
Antonio Risério
De São Paulo (SP)
Houve algum problema na internet. Com o provedor. É o que leio na telinha do laptop. O telefone também está com algum problema. Faz um ruído alto, grave, não me deixando ouvir direito o que é dito do outro lado da linha. Na televisão, a copa dos times campeões da Europa. O time turco (oficialmente, turco) do técnico Zico já está fora do páreo. Tevez, agora no Manchester, faz um gol de peixinho, deslocando o goleiro do Roma. O Barcelona dá um show neste segundo tempo. A bola rola. E a tevê é o que me resta nesta tarde, em matéria de equipamento tecnológico. Não, não estou no interior da Paraíba. Estou em São Paulo. E nos Jardins. Dá para acreditar?
Além da televisão, há um livro. Livros, melhor dizendo. Entre outros, estou lendo "Vida nas Cidades", do arquiteto Witold Rybczynski, filho de poloneses que nasceu na Escócia, estudou na Inglaterra e no Canadá e hoje é professor de arquitetura e urbanismo na Pensilvânia, nos EUA. A certa altura, escreve Rybczynski:
"Por muito tempo, as cidades maiores marcaram eras inteiras, e valia muito ser a mais populosa. Como ocorreu com Roma e Constantinopla imperiais, com a medieval Bagdá, a Nanjing do século XV e a Londres do século XX. Londres foi, demograficamente, a número um de 1850 a 1950, quando foi ultrapassada por Nova York. Quando Tóquio suplantou Nova York, na década de 1980, foi como um marco das proezas industriais japonesas. Mas uma lista das seis maiores áreas metropolitanas do mundo hoje incluiria não só Tóquio e Nova York, mas São Paulo, Cidade do México, Xangai e Bombaim. Pode-se dizer que a inclusão de Xangai mostra a ascensão da República Popular da China como uma potência econômica, mas o mesmo dificilmente pode ser dito de São Paulo, Cidade do México ou Bombaim, todas localizadas em países de economia problemática".
Mais Rybczynski: "Mesmo entre as nações ricas, industrializadas, o tamanho da cidade não é mais parâmetro de sua importância. Numa lista de cidades considerando suas populações, Chicago fica acima de Paris e esta, como Londres e Nova York, é uma cidade de influência global. Mas Chicago...".
Além da televisão e do livro, a perspectiva do milk-shake, numa padaria próxima, ao entardecer. As pessoas ficam meio perplexas quando faço a confissão: minhas bebidas favoritas são uísque e milk-shake. Duvida? Pois é a mais pura verdade. Saio andando ao entardecer, em busca de um ou de outro. Hoje, é dia de milk-shake. E lá vou eu por esta cidade horizontal. Sim, por mais que a informação possa surpreender, São Paulo é, ainda hoje, uma cidade mais horizontal que vertical. Mais de casas que de prédios. A verticalização predomina, mesmo, é no chamado centro expandido da cidade. Fora daí, não. E, assim, eis o fato: vou tomar meu milk-shake numa cidade feita principalmente de casas.
São Paulo, hoje, passa por uma crise de identidade (eu, de minha parte, nunca a deixei). E São Paulo já passou por muitas metamorfoses, já trocou de plumagem diversas vezes, já ostentou identidades várias, como se todas fossem definitivas. Nasceu como projeto de uma utopia jesuítica, do gesto dos inacianos ousados que quiseram implantar aqui uma "separate reality", que se concretizaria com o afastamento do homem branco e a conversão dos indígenas ao cristianismo católico. Seria uma "nação teocrática", como disse Silvio Romero, nos campos de Piratininga. Não deu.
Logo, São Paulo assumiu outra identidade, transformando-se em núcleo de bandeirantes - ou "arraial de sertanistas", como preferiu dizer Ernani Silva Bruno. Adiante, o arraial de sertanistas se fez "burgo de estudantes", recebendo sangue jovem - novo e inovador - de várias partes do país. Foi a São Paulo dos estudantes do largo de São Francisco, dos jovens abolicionistas como Nabuco, Ruy Barbosa e Castro Alves.
Mais tarde, veio a metrópole do café, nova identidade. Em seguida, mais uma transformação: o centro burocrático-comercial se deixa afetar, em profundidade, pelas forças da indústria. É uma outra São Paulo que surge, uma outra identidade que se configura, tempos da "locomotiva" do Brasil.
Agora, nesta passagem do século 20 para o 21, a história se repete. São Paulo vive um momento crítico, momento de transição. Presencia a emergência de uma nova estratificação social e o processo de formação de mais uma nova identidade. Mergulha e rodopia em si mesma, como cidade pós-industrial. E vamos ver o que se vai configurar nessa maré.
Fecho a televisão. Desligo o livro. Vou, agora, tomar meu milk-shake. E, como Pedro Kilkerry, repito o mantra. Louvado Seja o Santo Deus Imprevisto.
Terra Magazine