
Atualizada às 16h35 |
Carol Barreto/Divulgação
A travesti Tâmara, ou Ariell Close, retratada pela estilista Carol Barreto, foi assassinada em sua residência durante a elaboração da mostra. Barreto dedica a exposição a todas as travestis com as quais conviveu por um ano
|
Thais Bilenky
A reação do fenômeno do futebol Ronaldo às acusações do travesti André Luís Ribeiro Albertino, ou Andréia Albertini, é muito comum, diz a pesquisadora Carol Barreto, que há um ano convive com "meninas" da Associação de Travestis de Salvador (ATRAS) e defende tese de mestrado sobre o gênero. Ronaldo se diz vítima de armação e tentativa de extorsão pelo travesti, que por sua vez o acusa de não ter pago o prgrama que teriam feito na madrugada de domingo para segunda-feira passados, no Rio de Janeiro.
Barreto afirma que não são raros casos como o que se aponta a Ronaldo, em que o cliente faz o programa com um travesti e, quando acaba, não quer pagar. "Aí eles chamam a polícia e dizem que ela foi quem o roubou", acusa. "É uma maneira fácil de justificar a opção sexual". A estilista está com exposição de fotografias (como esta acima) que retratam hábitos de travestis em cartaz em Salvador. A mostra "Trans: registros de um redesenho mútuo" resulta da pesquisa levantada para programa de pós-graduação da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA).
O episódio
Ronaldo, atacante do Milan, no Brasil para tratar do joelho, domingo dia 27, assistiu a um jogo de futebol no Maracanã, depois foi a uma boate e, na saída, procurou uma "prostituta" para "extravasar". Ele e o travesti Albertino - ou Albertini - foram a um motel, mas se desentenderam e acabaram na delegacia. André alega que Ronaldo não quis pagar o programa e sustenta que ele estava drogado. O jogador diz que não sabia que André não fosse mulher e o acusa de tentar arrancar-lhe 50 mil reais e enganá-lo, inclusive chamando duas amigas, também travestis, ao motel.
A pesquisadora ressalta que muitos homens, por problemas com a própria sexualidade, adotam posturas preconceituosas com os parceiros que eventualmente procuram. Sem se aproximar emocionalmente dos travestis, clientes se aproveitam da "imagem desfocada do grupo" para incriminá-los. Mas, ela atesta, se o julgamento moral é preconceituoso, o julgamento físico que se faz no "trottoir" não é dotado de tão pouco conhecimento da causa:
- O cliente, seja ele famoso ou não, que se envolve com um travesti sabe diferenciá-lo de uma mulher. É visível a ambigüidade do gênero. Não seria fácil (um travesti) se passar por mulher. E quem freqüenta pontos de prostituição e contrata os serviços sabe onde procurar por uns e outros porque não ficam no mesmo lugar.
Modelos fotográficos
O ensaio fotográfico de Carol Barreto aborda o "redesenho" que os travestis fazem com seus corpos. A estilista se interessa pelo modo "artesanal" com que estas pessoas reconfiguram a imagem de si mesmas: suas curvas, suas roupas, cabelos e gestos. Preocupados em deixar os quadris mais largos, os seios maiores, travestis - em geral, sem dinheiro suficiente para recorrer a intervenções cirúrgicas - usam técnicas domésticas para se tranformar.
Este processo de "redesenho" é associado ao processo criativo da moda, da confecção de estilistas que procuram concretizar idéias e imagens mentalizadas. Embora Barreto não se inspire no modo de vida travesti para confecção de roupas, a estilista reconhece nas "meninas" uma predisposição automática à profissão modelo. Barreto diz que não conseguiu nenhuma foto espontânea para seu ensaio: os travestis, quando vêem a câmera, inevitavelmente posam - com vaidade - para o retrato.
Por outro lado, a transformação artesanal dos corpos pode e traz graves problemas de saúde. A aplicação de silicone de automóvel, por exemplo, mais acessível aos travestis que o produto atestado por médicos, muitas vezes leva a inflamação, que, se não tratada devidamente, mata.
Para representar a fragilidade, as fotos de "Trans: registros de um redesenho mútuo" foram impressas em papel sulfite. Carol escolheu suporte suscetível para "fazer alusão à vulnerabilidade da pele e corpo dos travestis", explica.
A exposição está na Galeria Jayme Fygura, Teatro Gamboa Nova (Lg. dos Aflitos, 3, Gamboa), de Salvador, até dia 1º de junho.
Terra Magazine