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Sábado, 29 de março de 2008, 07h54 Atualizada às 02h49

Gilberto Gil e Salvador: Valsa de uma cidade

Claudio Leal/Terra Magazine
Vista da Baía de Todos os Santos, em Salvador, na balaustrada da Praça Municipal, a poucos passos do Elevador Lacerda.
Vista da Baía de Todos os Santos, em Salvador, na balaustrada da Praça Municipal, a poucos passos do Elevador Lacerda.

Claudio Leal

Reitoria da Universidade da Bahia, concerto de peças de John Cage, idos da década de 1960. O pianista americano David Tudor (1926-1996) sintoniza uma emissora de rádio, ao acaso, e tem o retorno do locutor, a derramar-se: "Rá-di-o Ba-hi-a, Cidade do Salvador".

Presente na platéia, e coadjuvante das gargalhadas, o músico Gilberto Gil dá agora as mãos à cidade perdida.

- Comecei a tomar contato com o cotidiano de Salvador a partir de 1951, quando vim fazer o Ginásio. Passei a estar todas as épocas do ano, do Natal ao período escolar. A movimentação dos ônibus e bondes, os ônibus ainda poucos - lembra em 16 de março de 2006.

Nascido na capital, em 1942, Gil viveu a primeira infância em Ituaçu, onde morava o pai, José Gil Moreira. Mas gozava os verões em Salvador, entre banhos de mar em Itapagipe e sorvetes na Cubana.

Sua música "Tradição" é um instantâneo daquela época: os pára-quedistas dos bondes, o ponto dos Quinze Mistérios, a calça americana comprada no contrabando. No tempo que Lessa era goleiro do Bahia.

- Fato geográfico relevante: vim morar no Santo Antônio, que pode ser considerado um bairro de corte epistemológico, que é tudo, para onde converge a cidade. Encontrávamos os árabes, os galegos (espanhóis), os negros de classe média. Bairro profundamente marcado pela Igreja Católica.

A casa da família ficava a vinte passos do oratório da Cruz do Paschoal e havia toda a fauna de "sapateiros, barbeiros, espanhóis donos de armazéns".

- Os hábitos infantis, bolas de gude, bolas de meia, o empinar arraia, (canta) "afrouxa quem tem coragem/ deixa de galinhagem", que era o canto provocativo. Rabos de arraias, entremeados de algodão. Era essa a minha Salvador.

Programa de sábado na Cidade da Bahia, início dos anos 1960: ler, no Diário de Notícias, a coluna Rosa-dos-Ventos, de Odorico Tavares, e as "opalas magas" do colunista social Sylvio Lamenha; beber o Xixi de Anjo, de José Pedreira; ir à matinê do Guarany; comprar jornal na Banca de Careca; torcer o nariz para o governador Juracy Magalhães; ouvir Ângela Maria num "brega" do Centro; ir ao teatro, viajar para as dunas do Abaeté.

E afastar do corpo os lacerdinhas - praga que infestava as árvores, singela homenagem ao demolidor Carlos Lacerda. O bichinho motivou, aliás, uma marcha de Everaldo Guedes, das primeiras canções gravadas por Gil nos estúdios de Jorge Santos, em 1961: "Coça, coça, coça/ Ai, que coceirinha!/A coceira é gostosa /Quando morde o lacerdinha".

Lacerdinha é bom que dói.

TROPICÁLIAS

Essas imagens primitivas da Bahia fundamentaram algumas de suas músicas mais conhecidas, da indolência do missivista de "Ladeira da Preguiça" ao ambiente paroquial e trágico de "Domingo no Parque".

Em 1963, na Rua Chile, já estudante de Administração, teve o primeiro encontro com Caetano Veloso, que lhe foi apresentado pelo produtor Roberto Santana. Além da música, o cinema os uniria. Freqüentavam o Jandaia (o "gigante da Baixa dos Sapateiros"), Aliança, Pax, Excelsior, Popular, Glória, Tupi, Capri e, vez em quando, o Oceania.

- Na fase adolescente, universitária, quando encontro Caetano, aí são os autores da Nouvelle Vague francesa, dos Cahiers du Cinéma, e os italianos, quem nos influenciam: Fellini, Visconti, etc. E a variedade americana, de Hitchcock a John Ford.

Daquele encontro, começaria a se formar um dos núcleos do Tropicalismo. Lembrete: Torquato Neto também estudou na Bahia vanguardeira; e no mesmo colégio de Gilberto Gil, os Maristas, no bairro do Canela.

Gil tinha projeção maior do que Caetano. Desde 1962, apresentava-se no programa de Jorge Santos, na TV Itapoan (dos Diários Associados), e fazia jingles para casas comerciais. No ano do golpe militar, 1964, se reuniram no show "Nós, por exemplo", dentro da linha bossanovista, mas sem dar muchochos para o cancioneiro que levara João Gilberto a "Chega de Saudade". Valia a modinha "De papo pro á", de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano.

- O Teatro Vila Velha seria inaugurado e o grupo dos Novos já tinha conhecimento, através do Caetano, da existência de Bethânia, Gal, de mim, Fernando Lona, Tom Zé, etc. e propôs que nos juntássemos para fazer um espetáculo de música popular.

De menino Gil era domado pela música.

- A intenção de ser músico eu tenho desde os dois anos. Eu já tinha dois anos quando minha mãe me perguntou: "Meu filho, o que você vai ser?". Eu disse: "Vou ser musgueiro". (risos) Quando fiz dez anos, ela então disse: vá ser musgueiro, tome aqui um acordeom, vá para a escola estudar música. Ela me deu um acordeom aos dez e um violão aos 17.

No final dos anos 50, a Cidade Baixa conhece o "roquinrol" suburbano de Raul Seixas, Waldir Serrão (o "Big Ben") e companhia ilimitada. Mas os dois grupos, bossa-novistas e elvistas, se guardavam distância.

- Só vim a conhecer Raul, pessoalmente, depois do Tropicalismo (movimento de 1968), quando nos identificamos.

Ao sair da prisão política, em fevereiro de 1969, Gilberto Gil retorna a Salvador (saíra quatro anos antes, como funcionário da Gessy Lever), onde ficaria confinado até seguir para o exílio em Londres. Em julho, ele e Caetano realizam dois shows de despedida, no Teatro Castro Alves.

Perto de partir, visita no bairro da Graça o apartamento de Raulzito. Era o encontro do Cine Roma, templo do rock, com o Vila Velha, reduto da Bossa Nova e do "oxalá, oxum dendê oxóssi de não sei o quê", como ironizaria Raul num rock autobiográfico.

O roqueiro pôs na vitrola um disco do quarteto americano Vanilla Fudge, criado em 1967 e desfeito em 1970. "Conheci a partir dele e me tornei fã". A separação juvenil não parece, hoje, incompreensível, já que houve, adiante, uma convergência estética?

- Quando encontrei Raul, o Tropicalismo já tinha manifestado o interesse pelo rock. Foi uma transição do interesse específico na música brasileira para um interesse mais universalizante. Então, o Tropicalismo levou, tanto a mim quanto a Caetano, a Raul; porque ele fazia um trabalho audaz, de diversidade cultural e pluralismo estético.

SUTILEZAS

Confrontada a cidade de 40 anos atrás com a Salvador de hoje, pontuada pela passividade dos artistas e o clima de "nada acontece", Gilberto Gil empurra os lábios contra os dentes e balança a cabeça, como se tivesse sacado.

- "Rompeu-se a guia de todos os santos/ foi Bahia pra todos os cantos", eu digo numa música que é um pouco esse esparramamento que tem a cidade do Salvador, a Cidade da Bahia, como antigamente dizíamos. Quando tem o Bono Vox querendo ver o Carnaval da Bahia, isso é um cosmopolitismo. Mas você talvez queira me dizer que permanece um ar provinciano, que Salvador sempre teve e sempre terá e conseguiu equilibrar muito bem com um certo cosmopolitismo, que tinha seu peso na atmosfera cultural, social e eu diria mesmo econômica, com a vinda da Petrobrás.

E complementa, reconhecendo traços característicos da cultura soteropolitana, projetados no tempo:

- Os ares da Bahia estão sempre impregnados desta relação, esse diálogo sutil entre provincianismo e cosmopolitismo. Quando você fala de um certo marasmo, de um mormaço, isto é resíduo, uma persistência do provincianismo. Ao lado disso, há o dinamismo da máquina mercante, de que falava Gregório de Mattos.

Sem referir-se ao segregacionismo do Carnaval, mas, indiretamente, reconhecendo-o, define as contradições da Cidade da Bahia, 459 anos de tretas, janelas decadentes, anjos barrocos e maledicências:

- É o fundamento do Brasil, em todos os sentidos: o atraso brasileiro você encontra aqui e o avanço brasileiro está presente, antes de tudo, aqui.

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