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Segunda, 17 de março de 2008, 08h43

Nota sobre zombies: as vedetes do novo milênio

Paulo Scott

Não é necessário ser nenhum aficionado em histórias de terror para saber que os vampiros foram os monstros mais populares (leia-se: temidos, venerados, odiados, explorados comercialmente) no imaginário ocidental durante o século XX - modismos esotéricos à parte, não foram poucas as personalidades, e mais recentemente as celebridades, acusadas de vampirizar quem estava a seu redor (surge uma lista interminável na minha cabeça). Apesar disso, não se pode negar a ascensão meteórica dos zumbis, no final da década de noventa e início deste milênio, rumo ao estrelato.

Mesmo que, depois de pesquisar as palavras vampires e zombies no Google, a primeira leve alguma vantagem sobre a segunda, é notório que a industria de entretenimento - desde o clássico "A noite dos mortos vivos" (Night of the living dead, 1968, dirigido por George Romero) - vem reescrevendo, ampliando e atualizando a lenda do corpo que é reavivado numa sessão de voodoo. Hoje, sem concessão, os zumbis são outros, prestando-se a todo tipo de metáfora, de alegoria.

Depois de toda a badalação verificada nesses últimos anos ¿ e que produziu pérolas da cultura pop, como o longa-metragem "Extermínio", do diretor Danny Boyle; a história em quadrinho "Crimes macabros", do Steve Niles (ilustrações do Ben Templesmith); e os eventos públicos chamados Zombie Walk - nos quais os participantes se vestem de zumbis e saem numa espécie de passeata pelas principais ruas das cidades, grunhindo, gemendo, gritando -, pode-se dizer que há novos mortos-vivos arrebatando a simpatia da praça.

Talvez essa estética seja a mais compatíveis com as idiossincrasias desta primeira década do século XXI. Independente da variação (mais lentos, mais rápidos, rebeldes, serviçais, justiceiros), confirmam um arquétipo à altura dos vampiros - ocorrem-me intempestivamente as letras das músicas "Voodoo child", do Jimi Hendrix, e "I walked with a zombie", imortalizada pelos Ramones; ambas, numa atmosfera quase religiosa, flertam com a tragédia da personagem desgraçada, para a qual não há mais saída.

Se, de um lado, o sonho do bem-estar social - como standard generalizado, expectativa de um hedonismo coletivo às avessas - e a onda sem precedentes de consumo, consumo, consumo reforçaram o fascínio pelo ser das trevas que oprime os aldeões (indefesos e ainda assim inertes) e detém a condição de novo lúcifer, de outro lado, há um niilismo espalhado que não deixa lugar para outra figura (uma personagem menos afortunada quando se trata de livre-arbítrio): o zumbi.

Ainda nessa linha. Se a condição de vampiro era (e ainda é) para poucos - não se esqueça, nem toda vítima se converte à raça desse algoz -, a de zumbi é para todos: um novo tipo de gado sobre a terra. Na versão original, tais criaturas não comem, não bebem, não dormem, não pensam, apenas seguem para onde o seu senhor mandar. Conveniente?

No Brasil, seria possível uma guerra: zumbis contra vampiros. Atmosfera e assombros não faltam para tal; nossa vocação cênica de botequim os tornam rotina, inclusive. Que belíssimo game isso daria - uma nova época, a democracia do terror em vários níveis, por que negá-la aos privilegiados ? -, isso tudo, claro, é preciso verossimilhança, se os zumbis aprendessem a pensar e se dessem conta que são a maioria.


Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).


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