
Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)
Embora seja de uma família fanática pelo Internacional, desde criança, eu que também torço pela equipe colorada, sempre procurei não me transformar num desses torcedores que, se o time perde, adoecem ou agem irracionalmente como se fosse o fim do mundo. Por isso, escrever sobre o dia de ontem, o domingo da final do campeonato gaúcho só se justifica sob um pequeno conjunto de circunstâncias especiais.
Ao contrário do que se poderia supor, não tratarei da vitória de 8x1 do Internacional sobre o Juventude; até poderia, já que na história recente do meu time há uma lamentável coleção de derrotas para o time de Caxias do Sul. Sem exagero, o jogo mereceria uma crônica ao estilo do ótimo "O segundo tempo" (São Paulo: Companhia das Letras, 2006), do escritor gaúcho Michel Laub, mas, infelizmente, não serei eu a me candidatar à missão.
Este foi o primeiro final de semana de inverno de verdade por estas bandas. Choveu o tempo todo, fez frio e na madrugada de sábado ventou muito além do que anunciaram as previsões mais calamitosas; rajadas acima de cem quilômetros por hora, estragos na cidade como há muito tempo não se via.
No sábado pela manhã, quando saí de guarda-chuva para comprar os jornais do centro do país (a banca de revista bacana fica a três quadras do meu prédio), fui surpreendido pelos estragos do Ciclone. Árvores de décadas caídas sobre casas, automóveis, muros, cercas, falta generalizada de luz (a luz que no meu bairro só voltou à noite), sirenes, ambulâncias, caminhões de bombeiros, lojas fechadas por alagamento, por falta de energia, e a chuva caindo sem parar.
Talvez nada disso significasse tanto se eu não estivesse passando pela pior gripe dos últimos dez anos, com direito a dor no peito, tosse e tudo mais. O fato é que no domingo acordei enfraquecido (como acho que nunca havia ficado), sentindo o frio se infiltrar até os ossos, sabendo que os exageros da semana (pouco agasalho, falta de sono etc.) estavam cobrando o seu preço. Dia perfeito para puxar a cordinha e pedir para descer.
Mas não desci. Fiquei trabalhando nas encomendas literárias, ajeitando os detalhes logísticos para semana e aguardando a partida que para o Internacional, mesmo jogando em casa, não prometia ser fácil (na primeira partida da rodada o Inter perderá por 1x0 em Caxias do Sul).
Minutos antes de se iniciar o jogo, olhando pela janela do meu escritório, navegando pelas notícias da internet, senti a desolação da cidade e percebi a minha própria. O inverno tem os seus pequenos desastres, mas nós mesmos temos o olhar que pode deixá-los maiores ainda.
Antes de desligar o computador para assistir ao jogo, cliquei no link da página do Terra que noticiava: "Desanimado, Ronaldo faz churrasco em Angra". Li as fofocas em torno da rotina dominical do craque e, pela primeira vez, sem muita informação (não costumo me interessar por esse tipo de tititi), refleti sobre o ocorrido.
A dúvida que fica é a seguinte: estão condenando o jogador por ter procurado um programa com profissional do sexo ou por ter se envolvido com travestis. Há um preconceito enorme nas leituras da imprensa, há uma hipocrisia que perpassa todo o debate.
Acho que se o Ronaldo Nazário cometeu erros na vida, não pode ser incluído nesse rol o fato de ter ido para a balada (seja lá o que dentro da sua esfera privada isso signifique), sem agredir ninguém, sem dirigir bêbado, sem causar dano material de qualquer espécie. Vou encurtar a conversa.
Se a Nike e os outros patrocinadores vão, de fato, penalizá-los por ter se envolvido com homossexuais (com prostitutas de luxo pode?) - não interessa se por engano ou não - a comunidade gay que compra (e pelo que se noticia compra de verdade) os produtos da Nike e dos outros patrocinadores deveria pensar seriamente se se manterá consumidora das mercadorias dessas empresas.
Sim. Incomoda-me o preconceito, qualquer tipo de preconceito - já cheguei a sugerir à comunidade negra (e mestiça), aqui nesta coluna, que boicotasse todos os patrocinadores de programas que desrespeitem sua (nossa) condição racial com piadas, exclusões e por aí vai.
Ah, desculpem, mas acabei de lembrar que raça não existe (não, não estou usando deliberadamente uma gague do Arnaldo Jabor), e talvez nem tenha havido ciclone, nem estive gripado, nem domingo é dia para alguém se sentir desolado mesmo que horas depois seu time tenha sido campeão do Estado.
Terra Magazine