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Quinta, 8 de maio de 2008, 07h59

Use a boa homeopatia e morra feliz

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Povo de Sucupira! Hoje eu acordei disposto a compartilhar. Um dia de cristão na vida de um cristão, de vez em quando, faz bem à consciência, à cútis, ao nosso prazer de viver. Portanto, a ele. Mas é só até hoje.

Leiam o divertido "Como a picaretagem tomou conta do mundo". Instruído como todos devem ser, e fanfarrão, como nenhum cristão deveria ser, informo aos queridos leitores que li em inglês, "How mumbo-jumbo took over the world", de Francis Wheen.

Basicamente ele nos chama atenção para o fenômeno new age que começou na hora em que alguém resolveu chamar aquela tortura indiana de "ioga", com ô, em vez do bom e milenar "ioga" que nossas avós nunca praticaram porque viveram em tempos mais duros e menos bestas. O fenômeno new age iniciou assim, com jeitinho de quem não faz mal a uma mosca e se alimenta de azeite extra-virgem e tomates secos, e quando vimos, nos diz Wheen, a medicina pública na Inglaterra estava pagando por tratamentos alternativos - i.e. altamente não comprovados em sua capacidade de nos trazer qualquer benefício exceto, talvez, o de irmos ao encontro do Criador beeem antes do momento geneticamente acordado na hora do nosso nascimento.

A imprensa ajuda na construção da maluquice que nos cerca. Feng Shui: muito bem; ou eu arrumo o sofá da sala em perfeito alinhamento com os cinco elementos da astrologia chinesa, ou a escada em caracol vai seguramente se jogar em cima de mim, na primeira oportunidade. Certo.

O movimento da picaretagem, como quase todos os movimentos contemporâneos, é globalizado e, ao que sei, nosso glorioso SUS também passou a oferecer preciosidades como as gotinhas energizadas da homeopatia aos seus pacientes pacientes, todos em fila.

Eu tremo só em pensar que eu possa aparecer em um consultório médico com pontada de pneumonia e alguém me aplica uma demente floral do Dr. Bach. Faço uma bela de uma trombose e alguém me dá uma pirâmide pra segurar, Amon-Ra é a solução.

Não! Não foi pra isso que inventamos o Iluminismo e o Humanismo e o método científico e a aspirina e a anestesia do dentista. Fizemos tudo isso exatamente para nos livrarmos do misticismo que nos manteve por séculos passando muito frio e muita fome. Foi só abolirmos a sangria e pimba, loguinho estávamos inventando o aeroplano. Bastou nos livrarmos das crendices tolas e em segundos históricos estávamos nos mandando céu a fora pra ver se a Lua era mesmo feita de queijo roquefort.

O livro é divertido, tira um saudável sarro dessas bobagens todas que nos legaram os antigos povos da Atlântida e Mesopotâmia, que como todos sabem, era alados e sabiam de tudo que existe para saber. Como bobagem não tem idade, Wheen olha de lado para as besteiras legadas por franceses como os incompreensíveis Derrida e aquele bando desconstrucionista, parentes distantes do nosso estimado Lair Ribeiro e sua falecida neuro-lingüística, alguém ainda lembra daquela bobagem?

Wheen nos deixa a imagem de Tony Blair, sim, até mesmo ele, e sua Cheri, dançando pelados em uma praia mexicana em um ritual asteca, felizmente dos que não terminavam em um sacrifício ritual, ao que parece.

Acho que foi Lima Barreto quem criou a deliciosa expressão "metafísica para parvos". Parvos são tolos, para os leitores do nosso século compreenderem essa palavra gostosa e antiga. Metafísica para parvos. Paulo Coelho, esse sim, compreendeu o valor mercadológico desse vasto segmento da sociedade contemporânea. E, por isso mesmo, diferentemente do Lair Ribeiro e similares, segue aí mesmo, forte, impávido, e um colosso de vendas, provando que escrever minimamente bem não tem ligação alguma com a leitura que faz uma verdadeira e fiel legião que nossos tempos sabem tão bem produzir.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que será publicado em setembro pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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