaram, morreram, mas que ainda são utilizadas como instrumento de governo, e acho que isso tem de mudar. Elas têm de ser adaptadas e feitas de outra forma. Mas o pensamento de esquerda nunca foi tão forte e tão vital como agora.

Que propostas antigas ainda são utilizadas como instrumento de governo?
São tantas. Por exemplo, a idéia de que o importante é o proletariado, que o importante é você criar emprego no setor industrial, nos setor de exportação agrícola, que é a idéia de base no Brasil. A forma de criar energia no Brasil... Essas coisas já passaram. O Brasil necessita de energia demais, mas essas formas já não são mais a boas, há outras maneiras de se fazer. Também as estruturas tradicionais e pesadas dos partidos, não se pode mais funcionar assim. Há uma série de coisas que acho que têm de ser mudadas e adaptadas.

Como vê os governos de Evo Morales, na Bolívia, e de Hugo Chávez, na Venezuela, definidos por muitos como "populismo demagógico"?
São realmente coisas do passado no presente. Em 2006, passei dois meses na Venezuela e vi a forma como a coisa está sendo feita e imposta. Vai ser muito duro para o país. Mas a Venezuela vem de um passado terrível, com uma classe no poder que dominou e roubou tudo. Se tivesse sido de uma outra forma, hoje a Venezuela poderia ser um dos grandes países do planeta. Mas roubaram tudo. Então existe uma amargura muito forte na classe que foi roubada durante todo esse tempo e que levou ao poder alguém que se transformou em um ditador, se armando até os dentes. Para quê? Os Estados Unidos vão atacar a Venezuela? Jamais. Passa a ser um poder concentrado na mão de alguém, e não sabemos como esse alguém vai usá-lo. Não é uma forma democrática e aberta de poder. Não vai dar certo. É uma questão de tempo.

Para tomar um caminho interessante, a Venezuela terá de passar por um processo de auto-regeneração muito forte e de sofrimento muito grande também. Tenho medo do Chávez, para o povo venezuelano. Historicamente, você não tem medo, pois sabe que as coisas vão passar. Mas quando você vai lá, conhece as pessoas, vê do jeito que está... vai ser duro.

E o governo Lula?
Eu confio no Lula, acho uma pessoa interessante, o conheço, acho que tem um carisma e que pode fazer as coisas. Não se pode comparar o Lula ao Chávez, pois o Brasil é um sistema democrático. Está em um processo de ajuste e de correção fabuloso do aparelho de Estado, das instituições brasileiras. O Brasil tem instituições fortes. No seu posicionamento internacional, conta com uma chave que poucos países têm, que é um Ministério das Relações Exteriores, baseado no Itamaraty, de uma qualidade e com um quadro de técnicos fantástico. O Brasil tem um exército que se modernizou e se profissionalizou. Conheci vários oficiais e unidades do exército brasileiro representados fora do país, no mundo, e a maneira como se comportam não tem mais a ver com aquele exército velho, de há 40 anos, de que tínhamos medo. Isso mudou. O Brasil tem um sistema federal de coleta de impostos muito justo. Há um sistema de pesquisa em determinados setores muito interessante.

Na agricultura há um sistema que deveria ser mais apoiado, que é a Embrapa. A Petrobrás desenvolveu tecnologia de offshore única no planeta e passou a ser uma das maiores empresas mundiais. Gosto muito da idéia do governo Lula de redistribuição de renda. Não sei se o Bolsa Família é o melhor, mas houve uma revolução. As pessoas no Brasil às vezes não vêem, não têm interesse em ver, representam uma classe concentradora de renda que está morrendo, mas houve uma redistribuição a tal ponto que se o Lula tivesse o direito de se recandidatar - e felizmente que não tem, pois, chega, oito anos de poder é o suficiente em uma democracia como a nossa -, poderia se reeleger. Mas uma indicação do Lula reelege um novo presidente, porque ele criou emprego e promoveu uma redistribuição. Eu sei porque a gente atua no interior no Brasil, e na nossa cidadezinha aumentou a demanda em função de uma mínima redistribuição de renda que houve. E quando você considera o que é o salário mínimo hoje no Brasil... Houve uma revolução nesse sentido e tem de ser reconhecida.

Você deixou o Brasil na época da ditadura, teve confiscado o passaporte brasileiro, e acabou se adaptando muito bem na França. Você se sente brasileiro, um pouco francês, cidadão do mundo?
Meu passaporte foi retido por volta de 1975, e depois entrei com um processo, junto com o Augusto Boal, para recuperá-lo, o que aconteceu em 1979-80, não lembro. Eu tenho documentos franceses, mas me sinto brasileiro. Estou adaptado aqui e tenho filhos nascidos na França, mas sou brasileiro, o que para mim é um prazer e uma honra. Nessas viagens todas pelo mundo me coloco a partir de uma ótica muito mais brasileira do que francesa. E com o privilégio de ter viajado em mais de 120 países, de ter visto esse planeta de dentro, com tempo. Na realidade, devo morar na França somente uns três meses por ano, no resto do tempo moro no mundo. Mas vou muito ao Brasil. Sou um brasileiro com uma formação internacional.

Como fotógrafo, você já disse que sua maneira de enxergar, sua relação com a luz, é brasileira, e sua formação é francesa.
É interessante, porque, pelo lado técnico da fotografia sou formado aqui, mas para os fotógrafos franceses sou considerado como um fotógrafo brasileiro, porque minha maneira de ver não é a daqui. É meio especial. Tudo o que aprendi em fotografia foi aqui, mas isso é uma variável até o momento em que passa ser uma constante, pois o que você aprendeu está aprendido, e o importante na fotografia é o que você tem e traz dentro de você. É a sua visão de mundo, que no meu caso é muito brasileira.

Na pintura, você admira artistas como os irmãos Le Nain, Rembrandt, Géricault.
Fiz estudo da luz dessa gente. Antes de eu ser fotógrafo, era um tipo de luz que me interessava e me tocava muito. Uma pessoa que faz cinema é obrigada a iluminar para filmar, coloca luz artificial e tudo o mais. E o fotógrafo traz a luz dentro dele mesmo. É a luz de onde ele aprendeu, onde cresceu, que passou a fazer parte dele mesmo. E essa luz para mim acho que é muito brasileira, muito a nossa maneira de ver.

Você começou a fotografar paisagens recentemente e diz que evoluiu muito em relação à natureza. Como foi isso?
Essa reaproximação com a natureza foi no Vale do Rio Doce, onde nasci. É tão importante você não cortar com as suas fontes, com a sua raiz. Eu rodei, fiquei anos fora do Brasil, e no dia em que fui fixar uma âncora foi lá onde nasci, de onde saí mesmo. E voltei para aquela luz, para aquele lugar. E isso levou a uma transformação da minha fotografia. Foi aquela experiência, com aquela terra. Claro que tudo é explicável, mas há coisas que você não compreende e nem sabe por que é levado de volta. Uma vez, estava com uma equipe de televisão lá em Aimorés e fui levá-los para uma cidadezinha ao lado, para pegarem um ônibus direto para Vitória. Fui passando por uma estradinha, entrando adentro, e um deles me disse: "Salgado, você morou tanto tempo na França, mas na realidade você nunca saiu daqui" (risos). Acho mesmo que nunca saí de lá. Quando subo aqui no avião para ir ao Brasil, já entro rindo. No avião já me transformo e chego como se nunca tivesse saído de lá.

O seu projeto Gênesis busca regiões virgens nos 46% do planeta que você diz que ainda estão intactos. Como são essas viagens?
Quando você está em uma tribo daquelas lá no interior do Brasil, no fundo do Amazonas, vê que ela não tem nada para aprender aqui com essa sociedade. O que é essencial, já sabíamos há 5 mil anos. Já tínhamos antibióticos há 5 mil anos. Eles têm antibióticos lá. Nós apenas sistematizamos e transformamos em outros componentes químicos para aumentar as doses, a quantidade, mas a base já havia. Antiinflamatório já havia. Os ianomâmis lá do interior de Roraima têm uma noção de geologia perfeita. Eles são seminômades, só vão voltar para um local em que haviam se fixado 100 anos depois, quando a floresta já estiver refeita e reconstituída. Não há grandes novidades acontecendo na espécie humana. Os problemas que temos de amar, de sofrer, de ciúme, de tudo, são os mesmos. O que é interessante na preservação dessas partes do mundo é a preservação da nossa referência. Isso é muito importante.

É quase impossível você fazer uma projeção futura sem olhar para trás. É importante preservar a natureza, os grandes sistemas de água. O planeta não está em perigo, ele é velho de 6 bilhões de anos, e daqui a 6 bilhões de anos ainda vai estar aqui. Quem está em perigo somos nós, nossa espécie. A questão é sermos sábios o suficiente para preservar o que temos, refazer o que desfizemos, para podermos continuar a existir como espécie. Só isso. A idéia desse projeto Gênesis é a de buscar essas áreas, de ajudar a fazer uma nova apresentação do planeta. Minhas fotografias não têm importância. Mas as minhas fotografias, mais o seu artigo, mais as informações da televisão, as organizações que estão militando, as instituições de boa vontade, passam a ser um elemento dentro disso tudo. Nos distanciamos demais do planeta.

Há o fato de termos urbanizado, de nos considerarmos o único animal racional - que é uma mentira, cada espécie tem seu racionalismo. Hoje, se discute a distribuição de renda, a destruição da floresta tropical, a poluição do oceano, a aids, tudo o que se quiser, e não encontramos soluções. Está cada vez mais complicado. Estamos meio perdidos. Nossa espécie está desencontrada. Para mim, o fator principal é que perdemos o contato com o planeta e a idéia de que somos natureza. Acreditamos que somos um ser diferente, privilegiado, com direito a consumir, destruir. Não temos esse direito. Tudo o que é destruído é um déficit. E esse déficit, outro vai pagar por você.

Como você se imagina daqui a dez anos?
Fotógrafos vão longe. É uma profissão em que você vive pra fora, tem válvula de escape o tempo todo. Estive no México há poucos anos, foi o aniversário de 100 anos do Álvarez Bravo. O Henri Cartier-Bresson morreu com 96 anos. Lembro quando trabalhava na agência Magnum, a Eve Arnold, que tinha mais de 85 anos na época, pegava a máquina, entrava no avião e ia para a Índia fotografar. Não me vejo a muito curto prazo terminar minha carreira. Fazer projetos de oito anos como o do Gênesis já é mais complicado, mesmo porque está difícil organizar projetos assim mais longos. Possivelmente este seja meu último longo projeto. A partir daí, vou viver como todo o mundo, o dia-a-dia.

Você já se disse admirador de Guimarães Rosa e de Jorge Amado. O que está lendo agora?
Acabei de ler A fazenda Africana, da escritora dinamarquesa Karen Blixen. É fantástico ler um livro sobre a África escrito nos anos 1930. E reli agora O nome da rosa, do Umberto Eco. Estou sempre lendo. Meu grande companheiro de viagem é o livro, sempre consigo uma horinha para ler.

Questionado se, até ali, a vida havia sido boa com ele, o filósofo Jean-Paul Sartre respondeu: "No todo, sim. Não tenho do que me queixar. Ela me deu o que eu queria e, ao mesmo tempo, me fez reconhecer que não era grande coisa. Mas o que se pode fazer?" E encerrou a resposta com uma grande gargalhada. Até aqui a vida foi boa com você?
Não posso me queixar. A vida foi muito boa para mim. Sou uma das poucas pessoas que teve a oportunidade de ver o planeta a fundo, de conhecer profundamente diferentes culturas no mundo inteiro. E agora, com o projeto Gênesis, tenho a oportunidade de conhecer as coisas mais nobres, mais fantásticas desse planeta, e de mais difícil acesso - porque nas de fácil acesso todo o mundo já foi e destruiu. É uma surpresa a cada curva da vida. Não dá para você ser blasé, porque é um prazer tão grande a cada nova descoberta. Como fotógrafo assim, houve possivelmente uma profissão na Idade Média, que depois desapareceu, que foi a dos andarilhos, pessoas que iam de um lugar a outro, aprendiam, transmitiam, iam passando adiante. Realmente, tenho uma profissão interessante. Fui um privilegiado na vida.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

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