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Sexta, 18 de abril de 2008, 16h35

Populares gritam "Assassinos!". E sorriem

Ricardo brito/Terra
Populares se esforçaram para atrair a atenção da imprensa, em frente ao 9º DP
Populares se esforçaram para atrair a atenção da imprensa, em frente ao 9º DP

Claudio Leal

"Assassinos! Assassinos!". Uma senhora se enrosca num poste e dá uma parcela de sua voz: "Assassinos!". Berros do coro greco-paulista em novo clímax da tragédia da garota Isabella, que caiu do apartamento do pai, na zona norte de São Paulo, em 29 de março. A rua do 9º DP, no bairro do Carandiru, volta a ser palco, e tribunal.

Alexandre Nardoni, o pai de Isabella, entra na delegacia aos empurrões de policiais do GOE (Grupo de Operações Especiais); na seqüencia, Anna Carolina Jatobá, aos solavancos, sob idêntica provação popular. Potentes carros da polícia paulista envolvidos na operação sugerem que a segurança pública da capital se limita, hoje, ao depoimento-espetáculo. Ao castigo de um crime ainda não esclarecido.

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Quatro helicópteros de emissoras de televisão compõem o cenário. O barulho das hélices traz uma música de fundo à catarse.

No momento da chegada do pai e da madrasta, suspeitos da morte de Isabella, a platéia exibe uma contradição, daquelas atordoantes: os populares sorriem enquanto gritam "Assassinos!". Senhoras acenam para as câmeras.

- Estamos famosos! - grita um garoto, com o celular na mão.

E mais "assassinos!". Outros sorrisos. Inseparáveis. O casal já entrou na delegacia, mas a folia do depoimento ainda motiva gritos. Jornalistas se encaixam em qualquer fresta suficiente para registrar o menor movimento. Habilidade semelhante à de um atirador de elite. O número de repórteres, cinegrafistas, produtores e fotógrafos, às 10h40, supera o de curiosos. Os julgamentos se sucedem.

- Quero falar, quero falar! Trabalho muito pra sustentar meus filhos e aqueles vagabundos, ricos, matam a menina. E ela é a assassina - depõe voluntariamente uma ambulante ao canal de TV.

No final da manhã, o noticiário da televisão, o cenário da rua do 9º DP e o plantão jornalístico na casa dos Nardoni demonstram que a morte de Isabella virou algo além de um crime. E o sorriso já uniu à sentença.

 

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