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Quarta, 7 de maio de 2008, 10h06 Atualizada às 10h17

Mônica Serra: "O balé me deu jogo de cintura"

Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Mônica Allende Serra, bailarina chielena, acompanhada de seu marido, o governador José Serra.
Mônica Allende Serra, bailarina chielena, acompanhada de seu marido, o governador José Serra.

Myriam Aravena Guerrero
De Santiago, Chile

No meio de muita confusão em São Paulo e sob uma chuva torrencial, conversamos com Mônica Allende, a chilena que talvez venha a ser a primeira dama do Brasil. Com um melodioso sotaque português que escapa em cada frase, Mônica nos falou sobre suas lembranças do Chile e sua vida atual como primeira dama do Estado que abriga a maior urbe da América do Sul, São Paulo, do qual seu marido, José Serra, é governador.

Proveniente de uma família de artistas e bailarina de profissão, esta multifacetada chilena teve que aprender a conviver de perto com a política, sobretudo agora que seu esposo é candidato às próximas eleições presidenciais, com o apoio político do ex-mandatário Fernando Henrique Cardoso.

Atualmente, Mônica toca um de seus projetos mais queridos: "Pedalando e Aprendendo", que depende do Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo, pelo qual ela é responsável. O projeto tem por objetivo reduzir a taxa de abandono escolar tendo como grande aliada a bicicleta.

"Pedalando" está orientado às crianças de 8 a 14 anos que vivem em zonas rurais e que têm que caminhar mais de três quilômetros para chegar à escola. Elas recebem gratuitamente uma bicicleta para que possam se deslocar até o colégio. "Aprendendo" serve para que os garotos maiores aprendam a andar de bicicleta e também consertá-las, para que assim possam montar seu próprio negócio e ganhar dinheiro, sem deixar de estudar.

Leia a entrevista com Mónica Serra:

Terra Magazine - Como conheceu seu marido, José Serra?
Mônica Serra -
Ele estava exilado no Chile e trabalhava com Aníbal Pinto na Cepal. Aníbal era pai de "Maluchita" Pinto, e José foi seu assistente quando ele dirigiu a Cepal. Malucha Solari, a esposa de Aníbal Pinto, era bailarina e colega minha, colega de uma geração acima, já era primeira bailarina quando eu entrei no balé. Houve uma festa e acabei o conhecendo ali, senão dificilmente conheceria um economista, porque nós vivíamos no meio dos músicos, das festas, do teatro.

Foi bem providencial...
Sim, porque ele estava totalmente fora do ambiente que eu freqüentava.

A senhora conversa sobre política com seu marido?
Não, marido e mulher não conversam sobre essas coisas. Nós temos dois netos que são nosso mais habitual tema de conversa: as últimas diabruras das crianças. Isso nos atrai muito mais. Eu na verdade tento fazer com que ele descanse das coisas do governo quando estamos juntos, então realmente não abordo o tema. Informo-me pelo que vejo, pelo que leio no jornal, pelas conversas de que participo, que são reuniões sociais onde se comentam coisas com outras pessoas. Mas em família tentamos fazer com que ele descanse.

Qual a parte difícil de ser a esposa de um político?
Tem uma coisa que incomoda muito, que é a posição em que os outros te colocam: um pouco distante, de uma figura que encarna e que você não é. Isso te coloca em uma distância muito grande porque não é uma relação de pessoa a pessoa, mas sim uma relação com a figura que você representa e isso é o mais difícil, porque você fica como se por detrás de uma parede.

A senhora teme que isso aumente com a campanha presidencial?
Sim, mas já aprendi a quebrar esses gelos, a me aproximar mais das pessoas. Não entro muito nesse papel.

O que dizem no Brasil do fato de a senhora poder vir a ser chamada de primeira dama?
Olha, me soa como algo simpático, não fica como uma coisa assim que falem "ah, mas ela é estrangeira"; pelo contrário, existem muitos mais comentários que dizem que me converti em brasileira. Eu mesma expandi isso, internamente: eu sou mais latino-americana, assumindo as duas nacionalidades.

E a senhora teve que aprender a se mover no mundo de seu marido?
Sim, ser bailarina me ajudou muito porque me deu muito jogo de cintura.

Como assim?
Flexibilidade, de poder ter habilidade de me mover em várias situações. É mais no sentido figurado de ter flexibilidade de corpo para estar em várias situações e saber se mover.

A sua carreira de bailarina acabou?
Sim, e cheguei a ser bailarina do tipo mais clássico. Desde pequena minha mãe me levou para as aulas para corrigir uma lordose que me afetava, para aprender a ficar parada e essas coisas. Aos cinco anos fiz uma coreografia de presente para minha madrinha: inventei um balezinho com a música de "O Morcego", de Strauss. Todos acharam fantástico porque preparei tudo sozinha. Eu fechava as portas e pedia que colocassem a música e ficava dançando e inventando. E então minha mãe disse que certamente eu tinha no sangue isso de ser bailarina, me colocou em aulas e nunca mais parei. Bem, parei quando veio o golpe e tive que sair do Chile. Nessa época eu estava no Balé Nacional Chileno.

Em que circunstâncias saiu do país?
Eu saí exilada porque meu sobrenome é Allende, então era muito perigoso andar pela rua e explicar que não tinha nada a ver com Salvador Allende, que ele não era da minha família. Se eu demorasse a me explicar, com certeza estaria morta.

Tem algum parentesco com o presidente?
Não, não tenho. Eu sempre digo que não, mas parece que para alguns jornalistas deve ser um "charme" ter algo a ver, então o colocam de qualquer jeito. Da mesma maneira, Isabel Allende, a escritora, também não tem nada a ver e diz a mesma coisa (eu a estou plagiando). Ela sempre explica que não, mas não adianta: sempre publicam o contrário.

No Brasil a senhora também é vista como parente de Allende?
Também. Sempre me fazem a mesma pergunta. É recorrente.

Continuou se dedicando à dança, fora do Chile?
Não, mas aproveitei algumas coisas que a dança me deu. Depois, estudei Psicologia na Universidade Cornell, no Estado de Nova York, e mais tarde me aperfeiçoei em análise do movimento, de Laban.

De que se trata?
Pessoas que se movimentam de uma e de outra forma têm qualidades específicas em seu movimento que são reveladoras de sua identidade. O que aprendi para dançar mais tarde apliquei em cursos de psicologia do desenvolvimento do movimento. Minha tese se relacionava a isso, aliás: fiz uma análise dos movimentos possíveis da personalidade criativa e da personalidade não criativa, vistas através do comportamento.

A senhora foi uma das primeiras a desenvolver esse tema?
Não, existia uma análise de personalidade proposta por uma inglesa chamada Marion North; foi ela que descobriu que o movimento podia revelar a personalidade. O que eu fiz, o que contribuí de novo, foi a visualização específica dos comportamentos da personalidade criativa. Ou seja, uma coisa é a personalidade como um todo, revelada pelo movimento; e outra é o tipo de personalidade e a que tipo de movimento ele se vincula. Fiz uma análise exaustiva disso.

A senhora tem forte sotaque português. Qual é seu relacionamento atual com o Chile?
(Ri). Sim, estou aqui há tantos anos! Mas se visito o Chile, ele se vai em uma semana (o sotaque). E quando volto a São Paulo depois de passar uma semana ou 15 dias no Chile, retorno toda castelhana.

E com certeza alguém reclama disso.
Claro, claro.

A senhora passou 13 anos sem ir ao Chile. O que causou mais impacto ao retornar?
Quando voltei pela primeira vez havia muito medo de falar, de se expressar. Fiquei chocada por uma amiga me dizer, sobre outra: "cuidado com o que você diz a ela; pode ser perigoso". E depois ouvi a mesma coisa dessa outra amiga. Fiquei muito chocada com essa divisão, porque era como se o país estivesse dividido em dois.

Como a senhora vê a situação atual do Chile?
Sinto-me orgulhosa por o Chile ter uma mulher na presidência. Bem, ficaria ainda mais orgulhosa se tivesse podido votar nas eleições, mas não pude. O Chile não permite que você vote do exterior, ao contrário do Brasil, onde os cidadãos que estão fora do país podem votar na embaixada. Isso não existe no Chile.

Houve uma discussão no país a respeito, mas não chegaram a um acordo.
Ah, sim. Inclusive, minha irmã que vive nos Estados Unidos fez parte de um movimento que defendia essa idéia, mas parece que a proposta não se consolidou. É um tema importante, porque existem muitos, muitos chilenos vivendo no exterior, e eles acompanham o que acontece no país. Eu vejo pela minha irmã e um grupo de chilenos que vivem fora.

O que mais a agrada no Chile?
O que mais me dá prazer é ver o desenvolvimento do país. A limpeza da cidade, que é uma coisa muito perceptível e todo mundo que vai ao Chile comenta, porque um dos problemas é a agilidade na limpeza da cidade. É como se entrasse e saísse gente de sua casa sem parar e mesmo assim você conseguisse manter o piso sempre brilhante. Difícil, porque uma cidade é algo que é usado vigorosamente, e quanto mais moradores, mais complicado. As megacidades têm esse grande problema com a coleta do lixo, a limpeza da cidade, manter os gramados aparados. Trata-se de uma coisa bem complexa para a administração e no Chile os sistemas implantados parecem bem eficientes.

E o que a desagrada no Chile?
O que me desagrada? Que quando vou para lá no verão não haja neve na cordilheira, não haja tortas de maçã. (Risos.)

O que mais lhe faz falta?
Agora tenho uma chilena trabalhando comigo que me faz empanadas e pastel de choclo como os de minha mãe; com ela, me sinto no Chile. De vez em quando, peço que faça esses pratos para mim. Mas só de vez em quando, para não me acostumar demais.

Seu marido gosta de empanadas e pastel de choclo?
Sim, muito. Ele adora a comida chilena.

A senhora não cozinha.
Não, cozinhar não é meu forte, claramente não. Nunca quis competir com minha irmã, que cozinha muito bem; assim, eu dançava e ela cozinhava; eu sabia mexer as pernas e ela sabia mexer as mãos.

Quais são seus projetos atualmente, como primeira dama de São Paulo?
Tenho duas ONGs: Arte Sem Fronteiras e o Instituto Se Toque, que foi criado para informar sobre a campanha de prevenção ao câncer de mama. Trata-se de uma campanha absolutamente inédita e incomum, porque está dirigida não às mulheres em risco, mas às crianças. Normalmente a expectativa é de que uma mulher realize uma mamografia ao ano, mas os hábitos não se criam a intervalos tão largos; é preciso que o período seja mais curto. Nossa idéia é desenvolver o autotoque como método primário de prevenção, uma vez por mês, que é o tempo mínimo para criar hábitos: a mulher tem sua menstruação uma vez por mês, paga contas uma vez por mês...

Algum projeto que a senhora ambicione caso se torne primeira-dama do Brasil?
Acho que expandir a campanha de prevenção ao câncer de mama ainda mais. Estive em Washington, e o Departamento de Saúde dos Estados Unidos se interessou pela campanha, que é absolutamente inédita e diferente. Isso está crescendo muito, ganhou vida própria e certamente continuará a se expandir.

 

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