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Terça, 29 de abril de 2008, 07h55

A Forma Improvável (parte 5)

João Carlos Salles
De Salvador (BA)

O tempo em Drummond é "de roer até os mortos". No poema, o tempo modifica lentamente o sentido das proposições que repete, comprometendo sua verdade e sua consistência. E nada mais natural, afinal de contas, uma das exigências formais da correção dos discursos costuma importar na supressão do tempo. A repetição não conserva, dissolve.

Leia também:
» A Forma Improvável (parte 1)
» A Forma Improvável (parte 2)
» A Forma Improvável (parte 3)
» A Forma Improvável (parte 4)

O tempo frustra no amor o que lhe seria próprio e que, entretanto, só ele pode realizar. Se o amor envolve procura, carência ou doação, elevação, movimento em direção ao belo ou ao bom, a um outro (ou porventura a um si-mesmo), é essencial a seu conceito, dela dependendo portanto seu possível realizar-se, alguma dilação, alguma temporalidade. Por isso mesmo, sempre são inadequadas e absurdas nossas tentativas de aplicar ao não-temporal nossas medidas. Em nenhum dos sentidos apreensíveis por nós ou enunciáveis na precariedade discursiva de nossa linguagem, podemos mensurar o eterno, sendo um contra-senso ousar dizer d'Ele que deseja, quer ou ama.

Instalado porém no tempo e nele vivido, o amor distende-o, multiplica-lhe as ambigüidades, uma vez que a doação do amor nunca é incondicionada, não podendo apagar sua gênese luminosa os seus efeitos, inclusive os elementos de produção de uma identidade narcísica, em que o ser se reconhece ou se enxerga em sua satisfação e se satisfaz por seu reconhecimento.

Uma analogia pode ser esclarecedora. No universo da mitologia grega, a virgindade é elemento por demais ambíguo, cristalizando a virgem, "nela mesma, exatamente o interdito terrível do que é feminino no próprio feminino". De modo análogo, o poema de Drummond descreve-nos uma interdição, resultante esta porém do envelhecimento, que parece subtrair ao masculino sua masculinidade. O tempo urde a trama por que o corpo se afasta de si próprio; e o lugar do amor fora do tempo, ou melhor, a exposição de um amor necessário fora de sua possibilidade de realização afigura-se um jogo que se não resolve em regras, desafiando então a linguagem que o expressa.

Com tal analogia, não pretendemos sugerir que o poeta, em mais um exemplo de estilo mesclado, trate de modo sublime no poema o tema algo vulgar do declínio de suas forças. O que pelo poema se universaliza ao encontrar fecunda expressão é um amor a ser vivido dentro e fora do seu tempo, com os vários e ambíguos matizes que tal comprometimento mútuo comporta. E tolo seria esperar que essa fecundidade fosse redutível a uma única leitura.

Um poema que se inicia por uma promessa de redenção, mas termina em afirmativo embaraço, incapacidade enfim de recusa da dádiva que se impõe e constrange, também porque justa, porque capaz de vitalizar o poeta, de torná-lo espaçoso, radioso, devolvendo-lhe de um só golpe o próprio sentido e o sentido do mundo. O amor ocorre, mas compromete-se pelo tempo da ocorrência. Ser tardio não é um predicado acidental, nem o tempo uma sua medida externa, um padrão vazio. Ser fora do tempo, ou melhor, realizar-se por um deslocamento, um desvio de uma sua condição substancial, impõe extraordinário esforço ao amor e ao indivíduo doravante ameaçado que suporta sua precária identidade. É preciso, pois, para fugir à interdição, aceitá-la - o precário do amor exibe a anterior precariedade do indivíduo; nesse caso, é preciso aceitar a identidade nova, imperfeita mas desejada, e ir viver com seus despojos, entre deliciado e confuso, fora do tempo.

João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.


Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

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