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José Cruz/Agência Brasil
O deputado Antonio Palocci (PT-SP), ministro da Fazenda no primeiro mandato do presidente
Lula: "O mais importante é que o Brasil cresça por um longo período a taxas elevadas" |
Raphael Prado
Pai da política econômica do primeiro mandato de Lula, o ex-ministro da Fazenda e hoje deputado federal Antonio Palocci (PT-SP) comemora o crescimento econômico de 5,4% em 2007. Ele define o índice com a mesma palavra do atual ocupante do cargo que já foi seu, Guido Mantega: "robusto".
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Ainda que os críticos, mesmo petistas, acusem a Era Palocci de continuidade da gestão Pedro Malan à frente da Fazenda e Fernando Henrique Cardoso no governo federal, Palocci refuta, nesta entrevista exclusiva a Terra Magazine. Para ele, aquela política, do antecessor, já foi superada:
- (Naquela época) o trabalhador não podia acessar crédito porque ele não tinha segurança no emprego e o empresário não podia investir porque ele não tinha segurança de que o País ia continuar crescendo. Isso é passado e ficou para trás - afirma o ex-ministro.
Antonio Palocci, sabe-se, é médico. Mas procurou inteirar-se das finanças do País quando convidado por Lula para dirigir a equipe econômica que cumpriria os compromissos da "Carta Aberta ao Povo Brasileiro".
O documento, divulgado às vésperas do primeiro turno da eleição de 2002, pretendia acalmar os mercados, instáveis com a possibilidade de a esquerda chegar ao poder no Brasil. A defesa da inclusão social, na Carta, era um dos pontos - que Palocci acredita estar no rumo certo:
- (Esse) é um crescimento que gera ganhos sociais importantes (...) Eu penso que o Brasil consegue, nesse momento, unir os fundamentos de estabilidade, controle de inflação, uma boa solução do problema de contas externas e entra num ciclo de desenvolvimento bastante robusto.
O ex-ministro da Fazenda comenta ainda a opinião do presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, que pediu aos países emergentes para aquecerem seus mercados internos. Dessa forma, pensa o dirigente do Velho Continente, os países pobres estariam ajudando os ricos a superar suas crises:
- Na verdade, o que houve nos últimos anos foi que os países em desenvolvimento fizeram a lição de casa - reage.
Palocci fala ainda a Terra Magazine que a crise externa terá "desdobramentos negativos", mas que não vai comprometer o crescimento do Brasil em 2008. Comenta o desempenho do setor agropecuário (que cresceu 5,3%) e a necessidade de crescimento "por um longo período a taxas elevadas".
Leia a entrevista do ex-ministro da Fazenda a Terra Magazine:
Terra Magazine - Esse resultado de crescimento do PIB indica que o Brasil entrou no caminho certo?
Antonio Palocci - Eu acho que o Brasil entrou numa fase de crescimento robusta, em níveis muito bons e com estabilidade. Esse é o dado mais importante. É um crescimento que gera ganhos sociais importantes porque, junto com ele há a melhora de qualidade num conjunto grande de empresas no Brasil. Elas estão melhorando gestão, acessando o mercado de capitais, crédito... está havendo formalização de setores que antes eram muito informais, como a construção civil. E isso repercute na geração de emprego formal em níveis recordes. Eu penso que o Brasil consegue, nesse momento, unir os fundamentos de estabilidade, controle de inflação, uma boa solução do problema de contas externas e entra num ciclo de desenvolvimento bastante robusto.
E quais são as perspectivas para esse ano, com essa provável desaceleração da economia global, ocasionada por problemas nos EUA? Qual a perspectiva de crescimento para 2008?
A crise externa da área financeira é grave, não é pequena. E deve ter desdobramentos negativos, e isso vai impactar todos os países do mundo. Porque é difícil imaginar que uma crise de liquidez desse tamanho não tenha impacto em alguma região. Mas eu penso que o crescimento do Brasil nesse ano não está comprometido, porque o ritmo está forte e a tendência é manter esse ritmo.
Os dados do IBGE mostram que a agropecuária cresce em ritmo maior que outros setores. Isso é bom para a economia brasileira?
Isso é uma tradição da economia brasileira. Ela tem no agronegócio o setor que gera mais superávit comercial, que tem tido grande sucesso na exportação, que passou por dois anos difíceis, em 2005 e 2006 e voltou com força em 2007. O Brasil tem ganhos de tecnologia muito importantes no agronegócio e isso vai fazer com que o setor seja sempre forte na economia. Lógico que ele é dependente de demanda mundial, então às vezes há um crescimento maior e, em alguns anos, um nível de dificuldade. Mas é uma boa notícia esse desempenho, porque ele supera dificuldades que existiram em anos anteriores.
Na segunda-feira, 10, na reunião com Bancos Centrais de todo o mundo, o presidente do órgão europeu disse que era preciso que os países em desenvolvimento aquecessem seus mercados internos para ajudarem na crise dos países desenvolvidos. Estamos vendo uma inversão de valores, pobres precisando ajudar os ricos?
Na verdade, o que houve nos últimos anos foi que os países em desenvolvimento fizeram a lição de casa. Combateram a inflação, fizeram superávits fiscais elevados, reduziram suas dívidas, fizeram reservas, enquanto o mundo mais rico teve problemas estruturais, que agora aparecem nessa crise financeira. Então, de fato, os países em desenvolvimento são um fator de estabilidade no mundo hoje. No passo eles tiveram dificuldades, as crises aconteceram mais nos países em desenvolvimento, e hoje os emergentes superaram essas dificuldades e estão sendo fator de crescimento mundial. O Brasil está inserido nesse contexto, com uma demanda interna crescente. No PIB do ano passado, o consumo das famílias cresceu 6,5%, o que é bastante expressivo. Nossa tarefa no próximo período é cuidar da estabilidade, para que esse ciclo seja o mais longo possível e seja sustentável.
A crítica da oposição brasileira sempre foi que, embora estivesse crescendo, o Brasil estava abaixo da média mundial.
Agora já está acima da média mundial. Mas aí o mais importante não é isso. É que o Brasil cresça por um longo período a taxas elevadas. Se é um pouco maior ou um pouco menor que outros países não é importante. O que nós vamos deixar para trás é aquele passado que caracterizou as últimas duas décadas no Brasil, em que a cada 2 ou 3 anos era certeza de uma crise e tudo tinha que começar de novo. O trabalhador não podia acessar crédito porque ele não tinha segurança no emprego e o empresário não podia investir porque ele não tinha segurança de que o País ia continuar crescendo. Isso é passado e ficou para trás. Hoje nós temos uma perspectiva de estabilidade duradoura, que faz com que o trabalhador possa ter confiança no emprego e a empresa tenha confiança na estabilidade e faça investimento. Esse é o principal fator. Se o Brasil crescer a taxas em torno de 4% a 5,5% por um longo período, teremos uma melhoria social extraordinária no País, uma geração de empregos de grande magnitude. Coisa que nós não tivemos no passado. Esse é um fator que deve ser destacado no momento e é muito positivo para o País.
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