Terra Magazine

 

Segunda, 7 de abril de 2008, 08h39

Camille lança seu "buraco musical"

Fernando Eichenberg
De Paris

"Logo agora que estávamos nas perguntas sobre sexo!", disse Camille ao manager da Virgin/EMI Music que adentrou repentinamente na sala, deixando-o nitidamente enrubescido e constrangido, sem saber se era uma brincadeira ou se sua intrusão realmente atrapalhava. Ele queria apenas avisar que o tempo da entrevista chegara ao fim, mas ficou sem palavras, até finalmente se dar conta de que se tratava de mais uma improvisação bem-humorada da artista da casa. Camille é assim, imprevisível em situações do cotidiano, mas também na sua música. Depois do estrondoso sucesso do original álbum Le Fil (2005), com mais de 500 mil cópias vendidas, havia a dúvida se poderia novamente surpreender o público com seu novo trabalho. Mas ela surpreende. E positivamente. Music Hole, com lançamento na França nesta segunda-feira, 7, é uma pérola lapidada por essa inclassificável artista de universo musical singular, criado a partir de sua voz e de seu corpo.

A crítica costuma etiquetá-la de "Björk à la française", mas, embora possua certas familiaridades musicais com a célebre islandesa, Camille já é uma artista de nome próprio. O novo cd confirma. Produzido em parceria com o britânico Matthew Ker, artisticamente conhecido como MaJiker, Music Hole conta com a colaboração de Sly Johnson (de Saïan Supa Crew), de Jamie Cullum e dos brasileiros Marcelo Pretto e Fernando Barba, do Barbatuques. Camille prossegue suas experiências vocais, misturando body percussion, sub bass e sons "tribais" e "orgânicos", instrumentados em melodias variadas, do music-hall à chanson, passando pelo rythm' blues e outras invenções próprias a sua trilha pessoal, bastante única na música francesa atual.

A sonora Camille, 30 anos, chegou atrasada em uma hora para a entrevista, marcada para às 10h. Não por ter ignorado o despertador ou por causa do trânsito. Matinal, tinha um outro compromisso antes, para a discussão de um novo projeto, que acabou se alongando. Às vésperas de debutar a turnê européia de Music Hole, com datas de ingressos já esgotados, falou com entusiasmo do novo disco e de sua música. Quando lançou Le Fil, a crítica anunciou: "Esse disco não se assemelha a nada do que se faz na França hoje". A assertiva continua valendo para o curioso e inventivo trabalho de Camille Dalmais.

Terra Magazine - Você já esteve no Brasil duas vezes, uma como integrante do grupo Nouvelle Vague e, outra, para apresentar o trabalho de Le Fil. Como você foi recebida pelo público brasileiro?
Camille Dalmais -
Fui a primeira vez com o Nouvelle Vague, no Rio. Depois fui com o meu projeto, Le Fil, a Recife, São Paulo e Rio. Em Recife foi estranho, porque era um festival de hard-rock. Era uma grande sala, com bastante eco. Achei que ninguém se interessaria por mim, mas depois tive testemunhos de jovens que ficaram muito emocionados. As pessoas no Brasil têm uma maneira muito calorosa de exprimir suas emoções. Já em São Paulo o show foi numa pequena sala. Foi muito simpático. Os Barbatuques estavam lá. No Rio foi num pequeno club, e o público fumava muito. Disse para pararem de fumar, mas ninguém me entendeu, continuaram. O engraçado é que no Brasil as pessoas falam durante todo o tempo durante os shows. É preciso se habituar. Se sente que não é algo de má fé, mas eles falam, falam, falam. É incrível. Senti que era um país como um cavalo à galope, um garanhão, há algo de indomável, uma energia, e me perguntava: "Como fazer para governar esse país tão mestiço e tão jovem?".

Você encontrou Marcelo Pretto e Fernando Barba, do Barbatuques, que participam em praticamente todas as canções de Music Hole, em 2006, em Paris. Como foi?
O Marcelo fez um show com os Barbatuques em Boulogne, e encontrei o grupo todo depois. Convidei-o para fazer a primeira parte do meu show, no final da minha turnê na França. Encorajei-o a fazer uma apresentação solo. Eu me apresentava em trio no palco, e queria que a primeira parte fosse ainda mais minimal. E achava que ele tinha recursos suficientes, musicalmente, pelo seu carisma, sua presença, para sustentar um show de vinte minutos sozinho. No começo ele estava reticente, mas foi genial. Depois, quando fui a São Paulo, tive a oportunidade conhecer melhor os Barbatuques, fui num ensaio, e tinha muita vontade de fazer algo com eles. Para o disco, como eles são 14 músicos, não foi possível para o orçamento trabalhar com todos. Infelizmente, deu para trazer somente Marcelo e Barba à Paris. Há percussões corporais em quase todas as músicas. Marcelo fez efeitos de voz também.

Você pretende voltar a se apresentar no Brasil?
Gostaria de retornar para uma turnê mais densa e construtiva, fazer mais shows, visitar mais o país, conhecer mais pessoas. É um pouco frustrante. Nós passamos muito tempo no avião, a Varig estava em falência, esperávamos horas nos aeroportos, foi um pouco difícil. Na próxima vez, gostaria de fazer mais encontros artísticos, pois é um país extremamente rico musicalmente, é um continente inteiro.

Você sempre achou a música anglo-saxã e brasileira mais festiva e sensual do que a canção francesa, que considerava austera. Você aprecia os Barbatuques, mas também Astrud Gilberto...
A música brasileira é algo vasto. A primeira coisa que ouvi foi Antônio Carlos Jobim, a bossa nova. É engraçado, porque eu adoro Chopin, e ele dizia que havia desacelerado um ritmo brasileiro e colocado em cima harmonias de Chopin. É um cruzamento de caminhos. E é algo muito sensual. O Brasil é um país muito forte vocalmente. Há músicos que sabem cantar muito suavemente, sem fazer "murmúrio falado", como se faz na França. O murmúrio brasileiro é cantado, com timbres incríveis. E ao mesmo tempo há cantores de uma voz muito ampla. É muito variado. E todas as tradições são muito musicais. Acho um país incrível por causa de tudo isso.

Você chegou a fazer um workshop aqui com Rolando Faria, dos Les Étoiles.
Ele é extraordinário. Adoro esse cantor. Fazíamos exercícios técnicos, cantávamos bossa nova. O extraordinário é vê-lo no palco, ele é excêntrico, tem uma elegância, vocalmente é de uma grande classe. É ao mesmo tempo lírico e muito sensual. Há uma técnica muito próxima do canto lírico, mas também uma fantasia, uma improvisação. Lamento de não poder tê-lo visto no tempo do Les Étoiles. Vi um show antes do fim da dupla, no teatro do Petit Journal, há uns cinco anos.

Como você definiria Music Hole?
Como diz o título, é a idéia de fazer uma espécie de music-hall, canções que contam a cada vez histórias diferentes, que podem ser inspiradas da comédia musical, que são dançantes, alegres ou tristes. Mas todas com arranjos mais orgânicos, mais tribais do que os arranjos de music-hall do século 20. Como fazer um arranjo sem instrumento, com seu corpo, sua voz? É uma releitura. O hole é o buraco da boca, do corpo, é todo esse aspecto orgânico e ao mesmo tempo misterioso. O buraco musical para mim é como um lar em torno do qual se agrupam as pessoas.

Há muito beatbox, stomping, body percussion...
E repetições também, inspiradas da música africana e minimalista. É uma mistura da chanson, do story telling, com essa espécie de repetição que há nas músicas antigas, folclóricas. Na voz, eu não busco algo em particular. Gosto de brincar com ela. Vejo sempre o que me inspira vocalmente cada canção. De acordo com o que quero expressar, vou ter uma voz que corresponde a essa emoção. E me deixo levar nessa procura. Não busco desenvolver uma só maneira de cantar.

Você experimenta tipo de reapropriação do corpo. Esse trabalho vai além do simplesmente musical e entra no pessoal, como são os workshops do Barbatuques?
Engraçado você ter falado em "reapropriação do corpo", pois penso exatamente isso, acho que fomos expropriados de nosso corpo. Quisemos tanto nos proteger de ameaças naturais, da fome, do frio, que nos distanciamos de nossa imunidade natural e de nosso corpo. E também, agora com os computadores, de nosso cérebro, de nosso potencial enorme de tratamento de dados, de força física de criatividade. Para mim, desenvolver isso é sobretudo uma necessidade humana de descobrir esse corpo, que por meio da educação ocidental e da terceirização extrema da sociedade... ihhh, acho que agora me perdi no meu pensamento, me lancei numa grande parábola (risos). Mas o objetivo é reencontrar essa coisa, nossa primeira casa, nossa matéria-prima. É um prazer inaudito - e também sinto que infinito - redescobrir isso. O trabalho do Barbatuques é assim, algo que pode ser partilhado com todo o mundo, é lúdico, educativo. Para mim, é antes de tudo um alegramento.

Você já disse que seu corpo é seu computador.
Mas também não sou uma integrista. Isso traduz o que vivo hoje. Pode-se fazer um trabalho magnífico com computadores. Penso em Björk, por exemplo, que mistura o trabalho orgânico a um trabalho com computador. Criativamente é genial, não tenho nada contra. Eu mesma trabalhei com computadores para fazer esse disco. Mas minha necessidade do momento é a de fazer esse trabalho sustentado em mim mesma e que se exprime na minha música.

Para fazer esse disco, você gravou percussões com água, por exemplo, e também contratou um técnico de cinema para os sons de vento e de fogo.
Queria que esses climas fizessem um elo entre as canções e que os elementos estivessem presentes, o fogo, o vento, a água. Queria que se escutasse a musicalidade desses elementos. Pode-se fazer percussões com a água; o vento é uma forma de canto; o fogo é uma crepitação, um ritmo, pode ser uma detonação.

Como se deu com a colaboração com Jamie Cullum?
Aconteceu porque ele retomou em show uma música de meu disco anterior, Ta douleur. Eu vi no youtube, e notei que ele cantava batendo no piano, utilizando o piano como um instrumento percussivo. Achei excelente. E perguntei se ele concordava em tocar um pouco de percussão no meu disco, e ele aceitou. Tivemos só um dia para trabalhar, mas foi o suficiente para criar algo e foi muito agradável.

Você havia dito que seu próximo disco seria mais "homogêneo". Não parece ser o caso.
Não (risos). Mas minha homogeneidade é isso, tudo acaba por coexistir. Forma um todo. Se coloca tudo no hole e se faz um sopa. É algo que me corresponde, misturar tudo o que me passa pela cabeça transparece. E as colaborações ajudam nisso também. Quando se colabora, há vários universos que coexistem, e se forma um todo, não necessariamente homogêneo. Nesse caso, há os Barbatuques, MaJiker, eu. Há ingleses, um islandês, brasileiros, eu sou francesa. Há várias influências. No momento trabalho também com o som e o movimento no meu projeto God Is Sound, de cantos religiosos. Pesquiso os fundamentos do som e do movimento, que sinto presente nos cantos religiosos em geral. É uma improvisação em torno disso. Fiz alguns concertos no ano passado, e agora quero trabalhar sobre isso com a dança também.

Em God is Sound você faz uma reinterpretação de Ceremony of Carlos, do compositor inglês Benjamin Britten (1913-1976), que você descobriu ouvindo Jeff Buckley. Como tem se desenvolvido esse seu projeto?
Fizemos várias apresentações em igrejas. O objetivo era de cantar em locais com uma boa reverberação, uma boa acústica. Fomos convidados por igrejas, mas se fôssemos convidados por mesquitas também iríamos. De uma certa maneira, é um trabalho antropológico, mas é muito musical. Pode-se ver algo de político, mas não é a primeira intenção. O trabalho é sobretudo no nível do som e do movimento. Acho que não há muito trabalho sobre isso. No pop se vê muitas coreografias programadas. Estou trabalhando atualmente com uma bailarina afro-contemporânea, Elsa Wolliaston.

Você canta majoritariamente em inglês nesse disco.
Todas as línguas são musicais e expressam coisas diferentes. As músicas populares são completamente influenciadas pela música da língua. Se você entende a música da língua, entende a música do país. Cantar em inglês é também uma escolha musical. Não sou inglesa nem americana, sou francesa, mas por uma parte da família sou anglófona e há vários elementos anglo-saxões que adoro e com os quais cresci, fazem parte de mim e sobretudo de minha cultura musical. Se certas coisas me vêm em inglês, por protecionismo cultural não vou me obrigar a cantar em francês, eu me deixo levar. Mas esse disco foi pensado como um projeto com letras principalmente em inglês.

Foi difícil parir Music Hole?
Não foi só prazer, há também uma parte de sofrimento. Sofremos todos, mas há sempre pessoas que sofrem mais do que nós. Eu sou feliz.

 

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