
Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)
Só louco / Amou como eu amei / Só louco / Quis o bem que eu quis
Oh, insensato coração / Por que me fizeste sofrer? /
Porque de amor para entender / É preciso amar / Porque / Só louco...
Dorival Caymmi
O que há nesta canção de Caymmi que a faz tão especial? Composta lá atrás, em 1955, como 'samba-canção', ganha performances marcantes com Nana, Gal e com o próprio Caymmi, e certamente anuncia o jeitão/jeitinho da bossa nova (confira no YouTube).
Constrói no coração-ouvido da gente uma certa sensação suspensiva. A gente fica suspenso junto com a música, pairando no espaço da canção, no espaço desse monólogo onde não há referência direta ao objeto amado - 'quis o bem que eu quis' e não 'quis o bem que eu te quis' como às vezes ouvimos por aí -, pairando, em suma, na turbulência estática da fricção entre o reconhecimento da loucura do amor (sua insensatez) e ao mesmo tempo de sua inevitabilidade ('é preciso amar').
Esse jeito e esse clima da canção são ao mesmo tempo ferramentas importantes de sua arquitetura musical. Nesta singela homenagem aos 94 anos do mestre - no próximo 30 de abril - sendo ele, aliás, Doutor Honoris Causa pela universidade Federal da Bahia desde 1984, me admiro mais uma vez e me enrosco em sua intrincada técnica composicional de construção de uma complexidade simples - como se estivesse apenas deitado numa rede bebendo água de côco.
Ex. 1:

Este exemplo mostra o motivo característico da peça, que aparece quatro vezes de forma explícita, sempre composto de uma quinta justa (sol-dó) - que é o intervalo que a gente ouve logo no começo da peça em seu mergulho inicial - sendo seguido por uma segunda maior (dó-ré), que faz um ligeiro equilíbrio de compensação, subindo (aliás, uma antiga regra de contraponto, os saltos melódicos devem ser compensados).
Esse gesto inicial de mergulho reconhece a loucura própria, 'só louco', e dá o tom expressivo da canção. Apesar do clima dissonante que a harmonia confere à canção, vale notar que a melodia utiliza apenas as 7 notas da escala diatônica maior. As 53 notas da canção são um arranjo de repetições dessas sete notas. É justamente na originalidade e simplicidade desse desenho e dessa construção que reside o gênio de Caymmi. Não dá para trocar uma nota sem perder qualidade.
O motivo característico da canção - quinta justa e segunda maior - organiza todo o discurso musical, mesmo quando não aparece de forma explícita. Ele é o responsável pela sensação suspensiva das sonoridades da canção, a segunda faz um certo bloqueio das terças, que dariam estabilidade aos acordes assim formados, tornando palpável, digo, audível, o estado de espírito desse eu lírico caymminiano, que tanto sofre como goza com o reconhecimento de sua própria condição.
Não importa se o compositor armou intencionalmente esse plano estrutural em detalhe ou se foi guiado pelo seu ouvido privilegiado. No exemplo abaixo dois importantes gestos da peça são 'traduzidos' em termos da presença dos motivos de quinta e segunda. O primeiro deles ('a'), em termos harmônicos aparece como um acorde de sétima maior, mas vemos que o acorde também pode ser apresentado como dois motivos básicos (em 'b'). O mesmo vale para o segundo gesto.
Ex. 2

Na verdade, todos os gestos da canção podem ser remetidos a esse tipo de análise, mostrando a força da construção melódica em Caymmi.
Curiosamente, a única vez que o gesto básico aparece sem o texto característico ('só louco') é quase no final, em 'é preciso amar', a meu ver o outro umbigo temático da canção, a inevitabilidade. A última aparição do gesto coloca-o de forma invertida (quinta ascendente e segunda descendente, um outro recurso do contraponto), preparando o terreno para retornar ao mergulho inicial.
Ainda no exemplo acima, mostramos a simetria entre o gesto inicial e o gesto final (veja em 'e'). Esse é basicamente o âmbito da melodia, organizado por essas duas quintas partindo da nota sol, uma descendente, outra ascendente.
Em termos de dinâmica energética da melodia, a canção começa atingindo o fundo do poço, dó, sua nota mais grave, e vai ascendendo de forma intensa e progressiva através dos versos 'amou como eu amei' e 'quis o bem que eu quis'. A melodia sobe, mas utiliza as quintas descendentes do 'só louco' como estratégia de aumentar a tensão da subida.
Atinge um clímax ao final do verso 'quis o bem que eu quis', mas logo o substitui por outro mais intenso ainda, marcado pela interjeição 'Oh', nota mais aguda da canção. (Caymmi canta 'Oh', e Gal canta 'Ah, insensato coração!).
Daí em diante a melodia desce, reconhecendo que o coração é insensato e faz sofrer. Em suma: uma gangorra que começa lá de baixo e vai subindo até que a percepção da insensatez exige uma outra direção. O desenho energético da melodia reflete a mesma dualidade e gangorra entre amor/loucura e inevitabilidade/desejo. Algo que, aliás, também está anunciado no próprio motivo.
O último gráfico analítico apresenta todos os motivos de 5ª e 2ª gerados pela melodia (pentagrama inferior), mostrando que são a totalidade das quintas justas disponíveis na escala maior (a tonalidade de Dó foi escolhida para tornar mais fácil a compreensão das idéias apresentadas).
Ex. 3

Muitos anos de vida!
Terra Magazine