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Segunda, 21 de abril de 2008, 11h05

O grande vilão

Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)

Faz seis meses que adquiri uma televisão (minha pilha de DVD's com shows das bandas favoritas e algumas animações do tipo Ghost in the shell e American pop me forçaram a comprar uma Sony onde eu pudesse assisti-los com algum conforto - ressalto o detalhe, pois se trata de uma vinte polegadas, portanto, nada demais).

Em razão disso (mais freqüentemente do que nos últimos oito anos, que passei sem TV), acabo zapeando (em baixíssima qualidade de captação, diga-se) os canais das TVs abertas e esbarrando em inevitáveis dois ou três minutos de novela (novela da Rede Globo que, tratando-se do binômio consumo/mercadoria, é a única que interessa).

Dessas passagens (tem essa novela Duas Caras), apreendi com certa alegria, admito, que há muito mais atores negros atuando em papéis razoáveis, leia-se: não só de faxineiro ou escravo, do que se via no passado. Lembro da estranheza que causava a presença do ator Milton Gonçalves na novela Pecado Capital.

Sei que não é favor da Rede Globo, há uma imposição legal e certa consciência dos telespectadores negros (isso pesa para alguns anunciantes; outros, não há dúvida, se aposentarão sem levar isso em conta). Claro, há também Lázaro Ramos.

Não quero militar sobre o assunto, até porque de novelas quase nada conheço; sei apenas o impacto que a dramaturgia da Rede Globo causa na formação da identidade brasileira há anos. Quero dizer que a consagração dependerá apenas de um detalhe: um ator negro desempenhando o papel de vilão à altura de Odete Roitman (cito a personagem porque, com toda a certeza, é daquelas vilãs que atravessam gerações). Dia desses, presenciei duas adolescentes mencionando a tal.

Um grande vilão negro. Pronto.

Onde quero chegar?

(um dramaturgo, um diretor, negros?).

Não admito ser paranóico com assuntos elementares (embora sejam sempre os piores), as coisas se resumem a cabo de guerra: sempre disse que a aproximação da novela com a realidade era o mínimo. Num país como este, novela é veículo promotor, mexe até com aqueles que gostam de coitadismo - febre nacional - e não aprendem que nada virá de graça.

Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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