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Quinta, 17 de abril de 2008, 16h30 Atualizada às 15h15

Aznavour: "Sou um artesão. Não sou star"

Claudio Leal/Terra Magazine
Charles Aznavour...  avec la plante
Charles Aznavour... avec la plante

Claudio Leal

Críticas maldosas colheram de Charles Aznavour uma resposta de obstinado: "Ninguém vence 17 horas de trabalho por dia". Dezessete horas era o tempo ideal para convencer os descrentes. E dobrá-los pela canção.

Aznavour, 83 anos, segue sua turnê sul-americana com a antiga crença no caráter redentor do trabalho. Estréia hoje em São Paulo. Depois, parte para Brasília, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre. Ainda não se vê fora do palco, o que insinua uma herança genética dos pais armênios, personagens anônimos da diáspora que se seguiu ao genocídio liderado pelos turcos, entre 1915 e 1923. Deram com os costados na Paris dos anos 20. O filho Charles nasceu em 1924, a caminho dos Estados Unidos, num acidente biográfico.

A vida parisiense dos imigrantes exigia, além do óbvio desgaste físico, um talento de mambembe. Talvez você se lembre dos garçons de Na pior em Paris e Londres, de George Orwell. Nos subsolos de hotéis, armênios, turcos, gregos, tchecos, romenos, espanhóis e portugueses gramavam a semi-escravidão de empregos pingentes. Cuspiam nos pratos servidos, numa típica vingança proletária. Em 1928, os plongeurs (lavadores de pratos) não trabalhavam menos do que 15 horas diárias.

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Para se estimar o preconceito contra os armênios, Orwell cita um provérbio corrente na França da década de 20: "Confie mais numa serpente do que num judeu, mais num judeu do que num grego, mas jamais confie num armênio". O escritor inglês se referia, especificamente, a um porteiro que embolsava parte de seu salário.

As 17 horas de Aznavour guardam a memória das 17 horas dos Aznavourian. Era uma família de artistas do pequeno teatro: o pai Misha, cantor operístico e dono de restaurante; a mãe Knar, atriz. Na canção Autobiographie, o garoto diria que abriu os olhos sobre um quarto triste. Sentia frio, faltava pão. Os espetáculos russos e armênios trataram de embriagar com arte sua miséria infantil.

Nasceu também em 1924 o Aznavour que se recusa a responder uma pergunta de Terra Magazine, em São Paulo, numa coletiva à imprensa no Hotel Grand Hyatt, em 15 de abril. O compositor evita analisar as teses do presidente da França, Nicolas Sarkozy, de endurecimento das regras da imigração. Charles Aznavour tem argumento de embaixador para esquivar-se:

- Como sabem, sou embaixador itinerante da Armênia. Não posso falar de política. Não posso comentar a política de outros países.

Filho de imigrantes, e craque das palavras, ele deixa porém a bola quicando.

- Não falo de política, mas falo de subúrbios, de imigração... De subúrbios, de imigrantes...

Por favor, "banlieues". As revoltas nos subúrbios franceses. Ele retoma o ar espirituoso de pregador. Habilidoso ao manipular idéias, demonstra tolerância:

- Viajo pelo mundo e vejo que esse não é um problema somente da França. Existe em Nova Iorque, em Londres, em todos os subúrbios de países que conheci em viagens. A França, por ser um país mais visado, fica em evidência, mas isso está em quase todos os lugares. Somos todos estrangeiros. Somos todos filhos da imigração. No mundo inteiro. Alguns não aceitam isso, inclusive na França, mas isso muda - expõe Aznavour.

A experiência familiar conduz o compositor francês. A desesperança nos subúrbios está presente em sua canção Moi je vis en banlieue, na qual se despe de ideologias: "À esquerda ou à direita, onde está a diferença?".

- Na França, primeiro vieram os judeus. Depois, os armênios. Antes disso os italianos, os espanhóis... Todos contribuíram para formar uma amálgama. Agora, vêm os árabes e os africanos. Os últimos são sempre os mais discriminados. Os últimos a chegar não são bem-vindos. Em qualquer lugar. Até outros chegarem. É a lei da vida e do mundo.

Igualmente da lei da vida - e da imprensa - o sensacionalismo em torno de sua despedida da música. Vira os olhos, um tanto incomodado, antes de explicar o equívoco:

- Nunca falei que queria parar, é a imprensa francesa que fala qualquer coisa. Se um cineasta apresenta seu último filme, não quer dizer que encerrou sua carreira. Eu disse que ia fazer minha última turnê, e não que vou parar. Mas se os jornalistas não sabem a diferença entre "au revoir" e "adieu"... É uma questão de vocabulário. E eu conheço muito bem o vocabulário francês. Os cantores nunca param, eles sempre voltam. São como os criminosos que retornam ao lugar do crime.

Aznavour não controla o medo de sua despedida definitiva. Desde a morte de Yves Montand, talvez seja o último grande cultor da chanson française, um gênero de canção inseparável do século XX, que nos remete a Maurice Chevalier, Charles Trenet, Edith Piaf, Boris Vian, George Brassens, Leo Ferré, Jacques Brel, Moulodji, Serge Gainsbourg, Renaud, Georges Moustakis... Sem esquecer Henri Salvador e seu swing diverso das canções tradicionais.

Das mãos e ouvidos de Aznavour nasceram inúmeros clássicos: Je hais le dimanche (ouça na voz de Juliette Gréco), Que c´est triste Venise, La Bohème, Hier Encore, Et pourtant, Avec, Plus bleu que tes yeux (composta para Piaf), Tous les visages de l´amour (She), etc.

Iniciou a vida artística como ator de teatro. Além da música, fez carreira paralela no cinema. Força a cabeça, enruga a testa, e escolhe Atirem no pianista, de François Truffaut, como seu melhor trabalho. Atuou em cerca de 60 filmes - dois deles: Testamento de Orfeu, de Jean Cocteau, e Édith et Marcel, de Claude Lelouch.

Em 1996, lançou o romance Nas veredas da amizade (La balade espagnole), escrito em parceria com o cineasta Richard Balducci. "Foi uma fase de minha vida", diz Aznavour a Terra Magazine. Ele não conhecia a edição brasileira. Folheou e aprovou a tradução do título.

Resistirá seu cancioneiro de amor. Em entrevistas, costuma palpitar: Sa jeunesse, Hier encore e La Bohème ainda serão cantadas após sua morte.

- Sempre faço canções de amor com ângulos diferentes (rabisca no papel), que não se repetem. É o amor visto de vários ângulos. Mas as palavras de amor são sempre as mesmas. As palavras são sempre as mesmas.

Aznavour rabisca: suas canções olham o amor (centro) de diversos ângulos.

Compositor-artesão

Em outro momento, Aznavour é mais preciso ao definir como constrói suas músicas-poemas. Não esconde a primazia da letra.

- Sou um autor, um escritor da canção, que veste as canções com palavras. Para o compositor, a música é mais importante. Para o escritor, o texto. A música faz a volta ao mundo levando o texto. O texto, aos poucos, faz com que a canção dure mais. Uma boa música com um texto mal-escrito não dura muito.

Compositor-escritor, como costuma se definir, Aznavour representou uma renovação da música francesa, ao elevar as imagens dos versos. Essa preocupação não era exatamente nova. Mas Aznavour agregou às composições algo mais. Quando se ouve "Je vous parle d'un temps que les moins de vingt ans/ Ne peuvent pas connaître/ Montmartre en ce temps-là/ Accrochait ces lilas" (La Bohème), sente-se, de início, sua carga memorialística.

- Escrevi canções que não são de amor. Fiz muitas canções, por exemplo, contra a segregação. Falei da homossexualidade, da ecologia, dos surdos, da ortografia, músicas que se perdem em meio às de amor. O artista deve sempre variar. É por isso que eu venci. Porque me diversifiquei. É o único segredo que eu posso dar.

Finda a conversa com os jornalistas, os fotógrafos pedem a Charles Aznavour uma concessão à luminosidade. O chansonnier usa um óculos ray-ban. Não permite flashes. Gentilmente se submete à sanha da melhor pose. "Voilà!", acede. "Avec la plante? Hum". Olhar irônico, senta-se num caco de palmeira. Avec la plante. Contraria amistosamente o roteiro das "estrelas" e se entrega ao primeiro a puxar um papo. Monsieur Aznavour!

- Eu tenho horror (à estrelismo). Sou um artesão. Não quero ser chamado de "star", "vedete"... Uma pessoa que escreve no papel não pode ser chamado de estrela. Quando subo no palco, detesto isso! Nunca falam assim dos pintores, dos escritores. Nenhum dos grandes pintores foi chamado de monstro sagrado. Monstre sacré, hum... (faz careta) - brincou ainda na coletiva.

"Ele não quis ir pelos fundos, disse que vai sair por onde todo mundo sai", avisa um segurança à produção. Aznavour desce a escada rolante e encontra o lobby do hotel. Alheio a formalidades, como se não passasse de um estreante em Montmartre, à espera de um aperto no ombro ou um elogio à sua última canção.

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