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Quarta, 30 de abril de 2008, 07h59 Atualizada às 21h48

Diário de uma viagem ao Amazonas (III)

Reprodução
Casa e açaizeiros.  Rio Madeira, Amazonas. Desenho a caneta esferográfica feito durante a viagem, dos cadernos de anotações de José Cláudio
Casa e açaizeiros. Rio Madeira, Amazonas. Desenho a caneta esferográfica feito durante a viagem, dos cadernos de anotações de José Cláudio

José Cláudio
Do Recife (PE)

Vanzolini disse que no Acre, em Cruzeiro do Sul, tem abacaxi de 15 kg. Na certa ele quer que eu saia dizendo que vi, porque uma vez ele dsse que nordestino toda história que ouve diz que se passou com ele.

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Deitada na beira do rio de uma linha de mais de vinte metros de pau-d'arco. Castanheiro chega a trinta. Na aldeia munducuru conversei com uma indiazinha que era cópia fiel de minha sobrinha Andréa, sendo a cor mais queimada. Podia ter quatro anos. Eu estava na beira, em terra, tinha tomado banho no rio, me sentei numa árvore cujo tronco fazia um arco em cima da água, diz Filomeno que era mari-mari, porque no barco fazia um calor danado. Ela chegou e sentou-se junto de mim, bem gorduchinha. Começou a escavar o chão com um gravetinho e cantar: "Bilu, bilu, bilu, bilu tetéia". Como é o seu nome? - eu perguntei. "Cátia." Mas não subimos mesmo até as casas porque o agente da Funai não estava, só a enfermeira, uma moça da região.

Só se fala aqui em tracajá, em irapuca. Tem cavalo treinado em levar o vaqueiro onde tem tracajá e boi marrequeiro que vai comendo capim como quem não quer nada e o caçador atrás. Assim se aproximam das marrecas. Mas isso no Pará, ou em Marajó.

Quem mexeu com o governo para salvar os bichos de casco do Rio Trombetas, que descobriu que era o maior tabuleiro de tartarugas do Brasil, foi Vanzolini.

É costume ao atracarmos num povoado os nativos subirem para visitar o barco. "Quando um barco chega e a gente não sabe o que é, quem sabe, pode haver algma coisa que interesse", explicou um deles.

O cozinheiro é bom no picadinho de carne de charque com cará-roxo. Hoje está preparando um jabuti. Vamos ver. Quem abriu ele foi Filomeno com o serrote. Eu fiz um risco da cena.

Maués, capital do guaraná. Quando o padre saiu, virou-se e disse: "Maués, mau foste, mau serás."

Estamos saindo do Furo do Canumã. Mais ou menos dez da manhã. Entrando de volta no Rio Madeira. Dia, não sei.

As cidades mais importantes do Pará depois de Belém são Santarém, Óbidos, Breves, Almerim, Abaetetuba, Monte Alegre, Oriximiná, diz Filomeno. Encantadora mistura de nomes portugueses com tupi-guarani. No Amazonas, depois de Manaus é Itacoatiara. Fica no Rio Amazonas.

Essa aldeia que fomos ontem os índios quando eram selvagens eram eméritos mumificadores de cabeça humana. Caçadores, trabalhavam bem com fumaça. Eram cabeças defumadas, em tamanho natural.

A madeira do barco é itaúba. É escura, dura, tem fibra cacheada às vezes, trançada, feito a oiticica.

O macho de jabuti chama-se carumbé, e no Purus o macho do tracajá, joão-prego. O jabuti macho tem uma cavidade embaixo para encaixar em cima do casco da fêmea, mas o que abriram hoje tinha a baixa mas era fêmea, estava cheia de ovos como galinha.

Vanzolini está limpando o casco do jabuti. Nós estamos indo para Borba.

Quando passávamos pela Ilha do Guaxinim, já chegando a Anexim, Vanzolini gritou: "Olha o cheiro de jabota!" Era a "jabutiá" que estava cozinhando.

Foi o mamão mais saboroso que eu já comi em toda a minha vida. Era amarelo quase vermelho, mas parecia cor de mamão passado, amarelo bem vivo, cor de concriz. E o jabuti Vanzolini disse que tinha de ser na panela de pressão senão leva sete horas no fogo. Eu comi mesmo daquelas partes do couro das patas preto salpicado de botões vermelhos. Tem gosto de caça, de pé de porco, de galinha, e comi dois ovinhos e os miúdos. A carne veio traçada com pedaços de maxixe e jerimum. "O cozinheiro é bom", Vanzolini disse.

Eu comi o mamão com semente e tudo. Não era grande, era tamanho de um coco e dava para morder meia fatia de uma vez. Chica disse que não gostava de mamão aí eu pedi licença para comer o pedaço dela.

Hoje, Dia de Todos os Santos, já é a segunda noite que vamos dormir em Borba. Vou mandar um cartão para Hermilo Borba. Chegamos ontem de tarde. Encostamos junto de um barco de passageiro com dois andares de redes armadas, moças de short e bustier, tipo índio predominante. Alguns passageiros estavam brincando na água do rio. O casal de americanos saiu e pegaram muitas rãs. Vanzolini pegou um jacaré tinga de uns três palmos que hoje de manhã pintei. Correu a notícia de que se comprava calango e quando Vanzolini chegou já parecia um circo, dezenas de meninos atrás dele. O delegado veio a bordo pedir maiores informações. Hoje foi chegar um menino atrás do outro oferecendo calango, largatixa, que aqui chamam osga, e a novidade foi um "motor" que veio carregado de tracajás de vários tamanhos e um enorme cabeçudo, que pintei, de uns três palmos. Cabeçudo é um bicho-de-casco, como prefere dizer Vanzolini e o povo da região, a tartaruga, porque o cabeçudo, como o tracajá, e outros, não são tartarugas. Vanzolini comprou além do cabeçudo dois tracajás grandes de dois palmos e mantas de carne de paca, que comemos agora no jantar. Peixe aqui é de dar com o pau. Basta o cozinheiro abrir a torneira da pia da cozinha que já ficam pulando no lugar que a água cai. Os meninos passaram o dia levantando bagre, que aqui não é pescar, é só levantar. As canoas de vez em quando encostavam oferecendo tucunaré e jaraqui, que comemos no jantar com feijão e arroz junto com a paca. Subi o barranco e fui por uma ponte de pau em casa de um velho que faz remos, porque os acho bonitos aqui no Amazonas. Comprei dois do tipo rabo-de-peixe-boi e um pião. Queria comprar um do que vi uma moça com ele, com uma pá de dois lances, como se fosse um violão ponteagudo mas não achei. Passando pela ponte a vista é uma beleza, as casas bem diferentes, bem amazônicas, em cima de estacas, de tábuas, molduras e frisos recortados caprichosamente a serrote, ou de palha que mesmo depois de seca é amarela, algumas com parede somente do meio para trás, paredes de tábuas ou palha. "No geral a parede é de buçu mas há grande refinamento na escolha do material de construção", diz Vanzolini. Os remos que comprei são de itaúba e araru. Ia escrever para casa e mandar algum cartão, mas, sábado, Vanzolini me aconselhou a deixar para segunda-feira. Vi muito pé de açaí, castanheiro e mil outras árvores que não conheço. Num quintal tinha um pé de cuia que usam para tirar água da canoa. Vanzolini sai para apanhar lagartos com um facão na cintura e uma pilha no meio da testa quando de noite.

Um menino pega a gritar "ai ai ai". Foi um mandi que lhe espertou o esporão no meio da sola do pé. Ele gritava ao mesmo tempo "ai ai ai" e "não quero que ninguém puxe não". Mas Alonso foi e puxou, e o cozinheiro deu um limão a João para passar.

Hoje, dia de finados, subi o barranco e fui andar pela cidadezinha de Borba. É até grandinha. O cemitério é maior do que fogo de velas e a missa sendo celebrada e respondida pela população, do mesmo colorido das missas campais de Ipojuca. Parecia que numa covinha daquelas, um montinho de terra com uma cruzinha fincada e velhinhas brilhando estava parente, ou eu mesmo. Borba parece Ipojuca qundo não havia carro. Oh beleza andar numa rua! Em vez de rua é uma segunda calçada igualmente alisada com colher de pedreiro. A maioria das casas é de tábuas e por cima dos perfis aparecem as hastes delicadíssimas dos açaizeiros. Tomei na pracinha com gente escassa uma cuinha de tacacá, o primeiro da minha vida. Depois a mulher acedeu em vender-me a cuiazinha histórica, que vou levar para léo ou mamãe. Na volta do cemitério a dona do bar Caiçara me deu um copo de suco de açaí, que chamam vinho. Uma menininha mangando de um menino gritou "Avua, passarinho, avua!" Quando estava tomando o tacacá uma velha aproximou-se umas três vezes ora para pedir mais jambu, ora tucupi, ora pimenta, até que a mulher disse: "Não." Ela olhou para a mulher, deu um muxoxo e disse: "Presumida." Tinha um velho na esquina da rua que dá para o barranco onde estamos com o barco que falava sozinho. Eu passei junto para ouvir o que dizia: "Cadê meu amor que não vem?..." O jantar no barco foi um banquete amazônico: jarati ticado (chama-se ticar dar uns talinhos de milímetro em milímetro transversais ao longo do dorso do peixe até a cauda, que quando se frita, as espinhas somem), sarapatel de cabeçudo, carne de tracajá e paca assada de que levamos umas mantas penduradas numa vara amarrada uma ponta no pau da bandeira e a outra assentada em cima do galinheiro do Lindolfo. Somado com o tacacá que tomei na praça e o açaí que a dona do bar me deu, Dna. Mundica, fui dormir com a Amazônia na barriga.

Este texto está no caderno de anotações de José Cláudio, escrito em 1975. O suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco o publicou em abril de 2007.


José Cláudio é pintor, autor dos livros Meu pai não viu minha glória e Bem dentro. Reside em Olinda.

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