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Terça, 25 de março de 2008, 08h00

Em busca de Eder Sader e Raul Villa

João Carlos Salles

Quando Eder Sader retornou ao Brasil em 1979, após longo exílio, agentes do SNI o cumprimentaram, com ironia ameaçadora: "Como vai, Raul Villa?" Estariam dizendo, mais ou menos, sabemos quem você é, conhecemos sua identidade, seu codinome.

Lembrei-me desse episódio ao proferir a aula inaugural do curso de filosofia da Ordem dos Premonstratenses, tendo sido recebido por Milo, Michel, Francisco e mesmo por um Karol Wojtila. Austríacos ou brasileiros, renascidos e rebatizados nessa ordem agostiniana, fundada há mais de 850 anos por São Norberto. O nome novo, para cada um deles, pareceu-me firmar o compromisso com um novo rumo, um abandono do indivíduo anterior em favor de uma razão coletiva - no caso, uma a meio caminho entre a vida contemplativa e a vida ativa. Revivi com eles a emoção, um tanto pueril, da escolha de um codinome, tendo eu mesmo adotado um dia, quase como um anagrama, um outro nome composto e com o mesmo número de letras de João Carlos.

De qualquer forma, ocultando ou revelando uma identidade, o codinome explicitava um projeto para militantes políticos, uma tentativa solene de escolha de um lugar próprio ou impróprio na história. E, desses percursos singulares, sempre considerei notável o deslocamento de Eder Sader a Raul Villa, mas também, caso raro, seu retorno como Eder Sader, que nos rendeu um extraordinário reencontro com a militância e cuja reflexão produziu um belo livro - livro que, entretanto, ele não pôde ver publicado em 1988, tendo falecido meses antes como mais um hemofílico vitimado pela AIDS. Acompanhar essa trajetória, acredito, é examinar possibilidades significativas da ação política no Brasil, desenhando-se com ela um rico campo de investigação. (Um excelente depoimento de Marco Aurélio Garcia sobre Eder Sader pode ser lido aqui.).

Para escrever o texto "De Raul Villa a Eder Sader", procuro agora velhos companheiros que talvez ainda guardem (ou leiam) textos como o "Para um Balanço da Polop", enquanto revejo parte da literatura sobre movimentos sociais urbanos no Brasil, em meio à qual seu livro "Quando Novos Personagens Entram em Cena" se destaca por um brilho antigo e inovador. Como se em busca de uma identidade perdida, procuro reencontrar o rico olhar do intelectual Eder Sader, capaz de reaprender, após anos fora do Brasil, o sentido da luta popular em nosso país e de procurar novas possibilidades para a ação política. Mas também, é verdade, e não só por mera nostalgia, procuro reler projetos políticos frustrados, como os advindos do talento de um Raul Villa, cuja leitura, em tempos sombrios, tanto nos embebia de força argumentativa e de sonhos.

João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.


Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

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