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Segunda, 24 de março de 2008, 08h39

Gerações 68: era um sonho, é tudo verdade

Fernando Eichenberg

"Hoje, quando se fala de 1968, é como se falássemos de uma pessoa, de alguém que existiu e desceu à terra para fazer seja o bem ou seja o mal". São as palavras do escritor e roteirista francês Jean-Claude Carrière que abrem o filme Générations 68, de Simon Brook, selecionado para a programação do 13º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. De uma certa forma, a abertura dá o tom do que virá na seqüência. Em vez de acumular teses, o diretor optou por falar de pessoas. Mais especificamente, em ouvi-las. "Mas chega de experts. Não queria um político, um filósofo e um intelectual apontando o dedo e explicando o que eu e você não entendemos, porque não vivemos esse período. Já estamos cheios disso", diz a Terra Magazine.

Nascido em 1966, Simon tinha dois anos de idade quando as revoltas estudantis eclodiram em Paris. Em maio de 68, engatinhava em um apartamento na rua Guénégaud, no bairro Saint-Germain des Près, na capital francesa, onde moravam seus pais, o célebre diretor inglês Peter Brook e a atriz Natasha Parry. Para marcar os 40 anos do movimento, pensou em um documentário sustentado no testemunho de pessoas que vivenciaram as mutações dos anos 1960. Sua lista de personagens é bastante significativa e eclética: além de Jean-Claude Carrière e do próprio pai, Peter Brook, foram ouvidos Milos Forman, Dennis Hopper, Václav Havel, William Klein, Mary Quant, Ed Ruscha, Annie Nightingale, Georges Wolinski e Jean-François Bizot.

Todos eles estão no filme, mas não aparecem, pelo menos não como são hoje. Nas entrevistas que fez com cada um, não foi utilizada câmera, apenas um gravador. "Eles ficavam muito intrigados, pois sabiam que eu estava fazendo um documentário, mas não os filmava", conta. Os depoimentos todos são usados em voz off. "Dennis Hopper é um homem de 71 anos, muito sedutor, elegante, de barba grisalha e muitas rugas no rosto. É um homem bonito. Mas não é a mesma coisa vê-lo assim, de terno e gravata em um quarto escuro de hotel, e vê-lo com seus espessos bigodes, sobre uma moto, no filme Easy Rider, e sua voz em off contando como eram os anos 60", explica.

E, em seus 52 minutos de duração, o filme funciona perfeitamente nesse formato. No início, o espectador espera que, em algum momento, o rosto daquela voz aparecerá na tela, mas logo mergulha em sua dinâmica e na cuidadosa edição de imagens e vídeos feita pelo diretor. Durante quatro meses, Simon examinou arquivos da época, incluiu imagens inéditas e deixou de fora aquelas muito batidas.

Simon Brook diz que uma de suas intenções ao fazer o documentário era reabilitar, de alguma maneira, o espírito das pessoas do final dos anos 60: "Talvez algo vá ocorrer de novo hoje graças aos jovens que atuam na internet, a essa comunidade internacional ligada em rede. Talvez seja o começo de algo". Por outro lado, confessa que o filme também lhe deixou um gosto amargo. "Acho que minha geração é um pouco covarde. No final dos anos 60, as pessoas protestavam contra a injustiça, a desigualdade das mulheres, a guerra no Vietnã, a pobreza. Hoje, geralmente manifestam por seus próprios problemas. É algo legítimo, mas não há mais essa mobilização e motivação de uma certa juventude internacional. Os cinco anos da guerra no Iraque foi há alguns dias. Você viu algo sobre isso nos jornais ou na tevê? Uma semana antes foi os 40 anos do aniversário do massacre de Mi Lay, no Vietnã, algo que mudou a percepção da guerra nos EUA porque um contingente americano entrou em uma aldeia e matou mulheres e crianças. Também não vi nada aqui. Para mim, a lição que ficou depois deste filme é: não se pode ter medo".

Além das muitas imagens examinadas que ficaram fora do filme, a maior parte das longas entrevistas feitas com cada um dos personagens não pôde entrar na edição final. A íntegra dos depoimentos traz preciosidades e curiosidades que o espectador, infelizmente, não ficará sabendo. Para quem for ou não assistir ao filme de Simon Brook no festival brasileiro, faço aqui um making of com algumas histórias e trechos dos testemunhos que não foram incluídos em Générations 68.

Para o cineasta Milos Forman, por exemplo, o ano de 1968 foi uma longa travessia. Em março de 68, então com 36 anos, chamou Jean-Claude Carrière para trabalhar com ele no projeto de seu primeiro filme americano (que se chamaria mais tarde Taking Off, sobre o meio hippie de Nova Iorque). As semanas seguintes foram bastante agitadas: houve os sangrentos motins no Harlem, e abril foi o mês do assassinato de Martin Luther King. Como tinha o filme O Baile dos Bombeiros (1967) selecionado no Festival de Cinema de Cannes, disse a Carrière: "Vamos para a França, lá é pacífico e continuaremos a trabalhar tranqüilamente em Cannes". Os dois satisfizeram um antigo desejo e atravessaram o Atlântico no que seria a derradeira viagem do navio Queen Elizabeth. Mal-chegaram em Cannes e as revoltas começaram em Paris. "Bem, eu me lembro, foi realmente algo - conta Milos Forman. Eles me disseram que tinha de mostrar solidariedade e também me pediram para retirar o filme da competição, o que não fiz. Meu francês era pobre e não entendia muito o que diziam. Finalmente desisti e disse: 'Olhem, mesmo se não entendo uma palavra do que meus colegas estão dizendo, mas porque eu gosto muito deles e admiro seus filmes, também estou tirando meu filme da competição'. Era um absurdo!".

O festival foi interrompido, e os dois viajaram até Paris. "Milos estava na minha casa - diz Carrière. Estamos no 11, 12 de maio e Paris está sublevada. Ia com amigos todas as noites para as barricadas. Milos tentou vir uma ou duas vezes, mas ele não conseguia de jeito nenhum entender o que estava acontecendo. Não parava de me dizer: 'Mas por que vocês se esforçam tanto em hastear a bandeira vermelha, enquanto nós (na Tchecoslováquia comunista) temos tanta dificuldade em derrubá-la? O que vocês têm na cabeça? Não façam isso, nós fizemos e sabemos onde isso nos levou!'"

Passado um tempo, ele disse a Carrière: "Jean-Claude, isso tudo não faz sentido, nós temos de trabalhar, vamos para a Tchecoslováquia, é um paraíso lá agora". Mas a Primavera de Praga, que pretendia "desestalinizar" o país e instituir um "socialismo humano", não durou muito. "Estávamos lá, mas ninguém acreditava que os russos fossem invadir. Jean-Claude era o único, e dizia: 'Jesus Cristo, vamos embora daqui, eu quero voltar para a França, vocês são ingênuos, os russos vão chegar, os russos vão chegar!'. Nós voltamos para a França e, bang: em 20 de agosto os russos chegaram! Nós não conseguíamos trabalhar em lugar nenhum!".

A parte em que Milos Forman conta como soube da invasão russa em Paris é curiosa, mas, como ele mesmo diz, não tão engraçada como a do escritor Milan Kundera. Em suas palavras: "Milan Kundera morava em Brno com sua mulher, a maravilhosa Vera. Mas ele ensinava em Praga, então tinha um studio na cidade. Uma dia por semana ele ia a Praga para dar aula. E ele gosta de mulheres, então a cada semana havia uma jovem com ele lá. O que aconteceu foi que ele estava com uma mulher e, de repente, 'bang, bang, bang' na porta. Ele tapou a boca da jovem, para que ela não fizesse nenhum som, e novamente 'bang, bang, bang'. E, então, uma voz: 'Milan, você está aí? Os russos estão ocupando a Tchecoslováquia!'. E Milan disse: 'Oh, meu Deus, que alívio, pensei que era a minha mulher!'".

Naquele momento, Milos Forman não podia retornar ao seu país natal. Para resgatar sua mulher e seus dois filhos, que haviam permanecido lá, foi organizada uma curiosa expedição. Os fiéis amigos Claude Berri (diretor e produtor de cinema) e Jean-Pierre Rassam (produtor de filmes de Jean-Luc Godard, Marco Ferreri ou Roman Polanski) se dispuseram a fazer a viagem. Mas como o carro que possuíam estava danificado, pegaram emprestado o novo e belo automóvel de François Truffaut. Quando cruzaram a fronteira, encontraram o caos, com os russos transitando de lado a outro. Tentavam seguir as placas que indicavam a direção de Praga, mas acabaram se vendo no mesmo lugar em que estavam uma hora antes. Para confundir os russos e atrasar a invasão, os tchecos trocaram as sinalizações nas estradas. Desesperada, a dupla perdida pediu ajuda a um motorista, que, solícito, disse: "Estou indo para Praga, é só me seguir".

No meio do caminho, Jean-Pierre falou: "Olha, eu tenho de mijar, temos de parar". Claude Berri retrucou: "Não posso parar, senão vou perder o carro da frente e nunca chegaremos em Praga". Mas o amigo estava realmente apertado: "O que você quer que eu faça? Devo mijar no carro?". Berri teve uma idéia: "Não! Abra a janela e mije para fora". Foi o que Jean-Pierre estava fazendo quando, de repente, viram um comboio de soldados russos vindo na direção oposta. Claude Berri gritou: "Jesus Cristo, eles vão pensar que é uma provocação, que você está mijando neles!", e puxou o amigo, que, obviamente, terminou o que estava fazendo dentro no carro. Quando eles voltaram e devolveram o carro, François Truffaut perguntou: 'Mas que cheiro é esse?', conta Milos Forman. "Você vê, havia situações engraçadas", acrescenta.

Para Milos Forman o comunismo é muito similar ao totalitarismo criado pelas grandes corporações no capitalismo, e o grande dilema do homem é o conflito entre o indivíduo e a instituição. Ele explica: "Nós criamos instituições para nos ajudar a viver, para nos servir. Não podemos viver sem elas. Criamos governos, hospitais, escolas, tudo isso. Depois de um tempo, as instituições começam a agir como se fossem donos de você, pedem para você servi-las. Esse é o conflito básico desde o começo da humanidade e penso que os tempos dos totalitarismos nazista, comunista e das grandes corporações no mundo livre está provocando a mesma reação nos jovens: eu sou um indivíduo, por que deveria ser ditado por instituições, as quais estou pagando para me ajudar?"

O diretor de Hair (1979) dá um exemplo bastante singular. Para fazer o filme, solicitou ajuda ao Pentágono para obter os tanques, barracas e soldados de que necessitava. Ajuda negada: o Ministério da Defesa enviou uma carta dizendo que o filme dava uma imagem negativa dos militares. Forman foi à luta e telefonou para o presidente da United Artists, Arthur Krim, que tinha trânsito político no primeiro escalão do governo: "Diga-me, o Exército Americano é uma instituição privada ou do Estado? Eles não querem nos ajudar porque não concordam com a filosofia do filme. Mas eu pago impostos, por meio dos quais pago os militares, e não estou perguntando qual é a filosofia deles". No dia seguinte, o Pentágono autorizou o pedido. "Não sei para quem ele ligou. Mas a situação básica é a mesma: o exército não queria nos ajudar porque não gostaram do que estávamos falando sobre eles no filme, mas em um país livre eles têm de aceitar, o que seria impossível no comunismo, no totalitarismo ou no nazismo".

A frase com que Jean-Claude Carrière abre o filme de Simon Brook é apenas a primeira de um parágrafo, que acabou não sendo inserido na montagem. Diz ele, na seqüência: "Por exemplo, quando nosso novo presidente da República diz que é preciso abolir maio de 68, apagar todos os suvenires de 68, é como se houvesse um tirano insuportável que se chamava 68 e que aterrissou na França em um dado momento para trazer infelicidade. (...) E quando as pessoas de direita, hoje, bravejam contra 68, se esquecem de que 68 colocou a direita no poder e por muito tempo. (...) E talvez, aqueles que hoje , como monsieur Sarkozy, dizem que é preciso acabar com 68, tenham sido colocados no poder por 68, isso não é impossível. Eu só queria fazer essa pequena introdução".

Nem todos que participam do documentário partilham a opinião de Carrière. Histórias ainda haveria muitas a revelar do making of de Générations 68. Quem sabe em uma outra coluna conto por que Peter Brook via maio de 68 como um "grande happening", sem acreditar nas ambições políticas do movimento; quando Václav Havel comprou seu primeiro disco de Lou Reed; por que Wolinski acha que a França vive um declínio artístico e intelectual; ou como, um certo dia, Elvis Presley bateu à porta de Dennis Hopper, para que ele lhe falasse de James Dean, e os dois acabaram discutindo.

Até lá, para ficar no clima, vá assistir ao filme no festival É Tudo Verdade: em São Paulo, dia 28/03, às 23h, no CineSesc; no Rio de Janeiro, dia 03/04, às 22h30, no Unibanco Arteplex.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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