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Terça, 1 de abril de 2008, 07h58

Apresentação de A Forma Improvável

João Carlos Salles

Se abril é o mais cruel dos meses, melhor quando ele chega é ficar passando a chuva em um lugar bem protegido. Escolho assim passar este mês em companhia de um texto antigo, um texto de cerca de 15 anos atrás, aqui apresentado em partes. Trata-se de "A Forma Improvável", um comentário ao poema de Drummond "Campo de Flores", em lembrança de meu amigo Albérico Motta.

Quem desejar ouvir o poema recitado por Paulo Autran, pode clicar aqui, apesar de as imagens não terem relação com o poema:
http://www.youtube.com/watch?v=zphdWdmag1I&feature=related

O texto de "Campo de Flores" pode ser conferido aqui, sem que concordemos com todos os comentários que acompanham o poema:
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/poesias/carlosdrummond_campodeflores.htm

A Forma Improvável (parte 1)

Só amo as coisas
que não têm forma.
Cassiano Ricardo

Tempo e amor nunca são indiferentes. E talvez resida na expressão de seu comprometimento mútuo a força de "Campo de Flores". Em todo caso, esse poema maduro de um Carlos Drummond de Andrade já senhor absoluto de seus recursos, com sua eloqüência ática, sua fria energia concentrada, com sua quase alegria, nos aquece e assusta.

Devemos pois mostrar por que nos comove tanto um poema cujo significado poderia restringir-se a uma mensagem cifrada do poeta envelhecido a uma amante improvável. Isto é, mostrar como o poema universaliza o que talvez seja mero segredo biográfico, mas passa a medir, ao encontrar sua adequada expressão, outras existências.

Todo seu segredo deve ter lugar bastante dentro do poema, e em nada podem satisfazer-nos revelações anedóticas. Assim, muitas outras questões, e de natureza diversa, nos desafiam: Qual o significado, em "Campo de Flores", dos muitos recursos relativos à repetição, da anadiplose à aparente recorrência de uma mesma proposição: "Tenho um amor maduro"? Como um poema sobre uma doação integral manifesta uma interdição progressiva? Ou melhor, com que recursos expressivos, seja como dádiva, seja como destino, gratuito ou justo, o poeta dá conta da tarefa de fazer o amor distender a existência (sou e não sou, mas sou)?

Tentaremos responder a questões como essas, levando a sério, em metódica demasia, o lugar-comum de que cada poeta cria seu próprio universo. Mas, se o significado das expressões esclarece-se por seu uso, onde estaria a história das palavras do poema, qual o lugar de seu uso senão os poemas outros do autor e, de preferência, os oriundos do mesmo fluxo poético?

Por isso mesmo, devemos buscar em Claro Enigma (mais diretamente, em "Notícias Amorosas" e, sobretudo, em "Campo de Flores") os elementos que podem universalizar seu valor estético, evitando pois desvendar a mensagem oculta ou manifesta em "Campo de Flores" pelo recurso a acidentes supostos da vida do poeta - como o fato de já ser avô o funcionário público autor de Claro Enigma ou a possibilidade de essas "Notícias Amorosas" aludirem a uma amante muito mais jovem, para quem aliás teria também escrito poemas não muito pudicos e, há pouco, espoliados por um mercado editorial algo tendente ao grotesco.

Interroguemos pois o poema. E como ler poesia é quase sempre uma forma atenuada de carícia, tentemos acariciá-lo, tocar seus detalhes, fazendo depender nossas considerações do que apenas nele se mostra:

Forma
forma
forma

que se esquiva
por isso mesmo viva
no morto que a procura

a cor não pousa
nem a densidade habita
nessa que antes de ser

deixou de ser não será
mas é

forma
festa
fonte
flama
filme

e não encontrar-te é nenhum desgosto
pois abarrotas o largo armazém do factível
onde a realidade é maior do que a realidade

("Isso é Aquilo")

João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.


Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

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