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Sexta, 14 de março de 2008, 08h57

Uma azeitona na empada das eleições

Antonio Riséiro

Há mais ou menos uns dois anos, escrevi aqui um artiguete falando da absoluta inexpressividade humana de Geraldo Alckmin, então candidato à presidência da República, numa disputa em que, felizmente, acabou derrotado, perdendo feio para Lula. E agora me vejo obrigado a voltar à carga.

Por um bom motivo. É que vêm por aí as eleições municipais. Vamos, mais uma vez, escolher prefeitos. Nomes para - em boa parte, ao menos - conduzir nossas cidades. É evidente que não tenho tempo nem paciência para acompanhar esses processos em todas as capitais brasileiras. Mas me interessa o que começa e o que pode vir a acontecer em algumas delas. Especialmente, em Salvador, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mas, neste ano, incluindo, também, Belo Horizonte e Porto Alegre, pelas novidades que apresentam. Em Belô, a formação da dupla Aécio Neves e Fernando Pimentel. Em Porto Alegre, a candidatura de Manuela, capaz de entusiasmar até mesmo as bonecas de Pelotas. Manuela não é meramente uma candidata, mas uma candigata. E, como se isso fosse pouco, tem idéias próprias.

O quadro de Salvador ainda está muito confuso. Espero, pelo menos, que os baianos não tenham a insensatez de reeleger o sujeito que hoje ocupa o Palácio Thomé de Sousa. É um incompetente, novilho criado nos currais do carlismo touro-sertanejo, que bandeou para o PDT e agora descolou um lote no PMDB. No Rio, eu votaria, tranquilamente, em Fernando Gabeira. A candidatura de Gabeira é um ponto luminoso no horizonte carioca. Uma viagem nova, cheia de vida, projetando-se acima daquele mundo de fivelas, crivelas, maias, montes, desmontes, travas, trouxas e outras trevas mais. Gabeira pode inclusive fazer o Rio recuperar, em presente ao futuro, seu doce balanço a caminho do mar. Chego até a pensar em transferir meu título para lá, a fim de votar nele.

Faço minhas, a propósito, as seguintes palavras de Nelson Motta, em artigo publicado na "Folha de S. Paulo", semana passada:

- É uma felicidade democrática ter alguém que realmente representa no Congresso o que você pensa e acredita... Mas fiquei ainda mais orgulhoso agora que ele (Gabeira) impôs suas condições para ser candidato... exigiu uma campanha limpa, sem ataques pessoais, propositiva... caso eleito, que o secretariado seja escolhido por méritos e critérios profissionais e não partidários, sem o habitual loteamento como moeda de troca por apoio político. Ele não acha que só porque 'todos' fazem errado ele deve fazer também. É quase uma utopia. Mas... o Rio de Janeiro merece esta esperança.

Já em São Paulo, a candidatura de Alckmin - como a de Kassab e a de Marta Suplicy - é fato consumado. O estranho-no-ninho, penetra na festa do "establishment" tucano, impôs-se, uma vez mais, ao PSDB, atropelando Serra e seguidores e, assim, detonando uma possível aliança demo-tucana, com vistas à reeleição de Kassab. O "picolé" não tinha escolha. Era a candidatura ou a perspectiva melancólica do ostracismo e da aposentadoria.

O PSDB é um partido essencialmente paulistano. É na capital paulista que um reduzido grêmio de cardeais define o jogo de nomes, posições e rumos tucanos. E, se o sujeito não faz parte desse grêmio ou não é por ele abençoado, só há um caminho para ter poder, dentro do partido, em São Paulo. É preciso ocupar cargo na linha de frente, no primeiro time, comandando grandes movimentações orçamentárias. Ou isso, ou a submissão ao "estado maior" do tucanato, sem autonomia de vôo. Animal político, Alckmin, mais do que por uma afirmação, luta pela sobrevivência.

Dos três candidatos que realmente disputam a prefeitura paulistana, é o pior. Infelizmente, para a cidade, está, até aqui, em primeiro lugar nas pesquisas, ainda que seguido de muito perto, numa situação de empate técnico, por Marta Suplicy. Torço para que os paulistanos parem e pensem um pouco. Porque, se elegerem Alckmin, um candidato insípido, inodoro e incolor, quem vai se dar mal é a minha querida cidade de São Paulo. Sim: se tem uma coisa de que São Paulo não precisa de jeito nenhum, nesta conjuntura crucial de sua história, é de um prefeito como ele, encarnação acabada da mentalidade rotineira, alérgico a tudo que cheire a imaginação, a idéias e projetos de ponta. Ou seja: o avesso mesmo do que São Paulo necessita - e com urgência.

Basta pensar no seu desempenho governamental. Na sua pobreza de idéias. Em sua penúria imaginativa. "O desafio das cidades é maravilhoso", diz ele, ultimamente. Mas o fato é que - em comparação com Marta e Kassab - Alckmin, retrato acabado da linearidade, rei do rame-rame, é justamente o menos indicado para encarar o "maravilhoso" paulistano. E é por isso mesmo que faço figa para que Marta e Kassab cheguem ao segundo turno da disputa eleitoral. Quando, aliás, o meu voto, fora de qualquer dúvida, seria dado a Marta. Por todas as razões de que sou capaz de enumerar.

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Antonio Risério é poeta e antropólogo.

Fale com Antonio Risério: ariserio@terra.com.br

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