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Sábado, 22 de março de 2008, 07h50

Jonathan: "Quero disputar a Olimpíada pelo Brasil"

Luciano Borges

Jonathan Tavernari não sabe, mas seu nome faz parte de uma lista de jogadores que poderão ser chamados para a seleção brasileira de basquete.

O ala-pivô da Universidade de Brigham Young vem sendo observado por integrantes da comissão técnica. No encontro na sede da Confederação, eles mostraram a relação de atletas que merecem uma chance no Campeonato Sul-Americano, que será disputado em junho no Chile.

A convocação só sairá em maio, depois da definição do nome do técnico. O espanhol Moncho Monsalve foi escolhido para montar a equipe que tenta a vaga na Olimpíada de Pequim, no Pré-Olímpico Mundial, em Atenas, no mês de julho. Antes, no torneio continental, outro técnico - um brasileiro - vai testar novos talentos.

E Jonathan Tavernari é um talento. Aos 20 anos de idade, ele ganhou status de "o cara" na BYU. Além de ter um arremesso de três pontos acima da média, o jovem nascido em São Bernardo do Campo (SP) ganha sempre a missão de marcar o melhor dos adversários. "Ele se sai bem marcando jogadores mais altos e fortes. É muito determinado", disse o técnico Dave Rose ao site da NCAA.

Foi assim que Jonathan entrou na quadra do Honda Center, em Anaheim (Califórnia, EUA), na noite da última quinta-feira. A BYU enfrentou a equipe do Texas A&M, no "mata-mata" das oitavas de final da conferência oeste (Moutain West Conference).

A equipe de Utah perdeu por 67 a 62. O brasileiro Jonathan terminou o jogo como cestinha de sua equipe (15 pontos). Ele permaneceu na partida por 32 minutos, deu uma assistência e ganhou três rebotes. Em alguns momentos, forçou arremessos de três pontos. Conseguiu sucesso em três ocasiões.

O tempo todo, Tavernari, buscou o jogo e pediu a bola nos momentos mais decisivos. "A bola do jogo termina sempre na minha mão", disse ao Terra Magazine, por telefone, antes do confronto contra o Texas. Ele não sabia do interesse da CBB.

As estatísticas com o desempenho de Jonathan na NCAA nesta temporada são muito boas. Ele termina o torneio com média de 13 pontos por partida, 5,3 rebotes e 1,5 assistência. Ele permaneceu em quadra cerca de 27 minutos e meio a cada jogo. O aproveitamento nos arremessos de três é de 38%. Para quem acha que os adversários da BYU na Moutain West são fracos, vale lembrar que a North Carolina University lideram o ranking da Associação. Contra esta equipe, o brasileiro fez seis cestas de três e atuou por 32 minutos.

Filho da treinadora de basquete Thelma Tavernari, Jonathan foi treinado para ser versátil. "Posso jogar de 1,2,3,4 e 5", garante. Ele mede 1m98 de altura e tem um jeito quase arrogante de conversar. Usa a palavra "mano" o tempo todo. Mas se empolga quando começa a conversar sobre basquete. "Eu amo este esporte", afirma.

Dono de um passaporte italiano, ele quer ainda jogar na Europa. Mas, antes, quer ser o melhor jogador da BYU nas duas próximas temporadas. Depois, no draft para a NBA, tenta realizar seu sonho de se tornar profissional do basquete. A vida acadêmica vai bem. Ele estuda Comércio Exterior e anda com boas notas.

Em dezembro do ano passado, Jonathan ganhou notoriedade por causa de um acidente. Durante uma partida contra a escola Pepperdine, da Califórnia, o ala Jason Walberg praticamente "enfiou" dois dedos nos globos oculares de Tavernari. O fotógrafo de Utah, Chris Detrick conseguiu registrar a cena impressionante. A foto lhe rendeu o prêmio da World Press e rodou o mundo.

Jonathan lembra da cena com bom humor. Afinal, chegou a fazer uma cesta de três pontos com "a vista embaçada".

A seguir, a conversa com uma das promessas do basquete brasileiro que quer mesmo disputar uma Olimpíada, mas não achava que estava sendo observado pelos treinadores do Brasil.

Terra Magazine - Você sonha com os Jogos Olímpicos?
Jonathan Tavernari - Com certeza. Mano, é um sonho, um objetivo na minha carreira. Quero disputar uma Olimpíada, um Mundial, ser campeão pela seleção brasileira. Por mim, já tinha disputado o Pré-Olímpico quando tinha 10 anos de idade. Estou em forma, tecnicamente e fisicamente bem. Mas quem tem que achar que posso jogar pelo Brasil, não sou eu.

Você conhece o espanhol Mocho Monsalve?
Não tenho a mínima idéia de quem ele seja, a não ser que vai dirigir o Brasil.

Você está nos Estados Unidos há quatro anos. Neste tempo, já foi procurado por alguém da CBB?
Olha mano, há cerca de um mês, recebi um formulário da CBB pedindo informações, como se fosse um cadastro. Quando tinha 15 anos, joguei pela seleção brasileira cadete. Depois disso, nunca mais falei com ninguém.

Conhece algum jogador da seleção brasileira?
O Rafa (Baby, que atuou na BYU, no Utah Jazz e agora está na Rússia), é o cara com quem falo, mano. Ele me dá conselhos, toques, porque já passou por situações que estou passando. Ele de dá moral, mano. A gente fala direto. Fora ele, só o Leandrinho. Ele veio jogar na Liga de Verão em Salt Lake City, Utah, perto de mim. Eu falei com ele, conheci ele.

Você viu o Brasil no Pré-Olímpico em Las Vegas?
Quando o torneio começou, eu estava na França com a BYU. Na volta, fui a Lãs Vegas, onde tenho minha família adotiva (Jonathan estudou dois anos na cidade, completando o high school). Assisti o jogo entre Brasil e Estados Unidos (vitória americana por 113 a 76).

Como foi?
Foi legal de ver. Todo mundo lá em Las Vegas, sabe quem eu sou. Quando joguei na high school, quebrei recordes de Double-double, de cesta de três pontos. Então as pessoas ficavam me perguntando porque não estava jogando na seleção.

E o que você respondeu?
Mano, ia dizer o quê? Não tinha idéia. Na seleção, não tenho moral nenhuma...Quer dizer...não escreve esse negócio da moral porque pode ter outro sentido...O que eu queria dizer é que ninguém sabe quem eu sou.

Você falou com os jogadores e o técnico Lula?
Não.

Você é conhecido assim em Las Vegas?
Deixa eu explicar, mano. Eu já tinha sido eleito o novato do ano pela NYU, na Mountain West Conference. No high school, eu joguei por duas escolas de Las Vegas. A primeira não foi muito legal, não joguei muito bem. Lá, o basquete não era o esporte da escola. Depois, na Bishop Gorman, foi tudo certo. Tirei diploma lá, nosso time chegou à final. Perdemos por um ponto. E o último arremesso era meu. Errei. Vê como são as coisas. Perdemos por um ponto na prorrogação.

Você joga mais como ala, mas o site da BYU o coloca como ala/pivô. Qual sua posição?
Mano, sou pontuador. Meu forte é a bola de três pontos. Deixa eu explicar. O basquete universitário não é o mesmo jogo da NBA ou daí. O ¿college¿ é muito conjunto. A bola busca muito o pivô. Eu, se precisar jogo lá dentro do garrafão. Posso ser armador, quando o escolta está apertado. Na NYU, a gente joga com quatro aberto. Sou grande e caio como pivô. Sou mais um ala com força. Como ala 2, não pulo tanto quanto o Kobe Bryant (ala do LA Lakers, ídolo de Jonathan), que pula pra caramba. Eu faço tudo. Jogo de 1,2,3,4 e 5.

Qual seu papel no time da BYU?
Sou como titular absoluto. Este ano tenho meu papel...assim...como o Roberto Carlos e o Cafu tinham na seleção brasileira. Eu sou o marcador do cara mais alto ou do melhor cara do adversário. Até hoje, nesta temporada, a bola de final de jogo, aquela que decide mesmo, vai para a minha mão.

E NBA?
Mano, prometi para meu pai e minha mãe que iria chegar lá e, ao mesmo tempo, ia me formar na faculdade. Estou só no segundo ano da BYU. Tenho mais dois anos para ser "o cara". Aí vou atrair publicidade, mídia, vou lucrar e dar lucro. Tenho mais dois anos para chegar no "draft" mais forte, melhor tecnicamente e mais experiente.

Falando em mídia, aquela foto do jogo contra a Peperdine deixou você famoso?
Acho que fiquei um pouco mais conhecido, mas não muito. As pessoas que já sabiam quem eu era vinham me perguntar como foi e tal.

E como foi?
Não machucou, mas eu não conseguia enxergar direito depois. Mesmo assim, continuei jogando. Peguei um rebota, dei uma assistência e fiz uma cesta de três pontos. Isso, vendo tudo nublado.

De que jeito você acertou o chute de três?
Chutei quase com os olhos fechados. Olhei para o chão e vi de onde eu ia chutar. Mandei a bola e pensei: "Vai cair". Ela caiu. Aí voltei para a defesa e balancei a camiseta, sinalizando que precisava sair. Aí disse para o técnico que não estava enxergando nada.

Você teve lesão?
O mais incrível é que não. Os caras me examinaram, me deram um colírio. O bom é que não feriu a retina.

A foto rendeu um prêmio da World Press para o fotógrafo Chris Detrick?
Pô mano, sabe que eu já pensei em chegar pro cara e perguntar se não tem como Dara uma parte do prêmio para mim. Afinal, fui eu quem se feriu naquela foto (risos).

Voltando à seleção brasileira, você nunca pensou em mandar um DVD para a CBB?
Minha mãe tem todos os jogos que disputei. Eu mando para ela. Mas não mandaria um DVD para a CBB. Seria como dizer que eu estou jogando bem, para eles olharem para mim. Não é assim que as coisas funcionam. A seleção tem que precisar de mim.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

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