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Reprodução
Capitão Blake e Professor Mortimer. "Com Le Sanctuaire du Gondwana, pela primeira vez na série a África é o cenário de uma aventura da dupla britânica"
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Cláudio Martini
De Campinas (SP)
Desde o fim do mês de março, dois personagens-ícones das histórias em quadrinhos franco-belgas começaram a viver uma nova aventura nas mentes de milhões de fãs da dupla espalhados pelo mundo. É Le Sanctuaire du Gondwana (O Santuário do Gondwana), 18º álbum da série Blake et Mortimer, criada pelo desenhista belga Edgar P. Jacobs em 1946.
Curiosamente, estes dois representantes máximos da bande dessinée (ao lado de Asterix e Tintim) são de origem britânica: Capitão Blake e Professor Mortimer. Sir Francis Percy Blake, capitão da RAF, e depois chefe do MI-5, é do País de Gales; enquanto o Professor Philip Edgar Angus Mortimer, é de origem escocesa e nascido Índia, durante o período colonial inglês.
Jacobs nasceu em Bruxelas, em 1904. Desenhista desde a infância, ele trabalhou com desenho de publicidade, cartazes, cenários e figurinos para ópera, da qual era grande admirador e participava como figurante e cantor. No início da guerra, sua carreira de barítono começava a dar resultados, quando o diretor do teatro que o contratara foi enviado como prisioneiro à Alemanha. Temendo ser requisitado para trabalhar em fábricas alemãs, voltou-se novamente para o desenho, como ilustrador da revista infantil Bravo. Foi quando se viu incumbido de continuar as aventuras de Flash Gordon, que não podiam mais ser importadas, proibidas pelo governo nazista. Logo depois, com o completo banimento do personagem americano, criou no mesmo estilo uma história para preencher as páginas da revista: O Raio U.
Em O Raio U, uma aventura pré-Blake e Mortimer, Jacobs desenvolveria seu desenho e narrativa, já delineando o caminho que seus futuros heróis iriam trilhar após o fim da guerra. Nos quarenta anos seguintes, até sua morte em 1987, Jacobs conquistou com apenas oito histórias, pré-publicadas na revista Tintin e divididas posteriormente em 12 livros, uma legião de fãs e seguidores. Junto com Hergé, de quem foi assistente, fundou o estilo de desenho linha clara e um novo tipo de aventura, onde constrói com base no mundo real e na ciência, histórias mergulhadas na ficção-científica, no fantástico e no desconhecido.
Jacobs tem um desenho preciso, carregado de ação e emoção, onde se percebe atos, gestos e situações teatrais, herança de sua paixão pela ópera. As cores, geralmente sóbrias, também são usadas com maestria pelo artista como um recurso dramático. Com a presença recorrente de túneis, cavernas, câmaras subterrâneas, passagens e laboratórios secretos em todas as histórias, a cor é utilizada para reforçar o clima opressivo e misterioso do ambiente. Há páginas onde apenas algumas cores são aplicadas com uma grande riqueza.
Alternando HQs com temas diferentes, a série mostra, por exemplo, arqueologia e fantástico em O Mistério da Grande Pirâmide (muito antes de Indiana Jones), uma eletrizante história policial em O Caso do Colar, ou ficção-científica e viagem no tempo em A Armadilha Diabólica. E sempre enfrentando o arquiinimigo Coronel Olrik, um misterioso e talentoso personagem de origem nebulosa.
Ao contrário do que é padrão na HQ franco-belga, com um trabalho mais autoral, os personagens não deixaram de existir após a morte de Jacobs. Novos livros continuam a ser publicados e, como a criação de cada história é um trabalho demorado e minucioso que leva anos, dois times foram formados, com duplas de desenhistas e roteiristas de talento e renome: Ted Benoit e Jean Van Hamme, André Juillard e Yves Sente. Na verdade, a segunda dupla foi trazida devido à preocupação dos editores com a morosidade de Ted Benoit, o que poderia comprometer a série. Compreensível em uma obra cuja primeira tiragem é de quinhentos mil exemplares, que com certeza se esgotarão em pouco tempo: tudo em nome do marketing.
Também em nome dos tempos modernos, a presença de mulheres já é uma realidade nas novas histórias de Blake e Mortimer, que são ambientadas nos anos 1940/1950. Isto era "inadequado" na época de Jacobs: as histórias, que saíam em capítulos na revista Tintin, eram dirigidas a meninos, que naquela época estudavam em classes separadas das meninas. Personagens de outras etnias, que antes estavam escalados para desempenhar papéis de ajudantes servis ou inimigos maquiavélicos, agora também aparecem em posições de destaque ao lado dos heróis. O "politicamente correto" era diferente naquela época de Bélgica colonial.
Com Le Sanctuaire du Gondwana, pela primeira vez na série a África é o cenário de uma aventura da dupla britânica. Agora é só encomendar o livro em uma livraria especializada e esperá-lo chegar da França para mergulhar neste mundo que apesar de espiões, intrigas, mistérios e segredos ainda era dividido entre o bem e o mal.
Site da oficial das Edições Blake e Mortimer: www.blakeetmortimer.com
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