
Paulo Scott
Quando se trata da indústria de entretenimento, enfocando as experiências deste novo milênio, parece não haver êxito maior que o das investidas dos videogames. O cinema tem apelado sem pudor para os ícones da Marvel e da DC Comics, repetindo o ritmo estonteante dos jogos que dominam os playstations, os nintendos, os xbox espalhados mundo afora.
Não há dúvida de que, nestes tempos de interatividade, os videogames assumiram definitivamente a dianteira, alicerçando uma pretensão que vem chegando aos poucos ao bom e velho mundo do teatro. Não é de pasmar, pois a co-participação do espectador já acontecia na idade média e mesmo antes disso. A novidade está no fato das novas companhias teatrais quererem recriar atmosfera idêntica a dos videogames, sustentando que nisso está o seu mais recente caminho (original) de renovação.
Na semana passada, li a declaração que o jovem Diretor da Companhia de Teatro Zen Zen Zo de Brisbane (Austrália), Simon Woods, deu ao jornal The Australian, quando anunciou a estréia do espetáculo "Sub Con Warriors 1": disse que a platéia entraria num jogo e se tornaria parte essencial dele.
A pergunta que me faço é até onde a interatividade fragiliza a narrativa, tira a responsabilidade de quem argumenta - claro, se tal proposta como a do Zen Zen Zo for levada às últimas conseqüências - e, por isso, até que ponto a experiência se manteria como peça de dramaturgia (ou mesmo espetáculo). Apenas para registro: aqui no Brasil, grupos como o Falos & Stercus já praticam essa espécie de interação há tempos.
Imaginei um game inspirado no livro "Cabeça de porco" (Objetiva, 2005) e, por conseqüência, uma peça na qual uma platéia, de número reduzido, é forçada a assumir as ações de um MV Bill, de um Celso Athayde ou de um Luiz Eduardo Soares. Alternativas emocionantes tiradas da realidade brasileira é que não faltariam: no palco, um presídio, um dia no Congresso Nacional, negociatas da Administração Pública Indireta.
Simon Woods garante que esse é o próximo passo inevitável do teatro. Sua peça parte das possibilidades de confronto (de narrativa) quando um jogo de computador sai do controle.
Parece atitude de conservador, mas tenho dúvida quanto à integridade da peça, do compromisso de se ter como manifestação artística (autoral) se se admitir que os assistentes ajam e mudem o roteiro. Não seria isso a radicalidade apregoada?
Ando mais atento ao mundo teatral porque estou envolvido com uma peça que já está me levando a saúde.
Um escritor amigo meu diz que hoje em dia tudo é oficina, ação, ação, ação. Ainda assim, alguns se perguntarão: videogame?!, então, para que sair de casa?
Terra Magazine