
João Carlos Salles
De Salvador (BA)
Um poema pode ser lido como um discurso, uma peça retórica que justifica, detrata ou elogia. Como discurso, dirige-se a alguém, sendo de esperar-se que, poema de amor, esse alguém seja a pessoa amada. Porém, assim como O Banquete não é uma descrição de enlevos amorosos, "Campo de Flores" não é um poema de amor. A pessoa amada nele comparece um só momento como interlocutora. Ela está presente, faz parte do público do discurso, é também objeto da persuasão ante ou pós-orgástica que o caracteriza:
(As antigas manhãs)
me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
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Nesse momento apenas dirige-se Drummond à amada. Ela permanece escondida (quase oculta por zeugma) no poema. O poema é sua máscara. E o poeta não a nomeia, retira da sombra ou descreve. Além de não ser um poema de amor, o texto tem algo a esconder, é um criptograma. A amada está presente, mas nenhum nome ou evento denunciam sua presença. Abstrata, é silêncio. Afinal, "há que amar e calar".
Ora, até mesmo Clódia, camuflada em Lésbia e em um padrão de beleza, não deixou de ter registrados seu nariz mínimo, seu pé lindo, os olhos negros, os dedos longos, a boca breve e mesmo a linguagem distinta. Da amada em "Campo de Flores" (sem qualquer nome ou epíteto, e não ocorrendo sequer como vocativo), sabemos possuir cabelos, voz e sombra.
Para si mesmo, para a amada, para outros invisíveis juízes, o poeta trata de justificar esse amor fora do tempo. E as únicas razões possíveis são razões cindidas. O discurso, adequando-se formalmente à mensagem, torna-se uma peça retórica de sublimação e culpa.
Enquanto discurso, o poema divide-se em duas partes, abusa prosaicamente de conjunções causais e adversativas, expressa-se por imagens antitéticas, furtando-se contudo a uma realização barroca. Opõem-se forma e forma. Opõem-se forma e conteúdo, mas, sendo essa oposição necessária ao jogo dos conceitos 'amor' e 'tempo', trata-se de um paradoxo produtivo, expressivo, veículo de sentidos e compreensão. Opõem-se forma e conteúdo, pois a forma indica continuidade, destino, promessa, redenção (mesmo quando se trata de resolver o dilema formalmente posto por diversas antíteses que, destarte, o renovam), e o conteúdo insinua fracasso, corte, risco, azar.
Concentramo-nos porém nos recursos formais e, como resultado de uma atenção exagerada, todo drama do texto parece resolver-se pelo que há de lacuna e de elevação no recurso misto ao zeugma semântico e ao polissíndeto. Por outro lado, pode não ser de todo injustificada uma tal atenção à superfície do poema, quando não deixamos irromper o significado das palavras. É o que aparece na oposição entre o polissíndeto e o zeugma semântico:
Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.
A dificuldade do poeta reside aqui no fato de parecer sugerir o polissíndeto simultaneidade e não sucessão, opondo-se à possibilidade de sublimação, de transcendentalismo, sugerida pelos cortes semânticos. A vivência conjunta de um amor que se projeta, se propõe como realização íntegra, total, de uma elevação platônica, vivida todavia no imediato e na contemporaneidade de uma angústia. Nessa paradoxal expressão de um paradoxo (também descrito versos acima como secreto investimento, na ausência de um jardim, em formas improváveis), Drummond nos dá, num mínimo e quiçá involuntário detalhe, uma prova definitiva de maestria poética.
Poema da repetição, compromete-se a aparente recorrência à mesma proposição pela diversidade material de suas sentenças. Poema da mudança aparentemente insignificante de sentido; poema da continuidade e do tempo, torna-se do espanto e da suspensão. Enquanto no primeiro verso da primeira estrofe o amor ocorre no tempo de madureza (como que independente desse e doação plena, a ponto de pouco importar se advindo de Deus ou do diabo, como se pudesse constituir-se qual mito radioso o indivíduo, fora do tempo ou antes de sua própria história), no primeiro verso da última estrofe toca o poeta um amor qualificado, modificado pelo tempo de madureza: um amor crepuscular. E mesmo as condições de enunciação modificam-se, sendo de plena afirmação na primeira estrofe (Deus me deu um amor no tempo de madureza) e condicionada (Mas, porque me tocou um amor crepuscular) a proposição deveras diferente que introduz a última, quando a ironia já dilacerou a melhor doação.
Poema da continuidade e da conjunção, misteriosos são seus polissíndetos e anadiploses. As anadiploses, costurando as primeiras estrofes pela repetição de palavras, parecem encadear a primeira parte do poema, que se apresenta como uma quase silogística justificação e elogio do amor, antes de tornar mais explícitas suas hesitações, que suspendem então o recurso a novas anadiploses com o verso: "ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo".
Poema da disjunção. Suas conjunções envolvem o confronto entre alternativas, seu vocalismo de gravidade (sons resultantes sobretudo de -ou e -or) parece ecoar a não gratuidade dos dilemas, e mesmo a já aludida oposição entre recursos formais transpõem para o modo de composição do poema o seu conteúdo, universalizando-o, uma vez que, em uma autêntica obra de arte, nada deve destoar do sentimento comunicado.
A forma do poema alimenta-se da disjunção íntima ao poeta. Além de antíteses, como "sombra imensa e contraída", a disjunção expressa-se em imagens, cisões evidentes ou tácitas, confrontos de idéias; e a disjunção renova-se no modo mesmo por que se dissolve: É um ou outro mas ambos! Assim, disjunções que deveriam ser exclusivas (Deus ou diabo, ser ou não ser, passado ou presente, vinho ou sangue, sumo ou coágulo, mão esquerda ou mão direita, amar ou calar) resolvem-se todas como inclusivas, disfarçam-se em conjunções e nada resolvem. A ironia que dilacera a doação resulta do reconhecer como necessária a verdade conjunta de momentos opostos. Há que amar e calar, viver a angústia e as carícias.
Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br
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