
Atualizada às 15h03 Amilcar Bettega
De Paris
Estava tudo muito escuro. Era tudo muito escuro e ele pensou que estivesse sonhando e que ainda dentro do sonho percebia que aquilo era um sonho - e por isso se tranqüilizou.
Mas foi por pouco tempo, porque tudo continuava escuro. Sentia os braços e as pernas presos, sentia que estava numa mesma posição havia muito tempo e que alguma dormência já dominava seu corpo. Sentia que gastava uma grande força para sair daquilo que em tudo parecia sonho mas que ele viu que não era sonho quando teve certeza de que estava de olhos abertos e ainda assim não via nada.
As pestanas roçavam qualquer coisa quando piscava, depois cresceu o calor no rosto, a textura grossa do cobertor contra o rosto e ele entendeu que, por estranhos movimentos durante o sono ficara imobilizado dentro de uma escuridão morna e sem ar, que o pressionava por todos os lados e o deixava assim encolhido: o queixo contra o peito, a coluna arqueada e os joelhos dobrados, doendo um contra o outro. Tentou espichar o tronco e as pernas, forçou os músculos o quanto pôde mas não foi além de um suspiro fundo, como quem cai já estando caído. Tinha uma urgente necessidade de distender-se inteiro mas sentia-se como que comprimido dentro de uma cápsula estanque; teve a sensação que devia ter, ele imaginou, um pedaço de carne embalado à vácuo.
Com pequenos e insistentes movimentos da mão, que apesar do pulso preso conseguia movimentar-se com alguma liberdade, alcançou a borda do cobertor e deixou escorregá-la para fora, sentindo sobre ela um frescor - na verdade foi frio, mas um frio que o confortava - e foi como se de repente respirasse pela mão, como se a sua mão ali fora inspirasse um ar novo que lhe restituía a calma nos pulmões.
Deixou a mão repousada sobre a cabeça ainda envolvida pelo cobertor, o que lhe trouxe a imagem de uma alga dormente sobre a rocha à beira do mar. Ou uma mancha de musgo. Com essa imagem da alga - ou do musgo - na cabeça, tateou até encontrar um bom lugar na borda do cobertor que lhe permitisse agarrar-se com firmeza e, ao mesmo tempo, que se adequasse à posição do braço a fim de poder fazer o movimento de rotação de todo o corpo para que as abas do cobertor se desprendessem de onde estivessem presas.
E assim o fez. Com um rápido mas penoso giro do corpo inteiro, livrou a cabeça do cobertor. Ao mesmo tempo soltou um gemido que assustou a si próprio, com a sensação de que emergia de um longo mergulho, de que finalmente respirava, de que somente agora respirava.
Teve uma rápida vertigem, arregalou os olhos, continuava tudo escuro. Levou desesperadamente a mão à janela que ficava mesmo ao lado da cama. Tateou até encontrar o trinco e, enfim, escancarou a janela.
E viu, definitivamente, que tudo estava muito escuro.
Terra Magazine