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Ricardo Brito/Reprodução
Mulher protesta em frente ao 9º Distrito Policial no Carandiru, zona norte de São Paulo, durante o depoimento do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá
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Diego Salmen
O café da manhã na padaria já sinaliza que o dia será diferente:
- Esse pai não tem nada na cabeça - comenta uma mulher, saco de pães na mão.
O pai, no caso, é Alexandre Nardoni, suspeito de ter matado a própria filha, Isabella, de 5 anos - atirada do 6º andar de seu apartamento na zona norte de São Paulo.
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Nesta sexta-feira, 18, Alexandre e Anna Carolina Jatobá, mulher de Nardoni e madrasta da vítima, prestam depoimento sobre o caso no 9º Distrito Policial do Carandiru, também na zona norte da capital paulista.
Em frente à delegacia, uma manada de repórteres, cinegrafistas e produtores à cata de informações. São mais de 30 carros de reportagem; estima-se mais de 100 profissionais em ação. Câmeras, gravadores e microfones em punho, trocam idéias entre si enquanto esperam, pacientemente, pela chegada do casal.
"Parece um show", critica a cabeleireira Jerry, dona de um salão em frente ao distrito e que vem sendo utilizado pela imprensa para a captura de imagens no local. Na assistência, quatro helicópteros sobrevoam a área em busca do melhor ângulo.
Jerry cobrou aproximadamente R$ 500 de cada uma das equipes instaladas na varanda do estabelecimento. "É, foi por aí", desconversa sobre o valor, rindo. Estavam presentes Gazeta, Band, Globo, Record e Grupo Estado.
- Assim dá pra tirar um pouco do prejuízo; o movimento caiu uns 80% desde que começou essa coisa toda aqui - lamenta. O salão está fechado à clientela.
Observações midiáticas
Os repórteres estão separados da multidão por uma faixa de segurança. Dispõem de uma tenda com água mineral à vontade.
Também na casa dos três dígitos, populares observam atentamente a movimentação dos jornalistas. Enquanto isso, comentam a morte da menina Isabella:
- Tem que matar tudo esses p... - diz um deles.
- Só vim aqui pra ver a movimentação e a cara da desgraçada - conta uma mulher para as câmeras do SBT.
- Se eu pudesse, dava um soco no meio da fuça dela - brada, em referência a Anna Carolina Jatobá.
Cabelos vermelhos, rugas que denunciam seus quase 50 anos e bolsa em mãos, dona Márcia faz um paralelo para justificar sua indignação:
- Teve aquela moça que ficou sei lá quanto tempo presa por causa (do roubo) de uma margarina. Só porque é rico, o casal tá embaçando; se fosse pobre, já tava fedendo na cadeia - critica.
- Se eu não sair na TV, vou desligar tudo essas câmera aí - ameaça outro, para em seguida fazer uma observação midiática do caso:
- Dá um Ibope do caramba...
Água e chapéu
João e Chico vendem chapéus e cintos em frente ao DP por R$ 15 cada. Os chapéus são de lona, os cintos de couro. Ele não contava, no entanto, com a avareza da classe jornalística. "Não vendeu nada", resigna-se João.
- Olha a água, água, água! Água é R$ 1,50 e refrigerante é R$ 2, olha a água, água, água - grita outro vendedor.
Uma repórter da RedeTV! pede uma entrevista. Ele se nega.
- Fala pra gente vai, a gente não tá aqui pra acusar ninguém - insiste a jornalista, enquanto outro colega, desanimado, reclama.
- Que que eu tô fazendo aqui?
Confusão
São 10h30, horário marcado para o depoimento de Alexandre e Anna Carolina. Apesar do excesso de gente, reina a mais absoluta tranqüilidade e cordialidade em frente à delegacia. Transmitindo ao vivo, um radialista contesta:
- Muita confusão aqui no distrito...
Com quase meia hora de atraso - provocado pela confusão na saída da casa de Antonio Nardoni, pai de Alexandre -, o casal enfim chega para prestar depoimento. Cadeiras e escadinhas a postos, cinegrafistas e fotógrafos enfileiram-se à grade de ferro que os separa do distrito. Alguns colegas os acompanham das janelas e telhados nas residências e prédios vizinhos.
A multidão, catártica, grita:
- Assassino! Assassino! Assassino!
- Há um grande clamor popular - narra o radialista. Depois, lamenta:
- Infelizmente, parece que a população já fez seu julgamento.
O depoimento começa. Mas o dia não acabará cedo para a maioria dos profissionais de imprensa que ali estão. "Você tá armado de guarda-chuva aí?", pergunta uma produtora ao telefone.
- É porque esse sol é de chuva, viu.
Terra Magazine