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Segunda, 28 de abril de 2008, 07h50 Atualizada às 13h24

A montanha dos abutres

Márcio Alemão
De São Paulo

Imagino as comemorações na mídia no dia em que a terra paulistana tremeu.

- Isabella e, na seqüência, um terremotozinho.
- Nunca tivemos um primeiro semestre tão bom.
- Em tempo: ainda tem gente morrendo por conta da dengue lá no Rio?
- Acredito que sim, mas não tem assunto mais aborrecido no momento.
- Não cuspa no prato que comeu, meu caro. A qualquer momento o mosquitinho pode voltar a nos ajudar.

Recomendo vivamente, para esses nossos dias, o filme escrito e dirigido pelo mestre Billy Wilder, de 1951, por aqui traduzido como A Montanha dos Sete Abutres. No filme, Kirk Douglas é um reporter encrenqueiro que sai de vários jornais e acaba encontrando emprego em um pequeno jornal em uma pequena cidade. Resumão: a caminho de uma matéria besta, inútil, desnecessária, como aquelas que falam sobre a vida amorosa de Adriane Galisteu, a sorte grande vem ao seu encontro. Uma mina desaba e um sobrevivente luta para se manter vivo enquanto homens trabalham para retirá-lo de lá.

Kirk consegue entrar na mina e conversar com o homem. Kirk, ao longo dos dias, vai explorando, sugando aquele fato, aquela tragédia. Em outras palavras, vê na desgraça do mineiro a grande chance para sair­ ele, o repórter, não o mineiro,­ daquela pequena cidade e voltar a assumir um bom cargo em um bom jornal, em uma boa cidade. Nas boas locadoras, esse filme é facilmente encontrado.

De volta ao terremoto, Nascimento, no SBT, cortava um doze para conseguir, ao vivo, depoimentos de "vítimas". Na falta delas, contentava-se com telefonemas sensacionais nos quais ouvíamos algumas pessoas afirmarem que "sim, eu senti que alguma coisa tremeu mas passou logo". Ele insistia. Queria muito que alguém tivesse, ao menos, esfolado o joelho na quina de uma mesa. Nenhuma ocorrência desse tipo apareceu até o momento que acompanhei a cobertura.

Obviamente tivemos o parecer de especialistas, sismologistas. Também esses não queriam colaborar. Nenhum deles saiu gritando: "corram, protejam-se! São Paulo acaba de se transformar num importante pólo gerador de tremores. Talvez o mais importante da América Latina".

No rádio ouvi um repórter concluir -­ coisa que não deveria fazer­ - que existe a possibilidade de vir a ocorrer outros tremores no estado. Ele perguntou ao especialista sobre a possibilidade e o especialista disse que não via grande chance. Mas ele foi insistindo. Em certo momento, ainda que a chance fosse de 1 para um milhão, deu-se por satisfeito e nos alertou.

E de passagem por um aparelho de TV, outro repórter pergunta a um bombeiro: "No caso de mais um tremor, o que a a pessoa deve fazer para se proteger?". O bombeiro, com toda sua vasta experiência em tremores, enrolou aqui, ali e eu decidi que não daria mais 2 segundos de audiência para aquele programa.

Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar.

Fale com Márcio Alemão: marcio.alemao@terra.com.br

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