
Antonio Riséiro
Há mais ou menos uns dois anos, escrevi aqui um artiguete falando da absoluta inexpressividade humana de Geraldo Alckmin, então candidato à presidência da República, numa disputa em que, felizmente, acabou derrotado, perdendo feio para Lula. E agora me vejo obrigado a voltar à carga.
Por um bom motivo. É que vêm por aí as eleições municipais. Vamos, mais uma vez, escolher prefeitos. Nomes para - em boa parte, ao menos - conduzir nossas cidades. É evidente que não tenho tempo nem paciência para acompanhar esses processos em todas as capitais brasileiras. Mas me interessa o que começa e o que pode vir a acontecer em algumas delas. Especialmente, em Salvador, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Mas, neste ano, incluindo, também, Belo Horizonte e Porto Alegre, pelas novidades que apresentam. Em Belô, a formação da dupla Aécio Neves e Fernando Pimentel. Em Porto Alegre, a candidatura de Manuela, capaz de entusiasmar até mesmo as bonecas de Pelotas. Manuela não é meramente uma candidata, mas uma candigata. E, como se isso fosse pouco, tem idéias próprias.
O quadro de Salvador ainda está muito confuso. Espero, pelo menos, que os baianos não tenham a insensatez de reeleger o sujeito que hoje ocupa o Palácio Thomé de Sousa. É um incompetente, novilho criado nos currais do carlismo touro-sertanejo, que bandeou para o PDT e agora descolou um lote no PMDB. No Rio, eu votaria, tranquilamente, em Fernando Gabeira. A candidatura de Gabeira é um ponto luminoso no horizonte carioca. Uma viagem nova, cheia de vida, projetando-se acima daquele mundo de fivelas, crivelas, maias, montes, desmontes, travas, trouxas e outras trevas mais. Gabeira pode inclusive fazer o Rio recuperar, em presente ao futuro, seu doce balanço a caminho do mar. Chego até a pensar em transferir meu título para lá, a fim de votar nele.
Faço minhas, a propósito, as seguintes palavras de Nelson Motta, em artigo publicado na "Folha de S. Paulo", semana passada:
- É uma felicidade democrática ter alguém que realmente representa no Congresso o que você pensa e acredita... Mas fiquei ainda mais orgulhoso agora que ele (Gabeira) impôs suas condições para ser candidato... exigiu uma campanha limpa, sem ataques pessoais, propositiva... caso eleito, que o secretariado seja escolhido por méritos e critérios profissionais e não partidários, sem o habitual loteamento como moeda de troca por apoio político. Ele não acha que só porque 'todos' fazem errado ele deve fazer também. É quase uma utopia. Mas... o Rio de Janeiro merece esta esperança.
Já em São Paulo, a candidatura de Alckmin - como a de Kassab e a de Marta Suplicy - é fato consumado. O estranho-no-ninho, penetra na festa do "establishment" tucano, impôs-se, uma vez mais, ao PSDB, atropelando Serra e seguidores e, assim, detonando uma possível aliança demo-tucana, com vistas à reeleição de Kassab. O "picolé" não tinha escolha. Era a candidatura ou a perspectiva melancólica do ostracismo e da aposentadoria.
O PSDB é um partido essencialmente paulistano. É na capital paulista que um reduzido grêmio de cardeais define o jogo de nomes, posições e rumos tucanos. E, se o sujeito não faz parte desse grêmio ou não é por ele abençoado, só há um caminho para ter poder, dentro do partido, em São Paulo. É preciso ocupar cargo na linha de frente, no primeiro time, comandando grandes movimentações orçamentárias. Ou isso, ou a submissão ao "estado maior" do tucanato, sem autonomia de vôo. Animal político, Alckmin, mais do que por uma afirmação, luta pela sobrevivência.
Dos três candidatos que realmente disputam a prefeitura paulistana, é o pior. Infelizmente, para a cidade, está, até aqui, em primeiro lugar nas pesquisas, ainda que seguido de muito perto, numa situação de empate técnico, por Marta Suplicy. Torço para que os paulistanos parem e pensem um pouco. Porque, se elegerem Alckmin, um candidato insípido, inodoro e incolor, quem vai se dar mal é a minha querida cidade de São Paulo. Sim: se tem uma coisa de que São Paulo não precisa de jeito nenhum, nesta conjuntura crucial de sua história, é de um prefeito como ele, encarnação acabada da mentalidade rotineira, alérgico a tudo que cheire a imaginação, a idéias e projetos de ponta. Ou seja: o avesso mesmo do que São Paulo necessita - e com urgência.
Basta pensar no seu desempenho governamental. Na sua pobreza de idéias. Em sua penúria imaginativa. "O desafio das cidades é maravilhoso", diz ele, ultimamente. Mas o fato é que - em comparação com Marta e Kassab - Alckmin, retrato acabado da linearidade, rei do rame-rame, é justamente o menos indicado para encarar o "maravilhoso" paulistano. E é por isso mesmo que faço figa para que Marta e Kassab cheguem ao segundo turno da disputa eleitoral. Quando, aliás, o meu voto, fora de qualquer dúvida, seria dado a Marta. Por todas as razões de que sou capaz de enumerar.
Terra Magazine