
Atualizada às 08h12 Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)
A história absurda que ganhou a capa dos principais jornais do mundo ontem foi a do austríaco de setenta e três anos que manteve a filha cativa durante vinte quatro anos, violentando-a sistematicamente desde que ela tinha onze anos de idade. Ela disse à Polícia que deu luz a sete crianças, sendo que uma delas teria falecido por falta de cuidados médicos.
Quando eu estava na Nova Zelândia, em fevereiro deste ano, li no principal jornal de Auckland a notícia sobre um casal que torturou o próprio filho, um bebê, colocou-o no forno microondas, na máquina de lavar e por aí vai até matá-lo. Como essas, há outras histórias de perversidade acontecendo neste exato momento mundo a fora e, o que é pior, numa quantidade tal que a imprensa já nem se preocupa em noticiar todas.
O terror e a brutalidade são constantes. A literatura é a arte que talvez explore isso da maneira menos leviana. Citaria com facilidade cinqüenta livros famosos que tratam do lado mau da existência humana. Ainda assim, são raríssimas as vezes que a ficção supera a selvageria da realidade.
Maldade é uma falta de lucidez. Esse austríaco teve vinte e quatro anos para se dar da conta da crueldade que estava praticando e ainda assim não a interrompeu.
Não estranho a comoção e o reboliço do caso Isabella. Sei que a imprensa explora até onde pode, sei que há uma necessidade prática (e coletiva) de atribuir o rótulo de terror a alguns fatos (e não a vários) que o mantenham circunscrito na singularidade a que está condenado, é uma questão de importância circunstancial.
Fico me perguntando que critério midiático seleciona o terror se ele está aí tão espalhado (e, tecnologicamente, tão facilmente captável).
Penso a respeito do que é possível transigir.
Na ficção - verossimilhanças à parte - pelo menos alguma justificativa plausível, necessariamente, deverá aparecer.
Terra Magazine