
José Cláudio
Do Recife (PE)
O maquinista João, o prato de que mais gosta é guisado de tartaruga. Que o rio dá é muito é o Juruá. O filho de João, Georgetom, a fruta de que mais gosta é abacate; e comida, carne de boi. O único peixe de que inda gosta gosta um pouquinho é o tambaqui. Dez anos. Chica gosta de sapoti e caqui e adora abóbora, pepino, melancia e melão.
Leia também:
» Diário de uma viagem ao Amazonas
João disse que vai dar "um geral". Eu perguntei o que era geral, ele disse "um banzeiro". São tipos de vento.
Fui comprar Neocid para espalhar junto dos rolos de tela, Zélio para se aparecer rato, Repelex. Tomei sorvete de cupuaçu. Quase não percebi o gosto. Dizem que em Belém se sente mais, na Sorveteria Santa Marta.
Finalmente saímos, segunda-feira 28 de outubro de 1975. Hoje afinal entrei no Rio Amazonas, que eu ia morrer com raiva se não entrasse um dia. Alguém me mostrou a diferença da água, barrenta, com brilhos vermelhos. Paramos para pegar duas canoas num flutuante, armazém em cima de toras grossas, de mais de metro de diâmetro, que Paulo disse que não afunda nunca porque não encharca: açacu. Mas o nome mesmmo é assa-cu, porque o leite queima. Travei minha primeira batalha com o Rio Amazonas. Pintei uns cinco quadros. Vi uma árvore formidável, a sumaúma. A casa junto dela parecia um mosquito. Tivemos um vento atravessando e encostamos no barranco. O taifeiro Alonso pulou em terra para amarrar a popa numa árvore. O rio levou a palheta que escorregou e caiu nágua. Minha oferenda à Iara. O quadro que estava pintando é o que tem escrito "Formação de um temporal". Já quase escurecendo entramos no Rio Madeira. É muita água. São rios tão largos que a idéia que se tem é a de que a proa do barco está se dirigindo contra a margem, como se estivéssemos cercados pelo horizonte de mata, perdida a noção de navegar entre paralelas. Hoje o menu foi galinha. Já comi tambaqui, matrinchã, tucunaré, carauaçu, pirarucu. O cozinheiro preparou com as cascas do ananá que descasquei um aluá com açúcar queimado: excelente! Parece que vamos pernoitar em Nova Olinda. Eu, no Rio Madeira, entre duas Olindas.
Estamos atracados num ponto de Furo do Canumã. Vi um lugar lindo, desses que, parece, ninguém ainda visitou. A água tranqüila duplicava o barranco zarcão que passava para dentro dágua de cabeça para baixo num verde negro somente perturbado às vezes por algum pulo de peixe. Da beira, subindo, as enormes árvores querendo ocupar o céu, troncos esbeltos levantados sobre a selva. Passamos por Nova Olinda que mostra um cemitério na beira do barranco. Algumas covas já estão com as cruzes inclinadas e a cada cheia algumas ossadas devem trocar de sepultura, de terra firma para água, nesse intercâmbio amazônico. Mais adiante pintei umas barreiras cor de ouro, barro de amarelo queimado intenso. Nem parecia terra. Dormimos ontem com o barco atracado num barranco do Rio Madeira e da capota Filomeno nos mostrou, ao americano e a mim, três jacarés, isto é, o olho, brasa bem acesa vermelho fixo. Apanharam varas de oeirana para armar o mosquiteiro de rede. Eu já estou doido de ver tanta coisa, o barco passando e misturando tudo na minha cabeça. Neste momento a tripulação está tentando pegar peixes que são atraídos pela luz da pilha. Vi uma árvore cuja forma era dada pelos ninhos de xexéu, aqui japiím, mais do que pelas folhas. Um ninho junto do outro ao longo e até a ponta dos galhos.
Filomeno é paraense de oriximiná.
Manhã no largo do Canumã. À distância de um tiro de espingarda uns patos pretos à flor dágua. Nome: miuá. Um cabloco que estava conversando na proa do rebocador disse que Foz pertence a Borba (Foz do Canumã). Que Borba é calçada e se pode andar de Honda. Eu achei engraçado ele falar de Honda, que para mim ainda é novidade.
Engraçado esse pessoal do barco. Qualquer um pega tranqüilamente no leme. Ontem estávamos almoçando e quem encostou o barco foi o cozinheiro com chapéu de mestre-cuca e avental. Passamos o dia na aldeia Coatá, dos índios Munducuru. O barco atraca e os índios com pouco vêm propor tocas, principalemte café. Não havendo troca, eles pedem sempre três, nem dizem cruzeiros. Um cacho de banana, um pé de couve, dois talos de cebola branca: é sempre três. Menos bichos. Vanzolini comprou tracajazinho e dois jabutis. Eu pintei dois quadrinhos da aldeia, ficando um pela metade que eu não quis atrasar e disse que já tinha terminado. O mosquito não me deixa escrever. Voltamos para o mesmo local em que dormimos ontem. Gente tomando banho na beira do rio.
Este diário foi também publicado pelo suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco.
Terra Magazine