Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Vera Araújo

Sexta, 14 de março de 2008, 07h44

Caracóis de todo o mundo, uni-vos!

Vera Gonçalves de Araújo
Direto de Roma

Levei quase um mês para escrever esse artigo. Não por falta de idéias ou por excesso de capricho. Mas porque comecei a pensar no assunto no dia 19 de fevereiro, primeiro dia mundial da lentidão. Não sei se no Brasil alguém festejou. Na Itália houve várias iniciativas e eventos, também porque os italianos (especialmente os romanos) são adeptos desde sempre da vida devagar, e lançaram no mundo uma das propostas mais interessantes do gênero, a associação Slow Food. Que defende a calma na mesa e na cozinha. O fundador do grupo, Carlo Petrini, explica a filosofia do movimento:

- Para nós, falar de comida significa também falar de sistemas de produção, de meio ambiente, de paisagem e de ritmos de vida. Mas não somos uma corrente New Age, só achamos que a velocidade que nos rodeia deve ser compensada com um pouco de reflexão. A lentidão é um remédio homeopático: é preciso tomar um pouco todos os dias, não é uma vacina. Não pretendemos frear tudo, queremos só recuperar a capacidade de escolher como passar nosso tempo.

Slow Food nasceu na cidadezinha de Bra, no Piemonte (norte da Itália), em 1986, para responder - defendendo as tradições gastronômicas e o prazer da degustação - à difusão do fast food de origem americana. Da mesa, Slow Food passou para outros campos, abrindo um debate amplo sobre a lentidão, sobre ritmos de vida compatíveis com a qualidade da vida. Petrini propõe três critérios fundamentais: "a comida deve ser 'boa' do ponto de vista do sabor, 'limpa' do ponto de vista do meio ambiente e, por fim, 'justa', quer dizer paga de maneira adequada a quem produz a matéria prima".

A filosofia devagar se espalhou: agora existem vários grupos que defendem a "slow research", o "slow management" e até o "slow sex", em vários países do mundo. Grupos que se espalharam - "rapidamente" - de Roma a Nova Iorque, passando pela Índia (considerado o país campeão da lentidão), e lançaram a idéia de um "dia devagar", que contradiz e contesta a pressa e a tirania do "tempo é dinheiro" que dá a tônica do nosso dia a dia.

Bruno Contigiani, ex-marqueteiro estressado, decidiu coordenar as iniciativas numa associação cultural que propõe 14 mandamentos (ou melhor, "mandalentos") para encontrar a velocidade certa na vida. O arquiteto Enrico Frigerio propõe uma filosofia parecida no seu ensaio "Slow Architecture for Living": "é uma arquitetura planejada a partir do contexto, quer dizer a partir da história, da cultura e do ritmo da cidade. Usando corretamente os recursos e respeitando a natureza".

Até num setor em que a lentidão é considerada pecado mortal - os negócios - começam a aparecer sinais de uma mudança radical. Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses - que trabalham só 35 horas por semana - são mais produtivos que seus colegas ingleses ou americanos. E os alemães, que reduziram o horário semanal de algumas empresas para 29 horas de trabalho, registraram um aumento da produtividade de 20 por cento. Até os mais apressadinhos estão começando a parar para pensar no assunto.

50 cidades italianas exibem com orgulho a placa "Slow City", onde se valoriza a harmonia entre a vida urbana e a natureza. Vários artistas estão criando coletivos que usam o selo Slow Art, para se opor à arte "prêt-à-consommer" das exposições estilo rodízio. Até uma das categorias que mais sofrem sob a ditadura da pressa, os jornalistas esportivos, estão tentando mudar alguma coisa. O projeto é uma revista mensal, chamada Slow Foot, que pretende falar de futebol "lento". Mais limpo, mais ético e menos dopado.

Só falta um detalhe para completar essa onda de lentidão que pretende conquistar o mundo: a escolha de um símbolo. Slow Food lançou - com sucesso - um caracolzinho, emblema de quem acredita que devagar se vai ao longe. Os mais tradicionalistas defendem a tartaruga, porta-bandeira da vagarosidade e da paciência.

Links
O site de Slow Food Brasil
http://www.slowfoodbrasil.com/

O site de Slow Food italiano
http://slowfood.it/

A associação cultural Vivere con lentezza
http://www.vivereconlentezza.it/


Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Vera Gonçalves de Araújo vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela