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Segunda, 28 de abril de 2008, 08h07 Atualizada às 08h12

Idéias soltas sobre a singularidade do terror

Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)

A história absurda que ganhou a capa dos principais jornais do mundo ontem foi a do austríaco de setenta e três anos que manteve a filha cativa durante vinte quatro anos, violentando-a sistematicamente desde que ela tinha onze anos de idade. Ela disse à Polícia que deu luz a sete crianças, sendo que uma delas teria falecido por falta de cuidados médicos.

Quando eu estava na Nova Zelândia, em fevereiro deste ano, li no principal jornal de Auckland a notícia sobre um casal que torturou o próprio filho, um bebê, colocou-o no forno microondas, na máquina de lavar e por aí vai até matá-lo. Como essas, há outras histórias de perversidade acontecendo neste exato momento mundo a fora e, o que é pior, numa quantidade tal que a imprensa já nem se preocupa em noticiar todas.

O terror e a brutalidade são constantes. A literatura é a arte que talvez explore isso da maneira menos leviana. Citaria com facilidade cinqüenta livros famosos que tratam do lado mau da existência humana. Ainda assim, são raríssimas as vezes que a ficção supera a selvageria da realidade.

Maldade é uma falta de lucidez. Esse austríaco teve vinte e quatro anos para se dar da conta da crueldade que estava praticando e ainda assim não a interrompeu.

Não estranho a comoção e o reboliço do caso Isabella. Sei que a imprensa explora até onde pode, sei que há uma necessidade prática (e coletiva) de atribuir o rótulo de terror a alguns fatos (e não a vários) que o mantenham circunscrito na singularidade a que está condenado, é uma questão de importância circunstancial.

Fico me perguntando que critério midiático seleciona o terror se ele está aí tão espalhado (e, tecnologicamente, tão facilmente captável).

Penso a respeito do que é possível transigir.

Na ficção - verossimilhanças à parte - pelo menos alguma justificativa plausível, necessariamente, deverá aparecer.

Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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