Milton Hatoum
Para Luis Fernando Verissimo
Um leitor me perguntou se era possível transformar uma celebridade em personagem de ficção.
Claro que sim. Quando se trata de ficção, tudo é possível. Depende menos da celebridade e muito mais do talento do escritor. Há celebridades extraordinárias: artistas, poetas, cantores, escritores, empresários, dançarinos, jornalistas. E, por que não dizer, políticos, mas estes são celebridades cada vez menos extraordinárias.
Vários romancistas e cineastas se inspiraram em celebridades para compor uma obra. Cidadão Kane, o clássico dirigido por Orson Welles, é um grande filme sobre esse tema. A fogueira das vaidades, romance de Tom Wolfe, não será o último.
Mas o leitor referia-se a outro tipo de celebridade, a mais vulgar e efêmera de todas, do tipo Big Brother. Aí desconfio quando alguém afirma: "Tal celebridade parece um personagem". Pode até parecer, mas é quase sempre uma figura plana, algo mais chapado do que uma caricatura. Por exemplo: certas celebridades, cansadas de tanta vulgaridade, dificilmente seriam fontes de inspiração para personagens complexos. Escutamos suas gargalhadas de hienas, vimos seus trejeitos e pulos na tela da TV, ouvimos sua voz melosa, mas os abismos do inconsciente passam longe dessa estupidez feliz. Esse tipo de celebridade é apenas o que aparenta: pele sem alma, riso sem mistério. Ou um inventário de tiques e gestos repetitivos.
Mas não queria falar dessas celebridades, que lembram frutas da estação. Algumas apodrecem antes do tempo; ou, mastigadas ainda verdes, são um convite à indigestão. Muitas desaparecem no outono, ressurgem no verão e são esquecidas no inverno. Daqui a algum tempo, todas se tornam casca de banana.
Passei da celebridade vulgar à casca de uma fruta. Então vamos à fruta, que é saborosa, milagrosa para a saúde e custa uma mixaria. Sim, leitor. Banana é coisa séria. Li em algum lugar que os mortais viciados em bananas livram-se da depressão. A banana tornou-se uma verdadeira celebridade nas Filipinas. Dizem até que já não há mais asiáticos deprimidos. Isso porque um estudo de laboratório revelou uma alta dose de um antidepressivo natural nesta fruta cuja casca tem duas cores da bandeira do Brasil. Duas? Com um pouco de imaginação, todas as cores, pois há bananas azuladas e embranquecidas. Coma três por dia e seu humor será maravilhoso. E a coisa não pára por aí. A fruta é rica em vitaminas K, C, A e B6, reduz o risco de lesão cardíaca e aumenta a massa muscular de adultos e crianças.
Mal acabei de ler o artigo científico, corri até a quitanda mais próxima e comprei uma dúzia de bananas. Tracei três antes de dormir. Eu, que sofro de insônia mórbida, dormi como um anjo. O dia amanheceu nublado em São Paulo, mas acordei saltitante, sem sinal de irritação. Depois folheei os jornais e li de relance um bate-boca entre políticos. Por Deus, leitor. Era tanto insulto, tanta agressão verbal, que pensei: Por que eles não comem bananas? Falta-lhes uma bananinha na boca, no estômago. Ou na vida. Só uma banana? Um cacho, uma bananada a cada hora do dia com sua noite. É claro que lhes faltam também um naco de compostura, mas seria pedir muito a celebridades tão ordinárias.
Depois li as coisas mais absurdas do mundo, deste mundo insano que nos tocou viver. Mas não me descabelei. Fui às bananas, reli uns poemas de Drummond e escrevi esta crônica sobre uma fruta célebre.