
João Carlos Salles
De Salvador
Se temos que restituir ao poema um contexto, situá-lo e recuperar o sentido de seus vocábulos, podemos com pleno direito servir-nos apenas de outros poemas nascidos do mesmo fluxo poético e esclarecedores, pelo uso, de seus signos. Um jogo ascendente de prioridades assim se estabelece da obra de Drummond a "Campo de Flores", com passagens privilegiadas por Claro Enigma (livro de sua ocorrência) e "Notícias Amorosas" (grupamento próximo ou diferença específica). Neste sentido, momentos próprios de uma análise seriam, por exemplo: (a) a procura em outros poemas da carga semântica que o poeta sói associar a termos de "Campo de Flores"; e (b) o confronto com poemas outros do autor, que antecipem ou reiterem o uso de seus recursos expressivos.
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Curiosa, por isso mesmo, seria comparação com "A Flor e a Náusea", porquanto muitas aqui as semelhanças de superfície, como a referência ao tempo, ao nascimento de uma flor fora de um jardim (no caso, na rua), a alusão à ração diária de erro, ao sentimento da idade (então, quarenta anos), ao lento passar da mão na forma insegura. Um confronto assim talvez nos surpreendesse, mostrando que "A Flor e a Náusea", oposta em atitude e díspar em tema, faz parte da história dos recursos expressivos, enfim, da forma de "Campo de flores".
Também nos surpreende, ao comparar o choque entre polissíndeto e zeugma semântico, ao refletir sobre os mistérios da elevação platônica nos caminhos do amor, ser possível e esclarecedor o cotejo entre "Campo de Flores" e "Evocação Mariana", tanto pela semelhante divisão em duas partes, como pela solução:
Em "A Ingaia Ciência", uma palavra chave do poema, 'madureza', exibe-nos seu peso, seu significado como prenda terrível, de ciência ingaia e ineludível, a converter o mundo em uma cela, pois:
e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.
É aflitivo o contexto em que se põe o amor como dádiva, porquanto nele fora raptado "todo sabor gratuito de oferenda". A sabedoria própria da madureza, inevitável e sólida, parece recomendar, como em "Dissolução", que se aceite a noite. Seu movimento é pura sublimação:
E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.
É nesse contexto e contra o que nele se recomenda como virtude, é nesse tempo (e "Mistério é o tempo/ inigualável"), que ocorre um paradoxal amor maduro. Um amor, se inoportuno, força inscrita na natureza das criaturas, como realização de um tempo próprio. A vivência do amor, pérfida ou sublime, manifestaria, entre criaturas, a condição e o recurso únicos da criatura, a saber:
Entre necessário e absurdo, o amor se oferece ao poeta, que, resignado e grato, passa a saber-se, a ser mais, a fazer-se espaçoso e a encontrar-se extinto, amplo e escasso, descobrindo-se, enfim, na luz que baixa e confunde, vivo e também dissoluto, sumo ou coágulo, precário investimento, forma improvável.
Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br
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