
João Carlos Salles
De Salvador (BA)
Como se concretiza o tempo do amor no poema? Por quais imagens caracteriza-se no poeta a presença de um amor fora do tempo?
Leia também:
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» A Forma Improvável (parte 2)
» A Forma Improvável (parte 3)
Que tais imagens confirmam a definição de 'madureza' oferecida em "A Ingaia Ciência", mostram-nos as referências muitas à decrepitude: (a) frutos não colhidos ou apodrecidos; (b) penumbra; (c) chamas extintas; (d) ausência de jardim; (e) crepúsculo; (f) despojos; (g) cansaço de si. Outras imagens (mitos pretéritos, antigas manhãs, amar diferente) marcam a diferença desse amor presente e inatual, a ser vivido fora do tempo certo, como se pudesse fixar-se e lograr nitidez como um desvio de si mesmo - promessa que se nega qualquer esperança.
Outras imagens ainda decantam um tempo do amor ao corporificar sua vivência em germinação que, contudo, porque extemporânea e ingrato o solo, por não encontrar segurança nem poder ter sua forma antecipada, por não comportar promessa além da que se extingue em sua imediata satisfação, é investimento apenas em formas improváveis.
De modo concentrado, contraído, encontra-se o tempo na palavra 'sempre', que ocorre inocente na expressão "me sorriam sempre", mas exibe todos os seus dentes, toda sua força, em "O Enterrado Vivo", de Fazendeiro do Ar:
É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.
É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.
É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.
É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.
Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.
Mais um paradoxo! Em "Campo de Flores", 'sempre' e 'jamais' parecem significar o mesmo, sintetizam os termos a ambígua constituição do tempo no indivíduo - tempo nunca imune a contradições, das quais indefeso se alimenta. Referem-se então ambos os termos (e o poema) à nostalgia de um si-mesmo que jamais (e sempre) se realizou e não mais (e só hoje) pode realizar-se.
Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br
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