Terra Magazine

 

Quarta, 30 de abril de 2008, 10h29 Atualizada às 16h30

Tom Zé: fala sobre baixo QI é niilismo americano

André Conti/Divulgação
Para o cantor Tom Zé, declarações do coordenador do curso de medicina da UFBA são fruto da massificação do niilismo americano, que bota na televisão ...
Para o cantor Tom Zé, declarações do coordenador do curso de medicina da UFBA são fruto da "massificação do niilismo americano", que bota na televisão "uma cultura de massas absolutamente imoral"

Diego Salmen

Para o cantor Tom Zé, as declarações do coordenador do curso de medicina da UFBA, Antônio Dantas, sobre o "baixo QI" (quociente de inteligência) dos baianos são uma "coisa inocente, completamente sem base".

- Alguns grupos são particularamente influencidados pela filosofia do niilismo americano que tá na televisão e aí aparecem esses fenômenos - critica.

As declarações foram dadas por Dantas à Folha de S. Paulo nesta quarta-feira para justificar o resultado desfavorável obtido pelo curso, o mais antigo do país, no Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes). Os alunos tiveram nota 2 na avaliação - numa escala que vai de 1 a 5.

O coordenador do curso de medicina não foi localizado pela reportagem para comentar o assunto. Ele disse ainda que baiano "toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais não conseguiria".

- Há uma exigência maior de sensibilidade para tocar o berimbau - defende Tom Zé. - O berimbau é uma coisa muito mais complexa do que essa coisa de uma corda só. Não foi feito para tocar música ocidental, foi feito para outra concepção de mundo - explica.

Ao fim da conversa, Terra Magazine agradeceu respeitosamente ao "senhor" Tom Zé pela atenção dada à reportagem.

- O senhor tá no céu, deixe de ser moleque - diverte-se.

A seguir os principais trechos da entrevista com Tom Zé.

Terra Magazine - O coordenador do curso de medicina da UFBA declarou que...
Tom Zé -
Fale devagar que eu ouço mal.

O curso de medicina da UFBA teve um resultado ruim no Enade. O coordenador do curso, Antônio Dantas, atribuiu isso ao "baixo QI" dos baianos. O que o senhor acha disso?
(às gargalhadas) Que maravilha. E ele não é baiano não?

É baiano.
Essa declaração não merece nem...é uma coisa inocente, completamente sem base em coisa nenhuma. Nenhuma população de nenhum canto do Brasil pode ser avaliado como (tendo) baixo QI. O que acontece é que em alguns momentos alguns grupos são particularamente influencidados pela filosofia do niilismo americano que tá na televisão e aí aparecem esses fenômenos. Mas aí pode aparecer na Bahia, em qualquer lugar; isso é bobagem.

Ele também disse que o baiano só toca o berimbau porque tem um corda só; se tivesse mais de uma, não conseguiria tocar. O senhor ao que parece toca outros instrumentos além do berimbau, não?
(risos) É...naturalmente. Não é só isso. Primeiro que o berimbau que compõe uma....tá gravando?

Sim, estamos.
Deixa eu dizer editado pra você botar aí: o berimbau faz parte de uma cultura que enriquece a Bahia e o fato dele ter uma corda só é um dado complicador que fala bem dos que tocam esse instrumento ao invés de falar mal. É uma exigência maior de sensibilidade para tocar o berimbau, é uma exigência maior de sensibilidade e adequação. Precisa compreender qual é a função dele dentro da mítica da capoeira porque o berimbau tem uma microtonalidade especialmente difícil para pessoas educadas na escala diatônica ocidental. O berimbau é uma coisa muito mais complexa do que essa coisa de uma corda só. A riqueza timbrística dele e a funcionalidade dele...o berimbau não foi feito para tocar música ocidental, foi feito para outra concepção de mundo. É isso que se precisa compreender.

Há um certo preconceito ao dizer isso, que o baiano toca o berimbau só porque tem uma corda?
Não, tem uma falta de entendimento da delicadeza da matéria (risos).

E quanto à questão do QI baixo?
Pô, aí é o que eu disse: nesse Brasil, principalmente a Bahia, que é um mundo diferente do Brasil, uma cultura diferente e muito rica, nem lá e em nenhum canto do Brasil se pode acusar grupo social de QI baixo. Isso é uma espetacularidade na declaração, é uma estratégia dele. Talvez funcione até para os termos em que ele tá interessado. Mas isso absolutamente não acontece. Esse problema de QI baixo começou a acontecer na Europa, com aquele casamento de primos durante séculos e séculos. E a Bahia é uma terra muito plural do ponto de vista da miscigenação, onde a espécie humana - muito pelo contrário - está muito sensibilizada para compreensões mais metafísicas da vida. Agora, realmente com essa massificação do niilismo americano que bota na televisão uma cultura de massas absolutamente imoral, de repente um pequeno grupo na Bahia, ou em São Paulo, ou no Rio Grande do Sul - não, tire o Rio Grande do Sul disso - ou no Rio de Janeiro podem estar muito dominados pela cultura, muito....

Suscetíveis a isso, vamos dizer.
Isso, suscetíveis a isso. Perfeito, você completou bem. (Suscetíveis) a essa cultura do crime que Hollywood, que o desespero da vida americana está divulgando pelo mundo.

 

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