João Carlos Salles
O debate sobre o uso de células-tronco adquire contornos semelhantes ao debate sobre a pena de morte. Eles resvalam facilmente para a retórica e, muitas vezes, para o oportunismo.
É fácil então anatematizar os cientistas como assassinos e os religiosos como obscurantistas. Com isso, encobrem-se dois pecados maiores, a saber, o obscurantismo de alguns cientistas e a irresponsabilidade criminosa de alguns religiosos.
E que Deus ou o Estado nos proteja tanto da irresponsabilidade de uma Igreja capaz de proibir até o uso de camisinhas, quanto de cientistas capazes de tudo subordinarem à razão única de suas pesquisas.
Há, por exemplo, duas ordens de declarações especialmente incômodas para quem deseja favorecer o debate franco, com condições mínimas de produção de um consenso por meio da argumentação.
Temos o elogio deslavado da ciência, tornada em valor, um valor superior a qualquer ordem, embora não deixe de representar interesses econômicos poderosos. Nesse caso, porém, a simples indicação de coincidência entre os interesses da pesquisa e o de grandes empresas, o fato trivial de que programas de investigação científica são produtivos não apenas por razões epistemológicas, isso não serve para indigitar os pesquisadores ou tornar suspeitos seus argumentos. Por outro lado, temos um conjunto de declarações de possíveis beneficiários das pesquisas, tornados então em vítimas, cujo socorro tudo justificaria.
A estrutura argumentativa passeia assim entre os extremos do apelo à autoridade e do apelo à piedade, com forte recurso a tradicionais argumentos contra o homem.
Não podemos esquecer que, assim como tornar passional o debate, o elogio puro e simples do progresso tem conseqüências amiúde nefandas. A razão impessoal se afirmaria como sempre certa e superior a interesses particulares, de sorte que motivo nenhum deveria criar-lhe o mais mínimo obstáculo.
Com isso, cientistas abnegados e justamente defensores da continuidade de suas pesquisas esboçam discursos primários, com um misto de grandiloqüência e de filosofia de salão. Por exemplo, ao insistirem na condição laica do Estado brasileiro, fazem supor legítima a mera desconsideração de algum argumento religioso, como se a religião estivesse fora do campo do discurso, como se ela não pudesse ser testada também por seus argumentos. Um Estado laico, porém, não é um que tenha adotado a ciência como religião.
Há os que são favoráveis à pena de morte e contrários ao aborto. Não é meu esse "pensamento louco". Meu "pensamento louco" é outro: sou contrário à pena de morte e favorável à legalização do aborto. Além disso, completando a profissão de fé para não gerar equívoco com estas minhas precárias observações sobre o tom do debate, sou favorável à utilização de células-tronco embrionárias. Isso não me furta de considerar perigosas declarações de parte de nossa comunidade científica e da mídia, tendentes a retirar do debate o que exatamente lhe conferiria peso e importância: a responsabilidade coletiva pelas escolhas acadêmicas da nossa sociedade.
Afinal, em debates assim, quando é possível travar realmente um debate, quando não há uma mera anatematização recíproca, está em jogo o arco possível de escolhas que a sociedade considera legítimas para aplacar nossas dores comuns e nossos sofrimentos individuais.
Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br