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Segunda, 10 de março de 2008, 07h46

Novela de celular, o novo Quixote e o dedo polegar

Paulo Scott

No começo deste ano, uma notícia curiosa e de relativo impacto, com repercussão em todo o mundo e também aqui no Brasil, foi a de que, no Japão, cinco entre os dez romances mais vendidos em 2007 foram produzidos diretamente das teclas de telefones celulares. Histórias que resultaram do somatório de pequenos parágrafos divulgados pelos torpedos que seus autores enviavam diretamente aos amigos e - graças às operadoras de telefonia móvel que, desde 2004, permitem a transmissão ilimitada de pacotes de dados como parte da tarifa mensal única - a algumas centenas de fãs espalhados pela internet.

Há pouco mais de sete anos, numa entrevista, o escritor gaúcho Charles Kiefer, coordenador de uma das oficinas literárias mais importantes de Porto Alegre, me disse que já era de se esperar que de tantos blogs existentes na web surgisse, sem grande alarde, de postagem em postagem, o novo "Dom Quixote".

A previsão - compartilhada por outros cronistas e pensadores mundo a fora - relativizava com certo otimismo o modo original dos blogs, usados para exposição das intimidades e caprichos de opinião de seus autores (naqueles primeiros meses do terceiro milênio, alguns blogs que veiculavam poesia e prosa inéditas de autores completamente desconhecidos já se faziam notar pela qualidade). Não foi à toa que, no caso brasileiro, muitos daqueles blogueiros, hoje, integram as listas dos nomes mais festejados da safra literária brasileira.

É um mundo de surpresas que vem soterrando com rapidez o ideal oitocentista do escritor como ser iluminado entregue à sua produção igualmente iluminada, na ambiência singular da sua torre de marfim. O novo "Dom Quixote" virá de um celular e a dimensão aleatória do sucesso será ainda maior. Os leitores precisarão ser caçados (buscados) em seu movimento, em seu interesse, e deverão, como já acontece hoje, ser respeitados em sua falta de tempo (uma falta de tempo que servirá para ter ainda mais falta de tempo).

A pergunta lançada pela revista literária japonesa Bungaku-kai, em sua edição de janeiro, foi a seguinte: será que o romance de celular matará o escritor tradicional? De certa forma, é a pergunta que se fez (e se faz) em relação aos blogs (às vezes perco horas atualizando a leitura dos meus blogs de literatura preferidos).

O fato dos novos leitores terem sido formados num mundo de vídeo games, histórias em quadrinho, reality show conspira, para muitos estudiosos, no sentido da queda da qualidade da obra produzida. A tendência seria a de consagrar as baboseiras em geral, repletas de tempestades em copo d¿água, de superficialidades existenciais e choradeira causada por corações partidos.

Não consigo levar tudo isso tão a sério. Apesar do esforço secular dos editores mais sérios e empenhados com a arte em si, o mercado sempre foi pautado pela curiosidade rasa, pelo fuxico e pela moda (algumas vezes, como é o caso do autor inglês Ian MacEwan, a moda contempla o que há de melhor na produção contemporânea). Os processos obedecem a ciclos. Eu aguardaria um pouco mais antes de diagnosticar a qualidade das novas obras nessa troca de máquina de geração de conteúdo (já não é mais o lápis e o papel, nem a máquina de escrever, nem o computador), o susto é inevitável e certo conservadorismo proveniente de um saudosismo inofensivo não pode se confundir com espírito retrogrado.

Às vezes, pego ônibus para ir ao centro e, sentado nos bancos de trás, vejo a velocidade com que os adolescentes digitam suas mensagens, usando apenas o dedo polegar. Imagino o que seriam tal aplicação e tal habilidade quando mantidas em longa meia hora (tenho dificuldade até para trabalhar com laptops quando preciso me estender por mais de hora - uso aquele teclado de silicone de enrolar e mouse -, tenho dificuldade para ler direto do monitor. Não faço idéia o que me custaria acompanhar um romance inteiro pingado de parágrafo em parágrafo na tela apertada do meu celular), um dia descobrirei, mas daí talvez já exista outra forma mais rápida, mais assustadora e melhor de chegar à obra literária.


Paulo Scott, escritor e professor universitário, criou os projetos PóQUET: ruído & literatura e Na TáBUA , combinando a partir da literatura outras mídias.


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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