
João Carlos Salles
Quando digo que não sei nadar, as pessoas me dirigem um olhar de comiseração, uma pena tornada ainda maior quando têm em conta que, em minha idade, o exercício mais apropriado não é bem a natação, mas sim a hidroginástica. Devem imaginar-me desvalido, ameaçado pela sorte e pelas piscinas. Nesses casos, amigos pressurosos afirmam a importância e a urgência do aprendizado, e se dispõem até a ensinar-me - por vezes, com técnicas estranhas, como a de meu amigo Júlio, segundo a qual devo primeiro aprender a mergulhar.
Quando, porém, digo que não sei dirigir, percebo um instantâneo esgar, um ar mal disfarçado de repulsa, como se eu fizesse parte de um grupo de seres dos mais fantásticos, desses que trazem má sorte por simples contato. Dirigir parece hoje uma capacidade essencial, cuja falta deve ser trabalhada por terapeutas ou religiosos - na Bahia, por pais ou mães de santo.
Não dirigindo, sinto-me em jejum de civilidade, ou mesmo desassistido por Deus. O Altíssimo, afinal, talvez exija dos mais chegados habilidades diversas, como dirigir todo tipo de carro e mesmo helicópteros. Fiquei convencido disso quando vi Milo Andros, irmão premonstratense, conduzir-me de carro até Itinga, onde deveria proferir uma palestra, em desabalada carreira, com as peças de seu carro velhíssimo como que seguras e suspensas por anjos atônitos e muito dedicados.
Admito admirar o ronronar suave de um automóvel e faço as vezes de um bom co-piloto, um navegador com bom senso de direção. Disso porém a dirigir vai uma distância imensa, como a que separa minotauros e ornitorrincos. Prefiro permanecer um renegado dos homens e dos deuses. E, agora mesmo, como a reforçar-me a convicção, escrevo em meio a um engarrafamento. Uma realidade cada vez mais freqüente mesmo em Salvador. E todo engarrafamento é atroz, nivelando-nos a todos segundo nossos instintos mais desesperados e acabando com qualquer passeio, deslocamento rápido ou improviso. Andar pela cidade é então exercício de cálculo, de planejamentos mirabolantes.
Começo a prezar então essa minha falta, essa vergonha, a de não saber nem querer dirigir. Um dia talvez, aumentado o pânico comum, essa falta abjeta ganhe ares de heroísmo, como se fora uma espécie imponderável de desobediência civil. E como bravos heróis da resistência, uma vez compreendida a antiga falta como estilo e ideologia, talvez mereçamos honras militares, enquanto atravessamos a nado piscinas olímpicas.
Terra Magazine