
Paulo Scott
De Porto Alegre
Guardadas as devidas proporções, o Kindle - aparelho lançado pela Amazon há quatro meses e que serve de suporte para leitura de livros, revistas e jornais eletrônicos - foi, e segue, tão badalado quanto os iPod's (e os seus genéricos) nos seus bem-sucedidos primórdios. Nunca um leitor de livros eletrônicos fez tanto sucesso.
O design não é lá essa coisa, mas a possibilidade de baixar em menos de um minuto qualquer um dos milhares de títulos oferecidos pela Amazon, sem precisar de fios (o nome do sistema é Whispernet - lúdico, não?) ou sequer de um computador, e ainda por cima por um preço razoável (definitivamente menor do que o cobrado pela versão impressa) é deveras tentador. Há também o fato do aparelho ser extremamente leve.
Um amigo (daqueles ortodoxos quando se trata da manutenção do fetiche de consumo do livro impresso e que atualmente está morando nos Estados Unidos) me enviou uma mensagem dizendo que jamais pensou que leria um e-book, mas que pegou um Kindle emprestado e adorou a ponto de comprar o seu próprio.
O fato é que, neste exato momento, não há Kindle em estoque, foram todos vendidos; se você quiser um terá de entrar na fila.
Sei lá o que pensar.
Tenho sete estantes de aço cheias de livros. Nunca leio apenas um livro (meu mínimo são três na mesma época, sem contar os técnicos da minha rotina profissional, dos quais feliz ou infelizmente não consigo escapar). Sofro cada vez mais com o peso dos livros (certamente desenharão um suporte, tipo coluna, para o brinquedinho), não é desprezível o estrago que o excesso de carga suportado por horas de leitura vêm causando, paulatinamente, em minha cervical. Ademais, incomoda-me o desperdício de papel (o Kindle suporta mais de 200 livros).
Acho razoável que o consumidor médio pretenda ter um - embora o preço, US$ 399, ainda esteja salgado -, noto que minha geração aos poucos vem se irritando com a inflação de páginas e folhas; quem está no meio acadêmico sabe do que estou falando.
Dizem que o resultado na tela é igual ao do papel. Com sinceridade, é só isso que me importa; o resto são acertos de design que podem ficar para a segunda geração (não tenho inclinação para cobaia).
Não há dúvida de que o leitor brasileiro precisará dominar o inglês, e isso será sempre um problema se a intenção for constituir um mercado nacional. Nos Estados Unidos, desde o lançamento do Kindle, o consumo de e-books dobrou; não que isso seja grande coisa - lá, o consumo por esse meio digital ainda representa menos de 1% de um mercado que movimento cerca de US$ 35 bilhões em negócios ao ano.
Parece que estamos testemunhando o passo seguinte ao Sony Reader. Não há mero incremento de aparelho, há um novo serviço sendo oferecido. Parece que o próximo passo deverá ser das editoras. É pouco?
Em matéria assinada por Steven Levy e publicada na revista Newsweek, ano passado, tocou-se na possibilidade do autor repassar diretamente aos Kindles as correções de textos (as modificações e aperfeiçoamentos que alguns obcecados sempre querem fazer); sendo autor de livro sei que isso não seria mau - no campo da poesia, nem se fala: tentação do escritor a qual leitor algum resistiria (já é assim nos blogs).
Nessa história toda o que me fascina é a força dessa cultura do texto no papel (vejam o estrago que o MP3 fez na indústria musical). Há um peso (não meramente físico), uma harmonia de encontro que parece se ostenta apenas na celulose. Sei que estou me iludindo e que tudo não é mais do que uma questão de acertar o formato (parece que o destino do mundo é o celular, não?).
Arrisco dizer que, por ora, o problema está, primeiro, nas baterias que, apesar da grande autonomia (30 horas), sempre podem deixar o leitor na mão e, em segundo lugar, literalmente, nas própria mãos: ler é uma forma de se aquietar (de entreter nosso par de meninas nervosas; claro, podem ser rapazes). Acho que foi o poeta Fabrício Carpinejar que escreveu "o tato é o escudeiro dos olhos".
Então, no futuro, seriam os botões, mas depois, sempre lá, a história, que invariavelmente precisa ser boa e custar um preço menor.
Terra Magazine