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Sexta, 4 de abril de 2008, 07h56

Ato falho, Havana e aquário

Antonio Risério

Não tem jeito: a expressão "ato falho" ganhou mesmo outro sentido. O governador Sérgio Cabral, falando na abertura das obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, tratou a ministra Dilma Roussef de "presidente". Nota do Estadão: "Após o ato falho, a ministra fechou o semblante". É uma delícia de frase. Mas... que "ato falho"? Nenhum. Na troca verbal, o que o governador carioca cometeu foi um típico e clássico lapso de linguagem, geralmente designado em latim, "lapsus linguae". Que é a face sonora, se assim podemos dizer, do "lapsus calami", lapso de escrita ("calami" vem de cálamo, antiga ferramenta gráfica feita de junco, com que, em época já remota, inscreviam-se signos na superfície lisa de papiros e pergaminhos - velhos tempos da quirografia).

Mas um amigo me diz que a expressão "ato falho" já aparece até em dicionário com o sentido de "lapsus linguae". Como aprendi as duas expressões na adolescência, quando li "Psicopatologia da Vida Cotidiana", do velho Freud, fico sem saber o que dizer. No fundo, para Freud, tanto o ato falho quanto o lapso lingüístico revelariam, "acidentalmente", coisas recalcadas, que, em condições normais de temperatura e pressão, a pessoa preferiria encobrir ou disfarçar. Mas o lapso de linguagem se dava, obviamente, no plano do signo, da palavra; o ato falho, diversamente, no plano físico, na dimensão do gesto.

"Ato falho", por exemplo, é esquecer a bolsa na mesa do bar de um hotel onde se hospeda uma pessoa que estamos paquerando. Deixar a bolsa pode então significar, para as pessoas psicanaliticamente dependentes (existem, sim, assim como existem os quimicamente dependentes) e outros de vida mental mais saudável, o desejo de ficar, de permanecer ali, ao lado da pessoa que se deseja. Coisa que, aliás, as cubanas poderão começar a fazer a partir deste mês de abril. Naquele que é, aliás, depois da liberação de orixás, o primeiro grande avanço democrático na ilha, depois que Fidel caiu da história para se aposentar na vida.

Vai ser bom pra todo mundo, claro. Para os cubanos, que reclamavam, pelos mais variados motivos, de políticos a sexuais, do "apartheid" turístico. E para os turistas. Meu amigo XYZ (no names, please), por exemplo, já não vai precisar mais, em suas viagens à ilha, da "cumplicidade" de algum funcionário do setor de segurança, comprada por uns bons 40 dólares, para levar deliciosas gatas "habaneras", na calada da noite, para o seu quarto no Hotel Nacional. Gatas que, aliás, estarão brevemente dispondo de celulares e e-mail (por falar nisso, para quem não sabe, assim como, no Brasil, usa-se "xxx.com.br", na ilha a abreviatura é "xxx.com.cu").

Cuba vai ficar cada vez mais parecida com a Bahia (foi Antonio Carlos Magalhães, de resto, que, em sua fase de ministro das Comunicações, escolhido por Tancredo e mantido por Sarney, fez a conexão telefônica entre Cuba e o Brasil; ele e Fidel, pessoalmente, se davam muitíssimo bem - e só podiam mesmo se entender às maravilhas: um era o dono de Cuba; o outro, dono da Bahia). Cubanos, como se sabe, também acreditam em Iemanjá e Xangô. E empregam, corriqueiramente, expressões como "bajar el santo".

Mas voltemos ao nosso troca-troca verbal. Tem um que eu acho maravilhoso - e, quem sabe, algum erudito, que realmente conheça a língua e sua história, possa me esclarecer como veio a acontecer. Refiro-me à dupla "aquário" e "piscina". É intrigante. Com a palavra "aquário", designamos pequenos viveiros de peixes. Com "piscina", aquele tanque geralmente azulejado em que as pessoas praticam diversos esportes aquáticos, entre saltos ornamentais e encoxações eróticas. Acontece que tudo indica que as denominações foram um dia trocadas. Pensem bem nessas palavras: "aquário" - "piscina".

Aquário é ou deveria ser, pura e simplesmente, reservatório de água. E piscina vem de "piscis" - peixe, em latim. Piscina é viveiro de peixes. Ou seja: o que chamamos de aquário seria, na verdade, uma piscina - e o que chamamos de piscina é certamente um aquário. Como se explica isso? A poesia talvez ajude. Em sua composição "Baby", obra-prima da poemúsica brasileira, Caetano canta: "você precisa saber da piscina, de Amaralina, da gasolina...". Concluo então, facilmente, que, entre a piscina e a praia de Amaralina, o poeta desejou que a gata em questão se resolvesse a ser uma sereia. Para se deixar levar pelo seu canto. O que quer a gasolina no cenário? Sei lá. Talvez ela esteja ali porque, na época, o poeta morava em São Paulo. Paulista é quem sabe desse negócio de carro, gasolina e trânsito.


Antonio Risério é poeta e antropólogo.

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