
Roberto de Sousa Causo
Precisei dirigir para um amigo que veio à capital durante esta semana. Na primeira noite conversamos sobre como certos leitores se apressam a julgar escritores por opiniões expressas fora da página literária. Decidi fazer disso o assunto da coluna deste fim-de-semana - mesmo porque dirigir para esse amigo esculhambou o meu esquema de leitura para a coluna.
Ben Bova, o escritor ítalo-americano que foi também editor das revistas Analog e Omni, escreveu nas páginas de Analog: "Cuidado com homens de um livro só."
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Um ótimo conselho para os nossos tempos. Homens de um livro só - seja ele a Bíblia ou o Corão, a Cartilha do PC ou o Papel Moeda - são mais propensos a colocar uma bomba debaixo da cama de quem não compartilha suas idéias. Mas talvez o livro mais lido pelos homens de um livro só se chame "Cotidiano", tenha ele como subtítulo "Senso Comum", "Tradição" ou "Inércia".
O que eu quero tratar aqui, porém, é do leitor que limita suas leituras, consciente ou inconscientemente, a autores e livros que de algum modo confirmem suas convicções. Será por isso que lemos literatura - e em particular ficção científica e fantasia? Em parte sim, e é perfeitamente natural. Mas quando fechamos a porta a autores e livros discordantes, que desafiam ou ameaçam nossas convicções, não estamos indo contra algo extremamente importante, vital, que está no cerne da própria literatura?
C. S. Lewis, o autor das Crônicas de Nárnia, escreveu:
Este, até onde eu possa ver, é o valor específico da literatura considerada como Locus (história); ela nos admite a outras experiências além das nossas. Elas não são, não mais que nossas experiências pessoais, todas igualmente válidas. Algumas, como dizemos, nos "interessam" mais que outras. As causas desse interesse são naturalmente e extremamente variadas e diferem de um homem para outro; pode ser o típico (e nós dizemos "como é verdadeiro!") ou o anormal (e dizemos "como é estranho!"); pode ser o belo, o terrível, o que inspira espanto, o euforizante, o patético, o cômico, ou o meramente picante. Literatura dá a entrée a todas elas. Aqueles de nós que têm sido leitores verdadeiros durante todas as nossas vidas raramente entendem por completo a enorme extensão do nosso ser que devemos aos autores. (...) O homem que está satisfeito em ser apenas ele mesmo, e portanto menos que um ser, está em uma prisão.
Alguns se aprisionam voluntariamente, não por não lerem, mas por estarem dispostos a ler apenas aquilo com que já possuem afinidade. Se o livro é uma janela aberta para o mundo, estes são leitores que procuram uma única abertura voltada para o que lhes melhor convém. Lêem um livro só - aquele que eles mesmos escreveram como manual para enxergarem o mundo. Lewis, por outro lado, evoca a vastidão de tudo o que fica de fora e ao que o espírito almeja, e que encontra acolhida na literatura:
Meus próprios olhos não me bastam, eu verei através dos olhos dos outros. A realidade, mesmo vista através dos olhos de muitos, não é o bastante. Verei o que os outros inventaram. Mesmo os olhos de toda a humanidade não são o bastante. Lamento que os brutos não possam escrever livros. Com muita gratidão eu aprenderia qual a face com que as coisas se apresentam a um camundongo ou a uma abelha; com maior gratidão ainda eu perceberia o mundo olfatório carregado com todas as informações e emoções que ele leva a um cão.Mais lamentáveis são as ocorrências de leitores que afirmam que, se tivessem sabido antes da posição deste ou daquele autor (sobre gênero ou opção sexual, práticas políticas ou sociais, etc.), nunca teriam lido o seu livro - que, aliás, em sua ignorância eles adoraram. São leitores que não confiam na própria capacidade de construir significados a partir da experiência que a literatura lhes faculta. Pois um escritor pode possuir uma determinada opinião, e sua ficção estar livre dela. Ou o leitor é capaz de encontrar interpretações que fugiriam das convicções do autor!
De fato, o leitor possui uma autonomia que raramente é assinalada. Uma colega de faculdade uma vez me falou sobre como se sentiu incomodada com a mensagem que o romance de Jorge Amado, Capitães de Areia, parecia querer lhe passar. "Num primeiro momento você foi convencida por ele?" perguntei. "Sim", ela respondeu. "Então palmas para o autor", eu disse, para então perguntar: "E num segundo momento você reviu sua opinião?" "Revi", ela disse, e eu: "Então palmas pra você!"
Há ainda o caso, mais intelectual, de quem sofre de "temor da emoção", que Andrew M. Gordon denuncia em Empire of Dreams (2008), seu livro sobre a obra de Stephen Spielberg: "O preconceito crítico contra a FC, fantasia e horror pode derivar não apenas do medo do infantilismo ou dos tipos 'errados' de prazer, mas também de um medo da emoção e do prazer de sentir emoção."
É o caso de José Castello, na crônica literária "McCarthy Roubou meus Olhos" (O Globo, 12/01/2008). Castello reclama que ele, como leitor do romance A Estrada (2006) de Cormac McCarthy, sentiu-se "oprimido e imobilizado". "Como escolher sentimentos?", pergunta, depois de afirmar que "o que define o humano é a capacidade de escolher".Para o intelectual, sentir algo de profundo ao ler um livro parece lhe roubar algo - quando deveria lhe trazer algo: se ele sente é porque o sentimento faz parte dele, mesmo que fora da esfera intelectual. Sentir é conhecer algo de si mesmo.
O potencial subversivo da literatura advém, em grande parte, do fato de ela ser construída na mente do leitor. E eu já escrevi em outro lugar que é difícil para o sujeito rejeitar o que ele mesmo construiu no palco escuro de sua mente. É por isso que se queimam livros, e nisso os censores são mais perceptivos que aqueles críticos aos quais tudo se resume a estéticas e conceitos. Certamente, literatura como experiência está fora das concepções mais estritas da crítica mainstream, mas é central para qualquer gênero de ficção popular.
No fundo desses fenômenos pode estar uma disposição que é mais social do que literária - o desejo de estar sempre em boa companhia, temendo ser julgado por seu contato com as más. Não é preciso especular muito para concluir que a literatura também tem essa função social de separar entre os que estão certos e os que estão errados, com base nas leituras de cada um. Quantas vezes não ouvi, "você não leu Ulisses de James Joyce, então não pode criticar o meu livro".
Há uma palavra em inglês para o desejo de estar sempre do lado dos bons e dos justos, self-righteousness, nem sempre fácil de traduzir para o português. É até certo ponto um impulso infantil, ainda que seletivo, de busca por aceitação. Paradoxalmente, na minha convivência literária de muitos anos com escritores e críticos, são os autoproclamados "liberais" (entre as quais me incluo) e "vanguardistas" os mais propensos à intolerância contra quem não partilha das idéias da sua corrente sobre literatura, arte ou política. Em especial, têm dificuldade para aceitar a idéia de que alguém de pensamento diferente possa caminhar ao seu lado, e não atrás - como implica a origem militar da expressão "vanguarda": avant-guarde, o grupo que segue na frente.
Estão sempre dispostos a expressar tolerância a grupos e práticas incluídas em suas cartilhas, e pouca ou nenhuma a quem estiver fora ou que discorde de uma de suas cláusulas. Um sentimento de grupo sempre se insinua nesse comportamento - o desejo de reforçar valores comuns, tendo em vista aceitação e reafirmação.
Por outro lado, como Lewis (novamente) escreveu:
A experiência literária cura a ferida, sem minar o privilégio, a individualidade. Há emoções de massa que curam a ferida; mas elas destroem o privilégio. Nelas as nossas consciências separadas são emboladas e nós afundamos de volta a uma sub-individualidade. Mas lendo grande literatura eu me torno mil homens e ainda permaneço eu mesmo. Como o céu noturno no poema grego, vejo com uma miríade de olhos, mas ainda sou eu mesmo quem vê. Aqui, como na adoração, no amor, na ação moral, e no conhecimento, transcendo a mim mesmo; e nunca sou mais eu do que quando o faço.
A boa literatura parece exigir a tolerância não a partir do que é sancionado pelo grupo, qualquer que seja, mas a partir de uma afirmação da falibilidade humana. E isso é algo que o leitor - se estiver aberto à experiência - só pode alcançar individualmente. Alguns escritores possuem um talento especial para evocar justamente isso, e a dificuldade de se estabelecer o mérito das coisas e dos atos, no mundo moderno: Stephen King, Anton Myrer, John le Carré, Orson Scott Card, David Poyer, Robin Hobb. Há simplesmente gente demais no mundo, opiniões demais, armas automáticas e machetes demais, e, igualmente, razões demais - legítimas e ilegítimas - para usá-las. Esses e outros autores são capazes de evocar as motivações por trás de atitudes conflitantes, ao invés de apenas se alinharem a uma visão pré-estabelecida. O vilão, o inimigo ou o oponente do herói também possuem razões que podem ser tão válidas quanto às do herói. Os agentes em conflito são prisioneiros de seus compromissos e adesões. Assim, tais escritores expressam o sentido trágico da vida em nosso momento histórico.
Essa é uma característica dos nossos tempos que freqüentemente mascaramos em nossos discursos de globalização e integração de mercados. E arrisco dizer que a ficção desses autores toca, dessa maneira, num ponto que é mais central do que aqueles favorecidos por outras explorações literárias.
Terra Magazine