
Paulo Scott
Na página do Week in Review do New York Times tem um slide show bastante sugestivo e que vem ao encontro de uma sensação que me acompanha desde o início de março, quando vi uma imagem publicada aqui no Terra mesmo.
O título do slide show é "Anéis da discordância (ou do protesto)" e mostra, por meio de oito fotos obtidas em partes diferentes do mundo, como o símbolo olímpico dos cinco anéis interligados se tornou em pouquíssimos dias a referência gráfica de protesto mais popular da atualidade. Aparecem sangrando, ou são substituídos por caveiras, ou forcas, ou algemas, ou buracos de bala, ou engrenagens das esteiras de um tanque de guerra, por aí vai.
O principal destinatário disso tudo - há outros - é o governo chinês, que está pela primeira vez neste século (e talvez desde o anterior) verdadeiramente diante de uma oportunidade única de revelar as idiossincrasias de uma sociedade que para o ocidente permanece uma incógnita.
O mundo institucionalizado (especialmente os agentes econômicos) precisa respeitar a China, não é uma questão de conveniência, é uma questão de temor e necessidade. Mas isso não se aplica exatamente à opinião pública, nem ao modismo da indignação que às vezes produz algum resultado positivo - veja-se o pouco efeito que os protestos contra a permanência dos Estados Unidos no Iraque têm surtido.
Há um muro alto entre nós e a China. Neste começo de ano, fiquei 30 dias na Austrália e uma das coisas mais interessantes que descobri foi uma certa arrogância chinesa com o resto do mundo - para nós não é tão fácil perceber, mas na Austrália há uma proximidade que oportuniza, inclusive pela acessibilidade da língua inglesa, tal percepção. Quero deixar bem claro que arrogância e preconceito todos os países têm, nós brasileiros temos os nossos vários, só que é diferente quando você acompanha um pouco mais de perto.
Penso que é uma façanha da China catalisar tão ampla e intensamente uma indignação como essa pró-Tibete. É uma unanimidade mundial: o governo chinês está errado.
Já que os governos e empresários nada farão de importante, resta saber se depois disso tudo - como se pôde testar outras vezes ao longo da história - os cinco anéis passarão incólumes e permanecerão como símbolo de confraternização ou símbolo de protesto. A resposta, não duvido, estará estampada nas camisetas.
Terra Magazine