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Quinta, 27 de março de 2008, 12h31

A manufatura de quadrinhos de Chris Ware

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Quadrinhos  Capa da revista  ACME Novelty Library , série de obras de Chris Ware editadas pela Fantagraphics
Quadrinhos Capa da revista ACME Novelty Library, série de obras de Chris Ware editadas pela Fantagraphics

Claudio Martini

Solidão, desilusão, fracasso, falsas esperanças, frustração, arrependimento. Quem toma contato pela primeira vez com as histórias em quadrinhos do norte-americano Chris Ware, não desconfia que estes sentimentos estejam escondidos em seu desenho de traço limpo com cores sóbrias e nas páginas minuciosa e engenhosamente construídas. Sempre procurando novas experimentações gráficas ou redescobrindo antigas, o trabalho de Ware é único nas HQs.

Há 15 anos começou a aparecer nos Estados Unidos uma coleção de pequenas publicações que traziam as desventuras de estranhos personagens: Jimmy "o garoto mais esperto da Terra" Corrigan, o colecionador Rusty Brown ou Quimby, o Rato. Era a ACME Novelty Library, o nome da série de obras da empresa fictícia de Chris Ware e editadas pela Fantagraphics. ACME é também a mítica companhia que pode fabricar tudo, presente nos desenhos do Papaléguas (fornecendo os delirantes equipamentos para o coiote perseguir o esperto pássaro) e em outras animações do universo Warner.

A publicação começou timidamente como uma revista de pequeno formato com 36 páginas. Nos anos seguintes fomos conhecendo os personagens amargurados de Ware em publicações que não tinham um formato padrão, indo de pequenos livretos até almanaques de quase 50 centímetros de altura. E realmente as edições da ACME Novelty Library lembram os antigos almanaques, com capas com design inspirado em motivos, periódicos, cartazes e anúncios da primeira metade do século XX, com modelos para se recortar e montar, com flip-books e com anúncios fictícios de produtos e serviços improváveis.

As histórias também percorrem e homenageiam diversas tendências gráficas que os quadrinhos e os desenhos animados trilharam durante um século. Só que com histórias amargas, cruéis e desesperadas.

Com um ritmo de até duas revistas ao ano, a ACME chegou ao número 15 em 2001. Nesta época, Ware começou a compilar as histórias em livros, como o premiado Jimmy Corrigan, com quase 400 páginas, e Quimby, the Mouse.

Ele também já participou da revista Raw, de Art Spiegelman; tem criado capas com seu estilo único e inovador para muitos livros, como a coleção Krazy & Ignatz que está sendo publicada pela Fantagraphics, com todas as páginas - ano a ano - do clássico genial de George Herriman, Krazy Kat; e contribui também com a The New Yorker, The New York Times Magazine e outras revistas.

Em 2006, a ACME Novelty Library foi retomada, agora em edição do autor e mais sofisticada: livros de capa dura com relevo, lombada de tecido e aplicações douradas, sempre com referências visuais ao design do início do século passado. E acaba de sair o número 18, trazendo suas Building Stories, que acontecem em um edifício em Chicago.

Chris Ware é a prova que um trabalho original e autoral sempre pode encontrar seu lugar e seu público, como também são exemplos os brasileiros Marcatti e Mutarelli, que com talento e persistência têm hoje um lugar na história das histórias em quadrinhos e o trabalho reconhecido.


Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

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