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Terça, 29 de abril de 2008, 08h56 Atualizada às 09h08

Pai de Liana: mídia cobre caso porque dá dinheiro

Diego Salmen

Novembro de 2003. O casal de estudantes Liana Friedenbach e Felipe Caffé é encontrado morto num sítio em Embu-Guaçu, a cerca de 50 km da cidade de São Paulo. Ambos foram mortos pelo adolescente Champinha, de apenas 16 anos. O crime revolta a população.

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Abril de 2008. A morte da menina Isabella, de 5 anos, domina as páginas dos jornais e choca a sociedade. Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da vítima, são os principais suspeitos. Populares esbravejam contra o casal; até agora não há, contudo, provas conclusivas sobre a autoria do assassinato.

Situações distintas, reações semelhantes. Ontem, como hoje, crimes que sensibilizam a audiência ganham cobertura extensiva da imprensa e geram sentimentos variados pelos quatro cantos do país.

Para falar sobre a comoção gerada pelo caso Isabella, Terra Magazine conversa com o advogado Ari Friedenbach, pai da estudante Liana, morta em 2003 ao lado do namorado. À época, Friedenbach recebeu o apoio de ministros, parlamentares e personalidades do mundo artístico.

- Eu vejo com uma certa preocupação a banalização da violência - afirma o advogado, em referência à atuação da imprensa no caso.

Friedenbach critica a exploração da mídia:

- Eu tenho notícia de pelo menos dois casos de extrema violência em âmbito familiar que ocorreram nessas últimas duas semanas e que não ganharam uma linha de jornal.

Leia a seguir a entrevista com Ari Friedenbach:

Terra Magazine - Como a imprensa influencia quem está envolvido numa situação dessas?
Ari Friedenbach -
O trabalho da imprensa é fundamental nesses casos, porque ela tem um papel muito importante em pressionar para que as soluções sejam alcançadas e para que não deixe o fato cair no esquecimento. Por outro lado, eu vejo com uma certa preocupação a banalização da violência. Eu tenho notícia de pelo menos dois casos de extrema violência em âmbito familiar que ocorreram nessas últimas duas semanas e que não ganharam uma linha de jornal. São tão violentos quanto (o caso Isabella). Um dos casos é o da menina Fernanda, que foi esfaqueada pelo namorado da mãe. Isso foi aqui em São Paulo. Eu sei porque eu estive com a família. E tem o outro caso cujos detalhes não me lembro agora. Então é muito preocupante. Como disse o Arnaldo Jabor numa crônica nessa semana, a gente está criando uma "pele de rinoceronte". É um caso estarrecedor esse da menina, mas existem diversos casos tão graves quanto que não são noticiados. Isso me causa muita preocupação.

Por que o senhor acha que o caso da menina Isabella foi divulgado e outros semelhantes, como este que o senhor relata, não o são?
Eu sinceramente não tenho uma resposta definitiva. Mas, imagino eu que a imprensa se focou nesse caso (da menina Isabella), porque foi o primeiro que estourou, extremamente hediondo, e virou a grande notícia, abafou todo o resto. Se deixou de ver os escândalos de Brasília por um tempo, deixou de ver os desvios de verbas, essas coisas ficaram todas em segundo plano. E virou o assunto de primeira página por algumas semanas. A imprensa em geral é assim: como os escândalos, hoje é notícia e amanhã ninguém lembra mais.

O senhor atribui a quê essa comoção popular em torno do caso?
A primeira razão, bastante óbvia, é o fato de ter uma coisa, impensável até - muito pior que o caso da Suzane Richtofen, em que você tem uma filha matando o pai - que é o pai matando a filha. Isso é absolutamente inconcebível na cabeça de qualquer pessoa que raciocine. Além do que é um extravasamento da população com a indignação geral, é o momento em que todo mundo se junta para gritar por alguma razão quando na verdade a comoção social, a desgraça social é muito mais ampla.

Seria algo catártico...
Totalmente, totalmente.

Nesse sentido da comoção popular, qual o papel da imprensa? Não há uma "banalização", como o senhor disse, na cobertura?
Na verdade, qualquer rede de televisão que mede a audiência... Esse caso dá muito Ibope. O fato é esse, é uma coisa que vende, falando fria e cruamente: é um caso que vende muito. Eu acho que o enfoque da imprensa é vender, eles vendem para ganhar dinheiro, o jornal quer aumentar a tiragem, o site quer ter muitos acessos. É um assunto que comove absolutamente a população e é um produto que vende.

O excesso de atenção da imprensa e da população não atrapalha quem está envolvido numa situação dessas, como o senhor esteve há alguns anos?
Como familiar de vítima, num momento desses, você recebe apoios de todas as origens e isso é muito positivo para a família que está sofrendo um momento de extremo choque. No meu caso pessoal, a imprensa desempenhou seu papel com muito brilhantismo. Ela pressionou e respeitou quando teve que respeitar. Eu achei que foi uma cobertura muito responsável, muito útil, fez o papel maior da imprensa que é informar e pressionar as autoridades a buscarem soluções.

 

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