
José Cláudio
Transcrição de uma carta entusiástica que escrevi a Léo, Mané e Maria (minha mulher e filhos):
"Manaus, 24 de outubro de 1975
Léo, Mané, Maria:
Ontem já dormimos no barco. Ele tem 18x4 metros. As redes ficam se cruzando na popa. Somos cinco: Vanzolini, Chica, um zoólogo americano e sua mulher (o nome dele é Ronald, lida com sapos) e eu, além da tripulação composta do mestre Filomeno, cozinheiro Valter, maquinista João e taifeiro Alonso. Achei Manaus uma cidade fantástica e o rio não dá impressão de rio. Vi do avião a divisa das águas do Negro e o Solimões. Hoje fui ao mercado ajudar a carregar as compras. A parte de peixes me maravilhou. Ontem no barco jantamos sopa de tucunaré. Eu comi uma cabeça, Vanzolini a outra. Hoje vi bandas e mais bandas de tambaqui e mantas de pirarucu e todo mundo na rua com fieira de matrinchão, que parece com curimã. Hoje de manhã o mestre subiu do porão com um tracajá, uma tartaruga proibida, mas infelizmente não me mostrou: só vi quando passou o saco por cima do nosso rebocador (pois o barco não tem motor e quem puxa ele é um rebocadorzinho). O porto onde estamos é um lugar fantástico. O cais é um sistema de dobradiças gigantescas que sobem e descem ao sabor do rio, flutua, em vez de cais fixo. O espaço no barco tem de ser dosado cientificamente. O nome deste barco é GARBE e o do rebocador é LINDOLPHO R. GUIMARÃES. Comprei uma bandeira do Amazonas. A capitania ainda não deu licença pra a saída do barco. Talvez saiamos ainda hoje. Abraços."
Depois ainda na carta acrescentei: "Travei conhecimento com o tacacá. Conheci de vista nestante. Mais tarde vou tomar cuínha, perto do Hotel Amazonas."
O peixe mais incrível que eu já vi na vida foi o cuiúcuiú. Hoje de manhã comprei, descasquei e comi um grande ananá com farinha de paneiro. Provei vários guaranás de fábricas daqui e achei todos ótimos: "Tuchaua", "Real", "Magistral", "Baré", "Regente", "Andrade". Um rapaz que veio encher os extintores, muito risonho, os dentes grandes, perfeitos e brilhantes, meio índio meio negro, disse que o tracajá só dá no fundo do rio, e que é bom pescar com um barco a motor fazendo voltas em torno de um poço fundo. São ligeiros n'água. Ficam zonzos e sobem. Filomeno disse que pegava de espera fisgando-os quando subiam para comer uma fruta, o caimbé. O outro rapaz disse o nome da fisga, que não é fisga, é uma ponta sem barbela e segura por pressão contra o casco do bicho, sonoro e ritmado como a maioria dos nomes indígenas: tapuá.
O lugar mais bacana para se ver o crepúsculo no rio é o mictório do Mercado Municipal.
Ontem o mestre falou das espécies de embarcação: tem o empurrador, o rebocador, a lancha, a alvarenga ou pontão ou balsa, o motor de recreio ou barco de passageiro ou motor de linha. A alvarenga não tem coberta mas alguns chamam a um barco como este, o GARBE, de alvarenga, simplesmente porque não tem motor.
A comida predileta de Filomeno é marreco.
Hoje o cozinheiro substituto fez três matrinchãs, que ontem escrevi matrinchão como diz o mestre Filomeno. Mas Vanzolini disse que o nome é matrinchã. Três matrinchãs ao forno. A parte do rabo tem espinha que não é brincadeira. Eu fui me meter a comer à japonesa, mastigando tudo, e quase me engasguei. O gênero é Brycon.
O prato predileto do taifeiro Alonso é feijoada. A fruta, melancia.
Como tem muitos barcos atracados no rodo (ró) uns atrcam nos outros. Para chegarmos ao GARBE passamos por dentro da lancha do governador e por sobre a capota do nosso rebocador. Em cima da capota tem um galinheiro, jaula de madeira para dez galinhas ou patos que vamos levar. Vanzolini preveniu Chica para comprar milho. Ontem comprei o tal mosquiteiro de rede. Tem de três tipos. A mulher quis saber se onde moro tem pium, porque o de filó é bom para carapanã mas deixa passar o pium. A dormida no rodo de Manaus é ótima. Não tem muriçoca e sobe do rio um arzinho refrigerado. O barco balança suavemente e nos embala na rede. As redes rangem, uma mais fino, outra mais grosso, e nos vai ninando mesmo depois de a gente pegar no sono.
Pintei meus primeiros quadros amazônicos, aqui do porto. Os títulos são "Rodo" e "Garbe", que escrevi de trás da tela. Mas como poderão ser reentelados vou escrever na frente. Aqui vai a descrição: um pega umas alvarengas estacionadas, tem no canto, ou melhor do lado esquerdo, de quem vai, um pedaço do casco de um navio, que é o ARARUAMA. Vanzolini disse que o nosso primeiro navio tropedeado na última guerra tinha esse nome. O outro quadro tem no primeiro plano duas rodas salva-vidas laranja-vermelho com os nomes GARBE-BELÉM-PARÁ. Ao fundo, vista parcial do Araruama.
Chupei uns manguitos muito doces.
A rede de Vanolini estava fazendo um rangido como um canto de araponga bem longe. Eu pensei até que ele estivesse compondo.
"Domingo no Negro", disse Vanzolini quando o barco parou defronte de Manaus bem no centro do rio aonde fomos para abstecer de água. Chica e a americana, depois o americano e eu, caímos n'água. Vanzolini disse que tinha esquecido o calção. O mestre Filomeno tirou escada que desce pro porão e amarrou na varanda do barco para a gente subir. Eu nunca sei direito se sei nadar ou não, de modo que em vez de pular de cima feito os outros, esperei que botasse a escada e fiquei segurando nela até perder o medo e me soltar. A americana disse "nice" e não sei o que "like a bath". Pintei da ponta do cais um quadro olhando para São Raimundo. Às onze e meia mais ou menos lavei os pincéis e fui fazer turismo, conhecer uma praia, Ponta Negra, onde almocei um peixe gordo e gostoso mais largo que uma carapeba: carauaçu. O melhor jeito de comer peixe amazônico é com farinha seca, essa grossa de paneiro, com pimenta murupi, uma compridinha, duas vezes e meia maior que a malagueta, cor amarelo-limão. Lindas morenas com cara de índia, algumas com o cabelo bem preto batendo na popa da bunda. Sobremesa pupunha. Trouxe uma que dei à americana e ela pediu informações a Vanzolini, porque meu inglês não era suficiente, que descascou a dita pupunha e deu a ela para comer. De volta de Ponta Negra fui ver o Teatro Amazonas. Gostei muito da cúpula como um peixe com as cores de papagaio, ou camaleão, as escamas brilhando ao sol, sem medo de usar todas as cores a cru. E cada vez gosto mais do prédio da Alfândega, que pintei no fim da tarde entre os violetas e laranjas do céu de Manaus. Acho essa arquitetura espontânea e um tanto vale-tudo de Manaus muito original, muito com coragem de ser alguma cisa por conta própria. Ontem Cica fez trinta anos e Vanzolini nos levou a um restaurante. Comi filé de pirarucu na brasa. Delícia. A americana estava "sick" do estômago. Queria ver mesmo praia de rio porque nunca acreditava que pudesse ser praia de verdade embora sendo do rio Amazonas. Mas é de areia fina feito praia e dando ilusão de mar. Parecia até a da frente da minha casa em Pernambuco. Aliás da casa onde moro, que o brasileiro da minha classe não tem direito a ter casa. Domingo na Ponta Negra.
Perguntei à moça da farmácia se ia às praias. Ela disse que ia às vezes a Ponta Negra ou Tarumã, mas preferia os banhos. Os banhos são pequenas represas de madeira feitas nos igarapés de fundo de areia. Geralmente particulares, existem alguns públicos como o "Parque 10", "Ponte da Bolívia" e "Tarumãzinho". Porque - disse ela - nas praias essa época tem um bichinho que a gente acaba de tomar banho ele fica e coça, a gente passa a unha e fica a marca, ele cobre a pele com uma camada mais escura: o cauixi. Vanzolini disse que o cauixi mesmo é uma esponja e larga esses ovinhos que grudam na pele. Os índios usavam para temperar a cerâmica, é o antiplástico, que é sempre sílica, mas usavam também a cinza da casca de um pau, o caripé.
Este diário foi também publicado pelo suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco.
Terra Magazine