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Sábado, 19 de abril de 2008, 07h53

Miranda: "Com 15 minutos, sabia que íamos ganhar"

Luciano Borges
De São Paulo (SP)

Com apenas 15 minutos de bola rolando, Miranda já sabia que o São Paulo iria vencer o Palmeiras, no domingo passado, 13. O primeiro jogo da semifinal do Campeonato Paulista terminou, de fato, com vitória do tricolor por 2 a 1.

Como o zagueiro que está no clube há um ano e oito meses, sabia o que estava por acontecer? "Pela leitura do jogo, do que estávamos fazendo em campo e a estratégia do adversário", disse em uma conversa com o Terra Magazine.

Para Miranda, jogador de futebol tem que ser guerreiro, mas não pode ser burro. Na passagem pela equipe francesa do Sochaux (onde ficou por uma temporada e meia), ele diz ter aprimorado a leitura dos esquemas táticos e que isto ajuda a vencer em campo.

Paranaense de Paranavaí, Miranda tem 23 anos e 101 jogos pelo São Paulo. Foi contratado para substituir Diego Lugano, ídolo uruguaio da conquista do Mundial Interclubes. No clube paulista, conquistou o Campeonato Brasileiro em 2006 e 2007.

No ano passado, formando trio de defesa com André Dias e Alex Silva, Miranda foi convocado pelo técnico Dunga para o amistoso da seleção brasileira contra o Marrocos. Não jogou, mas gostou. E quer voltar.

Na entrevista, Miranda conta que retornou para o Brasil para ser notado pelo técnico da seleção brasileira. Diz também que, entre Internacional de Porto Alegre e São Paulo, preferiu ficar com o clube que "dá mais projeção".

A seguir, a íntegra da conversa que começou com Miranda lembrando que "os três amigos" da defesa - ele, André Dias e Alex Silva - voltaram a jogar sem terem feito um treino juntos.

Terra Magazine - Quantos treinos vocês fizeram antes do jogo contra o Palmeiras de domingo passado?
Miranda -
Nenhum. A gente não jogava junto desde a partida contra o Sport Recife, no Campeonato Brasileiro do ano passado. O Alex (Silva) se machucou e nunca mais formamos o trio comigo e o André Dias.

E vocês tiveram que fazer ajustes durante a partida?
Uma coisa ou outra. Na verdade a gente conhece bem como cada um joga. Não teve muita dificuldade. Depois, tem uma coisa legal: a gente gosta de jogar um com o outro. Durante a partida, o que fizemos foi um ajudar o outro, pensando sempre o melhor.

Qual o estilo de cada um?
O Pirulito (Alex Silva) tem boa técnica e é muito forte pelo alto, até por causa da estatura dele. O André Dias é o mais experiente, exerce uma liderança boa. É um cara voluntarioso, que não gosta de perder. Eu acho que tenho boa antecipação, boa velocidade, mas é melhor vocês falarem de mim. Não me sinto bem me analisando.

Este ano, como em 2007, a defesa começou a temporada sofrendo gols e críticas. Você vê semelhança entre essas duas situações?
Olha, dá para dizer que a experiência do ano passado me deu certeza de que ia chegar o momento em que a defesa ia se acertar. Temos jogadores de muita qualidade lá atrás. O ajuste vem com o tempo. De quatro partidas para cá, começamos a sofrer menos gols, a jogar melhor. Também é preciso lembrar que a equipe começou o ano mais ofensiva, com o Richarlyson e o Hernanes mais na frente.

Você gosta de decisão?
Gosto. A gente passou o Campeonato Paulista inteiro para chegar neste momento. Aqui no São Paulo, a gente sabia que - mesmo não tendo um bom começo - ia estar nas finais. Temos jogadores experientes, acostumados a decidir.

Você se inclui neste grupo?
Me incluo, lógico. Já disputei duas finais de estaduais no Paraná, semifinal aqui no ano passado, já ganhei o Campeonato Brasileiro duas vezes. Tenho experiência.

Que tal jogar no Palestra Itália a segunda partida da semifinal contra o Palmeiras?
Temos condições de jogar e ganhar em qualquer estádio. Na última vez em que joguei lá, o gramado estava bom. Ganhamos por 1 a 0. Mas acho que a grama mudou e o tamanho aumentou. Acho que não vai nos atrapalhar.

O presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, diz que quer ver um time guerreiro. Você é guerreiro?
Olha, todos que estão aqui têm perfil de guerreiro. Agora, tem uma coisa. Muita gente acha que guerreiro é aquele jogador que dá porrada, carrinho, que corre o tempo todo. Mas precisa ter inteligência. Não adianta ser guerreiro burro. Tem que entender o jogo.

Você lê o jogo taticamente?
Leio. Aprendi muito na Europa. Lá, eles nos ensinam a não ter uma função só e também querem que a gente entenda, leia o jogo. Às vezes, só de olhar o posicionamento do adversário, você já sabe como ele vai jogar. Isso permite que você antecipe o que o outro time vai fazer.

No primeiro jogo contra o Palmeiras, deu para ter essa percepção?
Com uns 15 minutos de jogo, já deu para perceber que o jogo estava para nós. Nós lemos bem o que o adversário ia fazer e isto facilitou nosso trabalho.

Mas assim, tão rápido?
Pelo jeito como nossa marcação estava e a maneira como o Palmeiras atacou, a gente já sabia que tinha o controle da partida. A partir do momento que nosso adversário não chuta em gol, mostra que o São Paulo encaixou a defesa e controlou o jogo.

A estratégia foi definida na preleção do técnico Muricy Ramalho?
O Muricy prepara o time muito bem já nos treinos. Ele sempre prepara duas formações táticas. Assim, o time muda o esquema sem mudar os jogadores. A gente estava preparado para qualquer esquema que o Palmeiras viesse executar.

O São Paulo cansou no segundo tempo. E você?
Não. A gente estava, teoricamente, desgastado pelo jogo contra o Audax, a viagem para o Chile. Mas acho que o cansaço é uma coisa psicológica. Você vai na vontade e supera o cansaço. Ganhamos um dia de folga depois do jogo. Já estou inteiro novamente.

Você era titular no Sochaux, da França. Por que decidiu voltar para o Brasil?
Por causa da seleção brasileira. Eu estava bem lá, jogava como titular em 70% dos jogos. O clube é bem estruturado e aprendi muito lá. Mas vi que o Dunga estava dando oportunidade para todos e achei melhor vir para o São Paulo, que é uma boa vitrine.

Quem o convidou para jogar no São Paulo?
O Milton Cruz (auxiliar-técnico). Mas deixa eu contar uma coisa. Eu estava para acertar com o Internacional de Porto Alegre. O Milton conversou comigo sobre a proposta de trabalho e depois houve um acordo entre os clubes. Tanto Inter como São Paulo são grandes, com boa estrutura. A diferença é que o São Paulo é uma vitrine maior.

Deu resultado? Você foi convocado uma vez.
Fui chamado pelo Dunga para o amistoso contra a Argélia, na França. Fiquei no banco.

Aliás, que proveito um jogador tira de ser convocado, viajar para a França, treinar uma vez e não jogar?
Para mim, ganha mais reconhecimento do torcedor. Passo a ser um jogador que foi para a seleção. Mas a nível de produtividade, continua tudo na mesma. A confiança cresce um pouco mais, mas seria bom jogar. Eu gostaria de ter jogado.

Quando você foi convocado, a defesa era dos 3 Amigos. Com a volta do trio de zagueiros, você acha que pode ser chamado outra vez?
A partir do momento que a defesa volte a sofrer menos gols, nosso futebol aparece novamente. Muitas vezes, se julga um atleta pelo desempenho de toda a equipe. Então é bom que o time ande bem. O empenho de todos facilita a volta à seleção.

Você quer voltar a jogar na Europa?
Eu gostaria sim. Acho que o futebol brasileiro é bom, bonito de se ver, mas infelizmente as condições aqui são inferiores do que as da Europa. Especialmente pelo aspecto financeiro. O jogador precisa passar por esta experiência para se estabilizar financeiramente.

É verdade que, quando você chegou no São Paulo, teve uma experiência com um torcedor que o deixou impressionado?
Foi logo que cheguei. Nem estava jogando ainda e fui ao estádio do Morumbi, num camarote, para ver uma partida. Não lembro agora contra quem, mas recordo que era um jogo difícil, estava empatado e o São Paulo marcou o gol da vitória. Aí, vi um torcedor comemorando o gol, chorando muito. Aí eu vi o amor que esta torcida tem pelo clube. Sempre que entro em campo, jogo com vontade porque lembro daquele torcedor, do carinho dele pelo time.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

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