Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Luciano Borges

Sábado, 26 de abril de 2008, 07h42 Atualizada às 10h03

Marta: "Ouro era para ser nosso há muito tempo"

Luciano Borges
De São Paulo (SP)

Aeroporto Internacional de Guarulhos, quinta-feira, 17h15. Marta está na ala A do embarque internacional, "embalando" as duas malas que vai despachar no vôo de volta para a Suécia. A alagoana de Dois Riachos está preocupada com o conteúdo da bagagem: "Tem carne seca, feijão e lingüiça para fazer feijoada", contou.

Veja também:
» Assista à entrevista com Marta

No carrinho do Aeroporto, uma mochila com a marca do patrocinador das chuteiras e um estojo com um violão dentro. Marta gosta de música e vem aprendendo a tocar o instrumento há oito anos.

A melhor jogadora de futebol do mundo, pela FIFA, em 2006 e 2007 acabou de enfrentar uma maratona. Veio da China, desembarcou terça-feira em São Paulo, gravou dois comerciais para uma multinacional e voltou voando para a Europa.

Marta Vieira da Silva é chamada pelas colegas da seleção brasileira de futebol pelo apelido de "Zeferina". As meninas que ganharam medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas passaram a chamá-la assim depois do time assistir a uma reportagem com a fundista Maria Zeferina Baldaia, que teve infância pobre como Marta.

A atacante canhota é uma mulher engraçada. Tem tiradas rápidas e mexe o tempo todo com o empresário Fabiano Farah e o assessor de imprensa Felipe Bruno.

A atleta do Umea, finalista da Copa da Uefa pela segunda vez consecutiva, cumpriu mais compromissos promocionais assim que pisou em solo sueco. O contrato de Marta dura até novembro deste ano. Ela interessa a, segundo informação de Farah, "pelo menos cinco clubes de fora e do Brasil".

Antes de se decidir, ela vai esperar pela volta da Liga Profissional Americana, o que deve ser anunciado até dezembro. Há o interesse dos norte-americanos em levar a brasileira como grande estrela do futebol de mulheres no planeta.

Enquanto isso não acontece, Marta quer mesmo ganhar medalha de ouro nos Jogos de Pequim. Outra meta é ser eleita mais uma vez como a melhor do mundo. E, mais imediatamente, ser reconhecida pela feijoada que anda cozinhando nos últimos tempos.

Acompanhe agora, a conversa de Marta com o Terra Magazine, realizada em um bar do aeroporto, em meio a conversas com Fabiano e Felipe. Entre outras revelações, ela conta que a armadora Formiga é "fenomenal e no meio de campo não tem para ninguém".

Terra Magazine - Você ficou menos de três dias em São Paulo. Como você comprou a carne seca e o feijão preto?
Marta -
Ah, sempre que eu posso, eu compro. Desta vez eu fui com a Valeska, filha do Vanderlei Luxemburgo (técnico do Palmeiras) ao Mercado Municipal. Ela me levou para o cara com quem a família deles sempre compra carne seca, lingüiça e feijão preto.

Já tinha ido antes ao Mercado?
Não, foi a primeira vez.

Comeu pastel por lá?
Comi, comi! Tinha de bacalhau, de camarão e de carne.

Você sabe preparar uma feijoada?
Já fiz duas vezes. Deu certo. Quando eu fiz, eu liguei para uma amiga no Rio de Janeiro para pegar umas dicas. Ela me orienta por telefone. Levei as amigas do meu time e elas gostaram. A Elaine (Baiana) também já comeu e gostou. Ainda guardei na geladeira e comi depois. Estou melhorando na feijoada.

Em campo, você está aprimorando algum fundamento?
A perna direita. Estou chutando mais com a direita. Treino por decisão minha. Já marquei gols chutando com a direita. Um deles foi contra os Estados Unidos, no Mundial da China.

O que mais precisa melhorar?
Cabeça, talvez. Ah, sempre acho que tenho que melhorar tudo.

(O assessor de imprensa Felipe Bruno. lembra que Marta já marcou dois gols olímpicos em uma só partida do Umea e a jogadora diz que já fez "uns seis ou sete lá na Suécia")

Desde a Olimpíada de Atenas, a seleção brasileira não tem uma atacante de área, trombadora. Não faz falta?
A gente está jogando num esquema baseado no que a gente tem. O Brasil usa muito velocidade, lançamento longo. Não temos aquela jogadora que fica na área, pede a bola, escora para as outras que vem chegando. Somos mais de toque de bola rápido. Antes, a gente tinha a Kátia Cilene. Ela fazia muitos gols de cabeça, não era de vir buscar a bola. Ela é desse estilo e está bem, jogando lá no Lyon.

(Neste momento, Marta lembrou o repórter que o Umea acaba de eliminar o Lyon na semifinal da Copa da Uefa. Foram dois empates: 1 a 1 na França e 0 a 0 na Suécia. "Vamos fazer a final contra o Frankfurt da Birgit Prinz e da Renate Lingor", disse referindo-se às alemãs que enfrentou e para quem perdeu na final do Mundial da China.)

Pelo jeito, você vai ver as alemãs com muita freqüência até a Olimpíada.
Pois é, mas é tranqüilo. Achei bom a gente cair no mesmo grupo delas e ainda jogar na primeira partida. Se é para pegar a Alemanha, é melhor pegar logo. Aliás (fala para o empresário Fabiano Farah), sabia que eu tenho uma camisa da Alemanha? Tem meu nome escrito nas costas e tudo. É para lembrar onde vai ser o próximo Mundial.

Você tem notícias da seleção dos Estados Unidos?
A seleção americana sempre foi boa. A técnica delas agora é sueca e vai até o final da Olimpíada. É um time renovado, perigoso. Estamos tentando fazer dois amistosos contra elas nos Estados Unidos.

(Marta interrompe a resposta e olha para o relógio de Farah. Pergunta por um outro, que ela deu de presente. "A pulseira quebrou", explicou o empresário. "Eu tenho a garantia, vamos consertar", emendou a jogadora. Os dois conversam sobre o tamanho do exemplar que ele está usando. "É muito grande para meu pulso. Olha como meu braço é fino", diz Marta.)

Você gosta de relógios?
Gosto. Mas gosto mais de óculos do que de relógio. Adoro óculos. Sempre que dá, que sobra um dinheirinho, eu compro.

Quais suas vaidades?
Gosto de passar um creminho na pele. Quando ela está lá, ressecada, sempre é bom passar um creminho....como a gente fala mesmo...(o assessor Felipe ajuda) é isso, creme hidratante. O cabelo também. Ele tem que estar sempre bonitinho, arrumadinho.

Por falar em cabelo, você gostou do visual "black power" da Michael?
Estava grande né (risos). Acho que ela furou umas três bolas no treino só no cabeceio. Sabe o que aconteceu? A Michael tirou as fivelas e não deu tempo de refazer as tranças. O cabelo ficou assim, armado. Mas ela está linda. Sabe o que é? É que a Michael joga futebol. Se uma modelo internacional usasse o cabelo como ela, iam achar chique.

E você, está gostando da vida de garota-propaganda?
Cansativa, mas é legal, show de bola. E dá para ganhar um dinheirinho também. A gente tem que saber lidar com estas coisas. Antes era mais tranqüilo, hoje é mais estressante, mas é bom ao mesmo tempo. Eu vou chegar amanhã e já vou participar de um evento na Suécia. Vou lá dar autógrafos, falar com as pessoas. E a empresa nem é patrocinadora do Umea. Vou assim mesmo porque o clube pediu.

(O repórter diz que Marta está mais solta, falando mais, e pergunta se isso é novidade. O empresário garante que não: "Com as pessoas mais chegadas, ela é muito divertida". O assessor Felipe emenda, brincando: "Ela está bem orientada". Marta ri e diz que é - de fato - mais faladora quando está com os amigos)

Esta história do violão. Você toca há muito tempo?
É o seguinte. Quando eu jogava no Vasco da Gama (2000), eu já tinha aquela vontade de aprender a tocar violão. E tinha uma preparadora física do Sub-19 que sabia tocar. Aí pedi para ela me dar aulas. No começo, ela me ensinou três notas - o lá, o ré e o sol - e comecei a tocar no violão dela mesmo. Depois comprei revistinhas com cifras e fui tirando música.

(Sempre mostrando com as mãos as posições dos dedos nos acordes, Marta revela uma história que pegou de surpresa até o empresário, que cuida dela há anos. "Quando eu era pequena, lá em Dois Córregos, eu pegava uma tábua, pregava três pregos de cada lado e colocava linhas de anzol. Depois eu ficava lá, fingindo que tocava violão", disse. Fabiano ainda perguntou: "Mas dava para tocar música?" e Marta respondeu com ar zombeteiro: "Não, né. Só dava para ficar lá passando os dedos nas cordas")

Mas você tira músicas de ouvido ou acompanha as cifras?
As duas coisas. Fui pegando o jeito e sempre ensaiava lá na seleção brasileira. Aí, na Páscoa de 2002, ganhei meu primeiro violão. Quem me deu foi a (meia) Daniela Alves. Tenho até hoje.

Você já tem bom repertório?
Sei algumas músicas, né. Mas já sei (Marta mostra com os dedos no ar, acordes imaginários) fazer pestana. Sei tocar todas as notas. Tem umas que são fogo. Tem músicas da Ana Carolina e do Djavan que são muito difíceis. Não toco constantemente, mas já pratico há seis anos.

Você apareceu no Corinthians e disse que não pretende jogar lá agora.
Não, não foi isso...

(O assessor Felipe diz que Marta respondeu à pergunta se ela pensava em "encerrar a carreira" no Corinthians. "A Marta tem 21 anos e já perguntam sobre o final da carreira". Juntos, Marta, Fabiano e Felipe calculam que ela ainda vai disputar mais três Mundiais. "Dá para jogar com 30 anos ou mais", disse a jogadora.)

Então, vamos a pergunta que não foi feita: o Corinthians quer trazê-la no segundo semestre. É possível? Você gostaria?
É lógico que seria uma coisa legal. Quem não sabe que sou corintiana? Seria uma honra. Mas não para agora. Ainda tem muito chão pela frente.

E a possibilidade de você se transferir para um time da Liga dos Estados Unidos?
Vai ser muito bom se a Liga lá voltar a ser profissional. Vai ser mais um espaço no mercado não só para mim, mas para as meninas do Brasil. Se voltar a Liga profissional americana, o futebol feminino vai ganhar força. Vai ser legal.

(Fabiano Farah explica que seis novas franquias estão prontas para entrar na Liga profissional, assim que ela for reativada. Ele já vem conversando com dirigentes dos EUA sobre Marta. Ela é considerada a sucessora natural da estrela Mia Hamm e, por causa da idade, pode se tornar um investimento seguro por, pelo menos, 10 anos. "Ela vai ser o maior contrato de toda a história do futebol feminino", afirmou. Ao ouvir essa afirmação, Marta falou: "É ele que está dizendo")

Em 2004, você só se juntou à seleção brasileira na fase final de preparação. Para Pequim, você vai treinar mais cedo?
Então, a gente está conversando sobre isso. A seleção está vendo com meu clube, mas na verdade eu não sei te responder esta pergunta agora porque ainda não tem uma solução. A gente está tentando levar a seleção para fazer a a preparação final na Suécia, como a gente fez em 2004 e no ano passado. Nesse caso, se isso acontecer, vai facilitar minha apresentação.

O time do Brasil é time para ganhar medalha de ouro?
Claro. A gente já vem mostrando isso há algum tempo. Não é de agora. A gente já fez um bom trabalho em 2004, em Atenas, e no ano passado no Mundial. Esse ano a gente vai com toda a força para buscar esta medalha que já era para ser nossa há muito tempo.

Se a Marta não jogasse na seleção brasileira, qual jogadora do time do Brasil ela apontaria como a melhor?
A seleção está evoluindo bastante, tem grandes jogadoras. Para especificar alguma assim, é complicado. Gosto da Formiga (meia), da Cristiane (atacante), da Daniela Alves (meia)...mas assim, tipo..., é complicado...mas acho que a Formiga é fenomenal. No meio de campo não tem pra ninguém.


Luciano Borges é editor-chefe do Bandsports e autor do Blog do Boleiro.


Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Luciano Borges vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela