
Atualizada às 15h16 |
Divulgação
Charles Aznavour em Atirem no pianista
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Saymon Nascimento
Especial para Terra Magazine
Liberdade ou controle absoluto. A obra do diretor François Truffaut tentava promover esse casamento difícil de conciliar. De um lado, a vontade de filmar com naturalismo e leveza, que o cineasta herdou do neo-realismo. Do outro, a admiração pelo cinema de gênero americano e seus códigos ultra-específicos. Em Os Incompreendidos, Truffaut começou mais realista, sem perder a poesia. Atirem no Pianista, seu segundo filme, tem fachada hollywoodiana.
Charles Aznavour é pianista de bar atormentado por um fantasma do passado, o suicídio da esposa. Vivendo com identidade falsa, se envolve com gangsters perigosos. Luz escura, sombras no cenário e tiroteios. O ano era 1960, mas podia ser também 1940 e poucos, num estúdio da RKO, em Los Angeles. Truffaut filma noir, o estilo criado espontaneamente pelos americanos, mas identificado e nomeado pelos franceses. Cinema negro.
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Noir, mas nem tanto. Truffaut ainda estava no tempo da nouvelle vague, e suas excentricidades de montagem, ritmo e fotografia. Atirem no Pianista é cinema negro com sabor de releitura, policial com levada de pastiche. Mais tarde na carreira, Truffaut faria filmes mais aplicados na receita dos gêneros, como A Sereia do Mississipi e A Noiva Estava de Preto, principalmente.
Em Atirem no Pianista, há indefinição, nem sempre harmônica. A liberdade no filmar distrai tira parte do peso dramático que o noir costumava ter. O prazer é mais formal que emocional. Pode não haver tragédia, mesmo com os corpos empilhados, mas Truffaut faz um troca justa. Cria uma atmosfera charmosa e melancólica, com clima jazzy.
Quanto a Aznavour, ele toca melhor que atua, claro, mas o filme não pede muito dele - basta ser um pouco lacônico e projetar alguma vulnerabilidade, que o preto e branco faz o resto. Não é pouca coisa.
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